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Por dentro da mente dos negacionistas

Impulsionada por políticos, médicos e ativistas bolsonaristas, a negação da história e da ciência vira uma atitude corriqueira na sociedade e ganha forma na promoção da hidroxicloroquina, na recusa em aceitar o número de mortes pelo coronavírus ou na rejeição às máscaras, ao lockdown e às medidas de isolamento social

Crédito:  TIM COLE

REAÇÃO Manifestantes na Austrália enterram a cabeça na areia em protesto contra o pensamento negacionista: defesa da ciência (Crédito: TIM COLE )

POLÍTICA Para a prefeita de Bauru, isolamento é medida “paliativa” (Crédito:Divulgação)

O negacionismo é insidioso e traiçoeiro. Ele se espalha por ruas, bares, igrejas, mídias sociais e se dilui, sorrateiro, em toda a sociedade. Quando menos se espera, seu parente começa a falar bem da hidroxicloroquina e a dizer que não quer ser imunizado com vacina chinesa. Ou vem um colega e diz que não houve viagens à Lua e que a Terra é plana. Poucos batem no peito e afirmam: “Sou negacionista!”, mas em conversas informais e em notícias de jornais o pensamento científico está sendo ultrajado com uma fúria medieval em todos os cantos do Brasil.

Embora haja influência estrangeira, a atitude de negar a história e a ciência por aqui tem características especiais. Primeiro há um presidente negacionista, Jair Bolsonaro, liderança que exerce o charlatanismo à luz do dia fazendo propaganda enganosa de medicamentose influenciando milhões de pessoas com ideias fora do lugar. E depois existem questões locais, como a tentativa de fazer revisionismo histórico com o golpe de 1964 e a Ditadura, ou a negação do racismo estrutural, fato perverso e incontestável.

KIT COVID O médico Eduardo Leite toma um comprimido de cloroquina antes de entrar no avião (Crédito:Divulgação)
INSANIDADE Grupo negacionista defende uso de tratamento precoce e recusa o lockdown: mortes não importam (Crédito:Daniel Resende)

Assumindo-se parcialmente, os negacionistas ocupam hoje uma zona de sombra na sociedade, mas emitem um barulho infernal. Poucos são negacionistas em tudo, mas uma parte cada vez maior da população está aderindo a uma ou outra ideia estapafúrdia que ofende o consenso científico. O que move essas pessoas pode ser a crença religiosa, um interesse político ou econômico ou a mera falta do que pensar. Não é preciso ser terraplanista ou antivacina para ser negacionista. Há outras questões atuais para tripudiar a ciência. Uma das teorias conspiratórias em voga diz que a Organização Mundial de Saúde (OMS) está a serviço da China. Outra, que a Coronavac não é eficaz. Fala-se também que o isolamento social e o lockdown não funcionam e que há uma ameaça comunista no Brasil. O principal efeito disso é perturbar políticas públicas produtivas e desacreditar instituições confiáveis com o objetivo de criar controvérsia. E, no limite, o aconselhamento anticiência pode levar pessoas à morte, por não respeitarem o isolamento, não usarem máscaras ou adotarem caminhos médicos falaciosos, como o tratamento precoce receitado pelos médicos bolsonaristas.

Nesse contexto de desmoralização da ciência, surgiu uma associação chamada Médicos pela vida, que promove exatamente o tratamento precoce de Bolsonaro. O grupo de 267 médicos das mais diversas especialidades resolveu defender abertamente experiências que contrariam o consenso científico. Assinou um documento na Câmara da cidade gaúcha de Santa Maria em que estimula o uso do chamado kit Covid, composto pelos medicamentos hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, bromexina, nitazoxanida, zinco, vitamina D, anti-coagulantes e inventado pelo governo Bolsonaro. Segundo o gastroenterologista Eduardo de Freitas Leite, que preside o grupo, o vírus é de baixa letalidade e se o paciente for submetido à terapia com os remédios do kit, a chance de se salvar é grande. “O que causa a morte das pessoas não é o coronavírus, mas a forte reação do sistema imune”, afirma. Leite explica que as medidas de distanciamento social e o lockdown só causam desespero na população. “Onde já se viu não poder sair com os amigos para um bar”, reclama. O médico despreza a OMS. “A instituição está corrompida, quem manda é o cartel das empresas farmacêuticas”, ressalta. O cirurgião conta que quando esteve na sessão solene para a assinatura do documento em Santa Maria utilizou a cloroquina. “Sou um homem de 72 anos e sempre que viajo de avião, pego algum vírus. Então, antes de voar tomei meu comprimido”, conta.

PROTESTO No vão do Masp, membro do grupo Liberta Brasil se manifesta sem máscara (Crédito:GABRIEL REIS)

Mesmo com fartos trabalhos científicos que negam o potencial desse medicamento contra a Covid-19, os negacionistas não mudam o discurso e buscam uma oportunidade para professar o obscurantismo. Um de seus alvos imediatos é a Nasa, que levou o homem à Lua e atualmente opera o veículo-robô Perseverance na superfície de Marte. Evidentemente, eles não acreditam na viagem de Marte e muito menos na chegada à Lua. “A Nasa não me engana, a Terra é plana” é um dos slogans que vem sendo divulgados atualmente nas mídias sociais pelos detratores da ciência. Outro alvo de sempre é o físico Isaac Newton e suas leis básicas da física. O questionamento à Lei da Gravidade sempre se insinua em grupos terraplanistas. O próprio Olavo de Carvalho, guru dos bolsonaristas, questionou a gravitação como explicação para vários fenômenos na natureza. Um dos problemas do negacionismo mais empedernido, é que ele começa a se confundir, na cabeça de seus membros, com uma espécie de conhecimento secreto, que envolve uma presunção de superioridade. Não por acaso, sempre que há negacionistas surge a conversa dos Illuminati e das pessoas que enxergam a verdade. Mas quando precisam falar fora das bolhas, muitos deles se calam ou sucumbem por falta de argumentos.

“Costumo sair para confraternizar com meus amigos, sou a favor do isolamento vertical e só uso máscara porque não quero arrumar confusão” Douglas Garcia, deputado estadual (PTB-SP) (Crédito:GABRIEL REIS)

Não é o caso do servidor público Joy Costat Calleri, 26 anos, de Taperoá (BA), que terminou o ensino médio, e fala abertamente de suas posições anticiência. Ele conta que se tornou terraplanista por influência religiosa, mas que não é negacionista e “apenas reflete a realidade”. “A Bíblia da qual faço uso e acredito fala sobre uma Terra estacionária e com bordas, semelhante ao modelo Terra plana”, diz. “Não posso acreditar numa ciência que diz que viemos do macaco e que a Terra foi criada através da explosão do Big Bang.” Quanto ao fato do planeta ser observado do espaço em sua configuração circular, ele afirma “não acreditar, de forma alguma, na hipótese de que o homem possa ir ou ter ido ao espaço”. Sua tese é que não existem as tecnologias necessárias para isso. “Hoje eles alegam que não vão à Lua porque não têm tecnologia o bastante e como o homem foi à Lua no século passado, sem as grandes tecnologias que temos hoje? É meio que hipocrisia”, questiona. Calleri também dúvida da Lei da Gravidade. “Segundo os globistas, a gravidade puxa tudo para o centro da Terra, porém, para mim, o que refuta essa hipótese é que os aviões voam sem nenhum problema”, diz. Quanto às vacinas, ele diz que as toma, mas não confia em todas. “Essa da Covid é muito precoce para podermos confiar”, diz.

TERRAPLANISTAS Militantes negam a Lei da Gravidade e a Terra redonda (Crédito:Rafael Roncato)

Na política, em São Paulo, o deputado estadual Douglas Garcia (PTB), 27, vice-presidente do Movimento Conservador, organização de direita, se destaca na divulgação de ideias anticiencia. Sem pudor, o parlamentar defende que o médico, ao atender o paciente, deve ter plena liberdade de prescrever o medicamento que lhe pareça mais apropriado contra o coronavírus e, nas suas palavras, medidas de distanciamento social, como as implementadas no estado, são irrelevantes. “Costumo sair para confraternizar com meus amigos, sou a favor do isolamento vertical”, afirma. A respeito do uso obrigatório de máscara diz que “só usa porque não quer arrumar confusão”. O deputado dissemina a ideia de que a OMS é uma instituição contaminada politicamente pela China e pela Rússia, países comunistas, e declara seguir ensinamentos de médicos como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que minimiza a pandemia. “Tudo que a OMS recomenda, faço ao contrário”, afirma.

Políticas públicas

Entre os grupos anônimos anticiência que rondam as redes sociais um dos mais representativos desse momento pandêmico é o denominado Curitiba Patriota. Seu principal líder, César Hamilko, expõe um pensamento sanitário nebuloso e acredita que o Brasil está sob permanente ameaça comunista. “Temos certeza de que o tratamento precoce dá certo, é a principal ação de combate contra o vírus”, afirma. Ele diz que seu grupo optou por fazer uso profilático do medicamento ivermectina, um anti-helmíntico. “Cuidamos de nossa imunidade com vitaminas C, D, Zinco e outras mais”, afirma. A respeito da OMS é veemente. “Eles não são confiáveis”, diz. Em São Paulo, outro movimento recém-formado, o Liberta Brasil, que mantém um acampamento no vão do MASP, também desafia a ciência. Um de seus líderes, o professor de muay thai Ricardo Roggieri, diz que não usa máscara e ele e toda a família tomam um comprimido de hidroxicloroquina por semana. “Só lamento que qualquer pessoa de direita que defenda a liberdade e está contra as imposições de isolamento de governos municipais e estaduais seja chamada de terraplanista”, afirma.

A prefeita de Bauru, Suéllen Rosin (Patriota), está naquele lugar difuso em que o negacionismo pode prejudicar políticas públicas e acha que medidas de lockdown na sua cidade são pouco funcionais. Suéllen teve uma reunião com Bolsonaro para tratar da pandemia e foi acusada pelo secretário de Desenvolvimento Regional de São Paulo, Marco Vinholi, de ser negacionista. “Não se trata de ser contra ou a favor do lockdown. Tenho obrigação de governar para todo mundo. A política de isolamento é paliativa. O vírus não vai desaparecer”, justifica. Ela se considera cristã e diz que a base do seu pensamento é a palavra de Deus. “A ciência inclusive foi criada por ele. Governo pedindo sabedoria para Deus todos os dias para fazer boas escolhas”, afirma.

Por mais incrível que pareça, a confusão a respeito das medidas contra a Covid-19 foi criada por negacionistas em posições de poder. Em vez de esclarecer, esses personagens querem confundir. Mesmo 502 anos depois de Fernão de Magalhães dar uma volta completa no globo terrestre e 100 anos depois da vacina contra a varíola comprovar a sua eficácia, ainda há gente que questiona a imunização ou acha que a Terra é plana. A atitude de ceticismo exacerbado e irracional diante de tudo que não vem de Deus e a desconfiança das explicações científicas para os fenômenos naturais, estimulada pela Igreja durante séculos, continua mais forte do que nunca no Brasil. Como disse na semana passada o ambientalista e filósofo Ailton Krenak, a máquina negacionista no Brasil e no mundo está mais ativa do que nunca. E é indispensável que ela seja combatida.