Brasil

Casas de Poker se multiplicam, às vésperas da chegada dos cassinos ao Brasil

Reconhecida como esporte da mente, a modalidade caiu no gosto dos brasileiros nos últimos anos. País tem oito milhões de jogadores, dos quais 80 mil frequentam ambientes de apostas

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ENTRE AMIGOS O Poker Blinders surgiu como alternativa a grandes casas e oferece ambiente intimista (Crédito:Gabriel Reis)

Esquece essa história de que o Brasil é o país do futebol. O Brasil hoje é o país do pôquer”. A frase, dita por Alex Brito, campeão mundial da modalidade e conhecido como o “Money Maker brasileiro”, pode não encontrar lastro na realidade. Mas reflete com perfeição a paixão e o entusiasmo dos praticantes do chamado esporte mental. “Viciante” é o adjetivo que mais se ouve. E, embora ainda falte muito chão para o pôquer se tornar paixão nacional como o futebol, a cada dia aumenta o número de interessados. É um mercado que movimenta bilhões. “Houve um boom nos últimos três anos”, observa Alex Brito. Essa multiplicação de jogadores e casas para a prática da modalidade no Brasil vem acontecendo num ambiente político que propicia a discussão sobre a liberação dos cassinos no País. A estimativa é de que 8 milhões de pessoas joguem pôquer no Brasil, principalmente online. Desse total, cerca de 80 mil pessoas também frequentam espaços físicos dedicados às partidas.
O reconhecimento do pôquer como esporte foi fundamental para a popularização da atividade no Brasil. Nos últimos dez anos foram realizados vários torneios por aqui, e há vários jogadores brasileiros que alcançaram a elite mundial: Felipe Mojave, Rafael Moraes, João Simão, André Akkari, Josias Santos. Além disso, personalidades como o jogador de futebol Neymar, do Paris Saint-Germain, e mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ajudaram a trazer notoriedade para o esporte. Neymar muitas vezes é visto jogando pôquer durante seu tempo livre, dá dicas sobre estratégias e desde 2021 e é embaixador cultural de um site que promove a atividade.

Em se tratando de casas de pôquer, há hoje opções para todos os gostos – e bolsos. O Maxx Poker, maior casa da América Latina, com 70 mesas, e maior espaço físico (4 mil m2), funciona em um prédio suntuoso na Avenida Sumaré, em São Paulo. Por dia, recebe cerca de mil pessoas. “Em eventos específicos, chegamos a receber 2 mil pessoas por dia”, conta o CEO da empresa, Rafael Silva. O Maxx Poker paga no mínimo R$ 20 milhões em apostas por ano. Rafael é ex-jogador de futebol do Santos e descobriu nas cartas outra paixão além da bola e uma alternativa para tocar a vida depois que abandonou os gramados. Paixão por paixão, hoje trabalha com o pôquer.

O jogador Alex Brito é um dos fãs da Maxx Poker (Crédito:Divulgação)

O campeão Alex Brito elogia o espaço. “É uma casa grande, conceituada. Lá é estilo Las Vegas, com boa gastronomia e drinques”, diz. Mas ele confessa que se diverte de verdade é em espaços menores. “Não jogo só por dinheiro. Amo o pôquer. Jogo por gosto mesmo. E adoro o Pub Poker Blinders”, revela. “Lá é pôquer raiz, não se perde a essência. Sento para jogar às 9 da noite e levanto às 4 da madrugada do dia seguinte para ganhar R$ 600.” O carro-chefe da cozinha do Poker Blinders? Carne louca. “Carne desajuizada”, diverte-se Vinicius Silva, dono do espaço em sociedade com o irmão, Gabriel Taraio. Vinícius e o irmão já jogavam havia algum tempo, mas não eram frequentadores desse tipo de espaço. “A gente via aqueles clubes grandes e pensava ‘precisamos de um espaço para nos divertir e reunir os amigos’. Foi assim que surgiu a ideia do pub”, lembra. A casa, localizada na Freguesia do Ó, conta com três mesas para o jogo, bar e um fumódromo — que de vez em quando é convertido em espaço para churrascos. Por dia, recebe até 30 pessoas.

CONTAGEM REGRESSIVA Edson Barboza e seu sócio Cleber Dantas vão abrir casa de pôquer no ABC (Crédito:Gabriel Reis)

Em uma região nobre de Santo André, o empresário Edson Barboza se prepara para inaugurar a DB Poker. “Seremos a maior e melhor casa da região do ABC”, diz. “Teremos dez mesas disponíveis. Em tempo real, poderemos ter até 90 jogadores. O pessoal do ABC vai poder jogar pôquer perto de casa”, explica. Barboza não joga, mas viu na atividade uma possibilidade de ter um bom retorno financeiro. Reuniu-se então com outros três sócios para concretizar a ideia. “A gente visitou algumas casas constatou que é um mundo gigantesco. Eu era empresário do ramo de telecomunicações até partir para o desenvolvimento do projeto, onde utilizo meus conhecimentos de gestão”, diz.

Em comum, os envolvidos com o universo do pôquer demonstram um certo incômodo com o fato de que muita gente ainda confunde a atividade, que é legal, com os chamados jogos de azar, que são ilegais. E ressaltam que o esporte envolve estratégia e é mentalmente desafiador, assim como outros jogos como o xadrez, por exemplo. “Não é jogo de azar. Jogo de azar é aquele em que você tem 50% de chance de ganhar ou perder. Pôquer é considerado um esporte da mente”, explica o campeão Brito. “Nele, o sucesso depende 70% de técnica, estudo. Só 30% dependem da sorte”. O fato é que brasileiro adora jogo, seja de futebol, truco, dominó ou pôquer.