Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Populismo e democracia

O retorno de Lula à cena política oferece-nos uma boa oportunidade para revisitar o escorregadio tema do populismo. Tradicional no Brasil e na América Latina, ele agora está se espalhando por todo o mundo, em conexão com a não menos elástica ideia de que a democracia representativa está chegando ao fim. Trump é populista, o húngaro Viktor Orbán é populista, sem esquecer nossos vizinhos menos votados — Cristina Kirchner, Evo Morales, Nicolás Maduro… Enfim, todo mundo é populista. Ponha todos eles numa panela, acrescente o mau humor que se manifesta por toda parte em razão das condições econômicas e do mau desempenho das instituições políticas tradicionais, sal a gosto e pronto, aí está o que nove e meio em cada dez analistas têm a dizer sobre a conexão entre populismo e ocaso da democracia.

Deixemos de lado a ideia de que o líder populista é um demagogo, uma vez que, para mim, um demagogo também pode ser um estadista — e vice-versa. Façamos o possível para entender o conceito a partir de três critérios. Primeiro, o populista invoca o “povo”, declara manter com ele uma ligação especialíssima, quase carnal, mas o pessoal a qual se refere é a parcela da sociedade que o apoia.

Na ótica populista, os “outros”, ora bolas, são os outros: os alienados, os elitistas, os lacaios do imperialismo. Enquanto a parcela a que ele reduz o povo é ética e politicamente superior às instituições representativas, algo que ele leva em conta somente do ponto de vista tático. Segundo — quase um corolário do primeiro —, é o desapreço pelas instituições, pelas regras do jogo eleitoral e pela legitimidade mútua que deve existir entre situação e oposição. Atualmente, ninguém o diz com tanta desfaçatez como José Dirceu. “Nosso objetivo” (ou seja, o objetivo do PT), diz ele, é tomar o poder. E poder não é só eleição. Terceiro, do ponto de vista econômico, o populista não se importa com critérios de racionalidade e muito menos de responsabilidade fiscal. O que importa é o nacionalismo, a ser estimulado a qualquer preço, em especial pela distribuição paternalista de bens e serviços, o que faz as massas ulularem de alegria.

Nessa linha de raciocínio, a presente situação brasileira é curiosa, pois o presidente Jair Bolsonaro encaixa-se bastante bem nos dois primeiros critérios, mas não no terceiro, visto que a política econômica do ministro Guedes é oposta da alucinação fiscal característica dos populismos.

O único elemento demagógico que falta ao presidente é a irracionalidade com  os gastos públicos. É uma situação curiosa, quando comparada com os demais líderes do gênero


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