Saúde

Poluição luminosa pode aumentar casos de partos prematuros

Poluição luminosa pode aumentar casos de partos prematuros

A América Latina é a região do mundo onde se fazem mais cesáreas (44,3% dos nascimentos), segundo um estudo que alerta sobre a "epidemia" mundial deste tipo de parto - AFP


Mariana Nakajuni, da Agência Einstein

Se antes a natureza tomava conta de iluminar a noite, hoje, quem desempenha esse papel são as luzes dos postes, dos anúncios e das fachadas de prédios, principalmente nos grandes centros urbanos. O excesso de iluminação artificial presente em nosso cotidiano gera aquilo que chamamos de poluição luminosa.

A comunidade científica já vem estudando os efeitos dessa poluição nos hábitos dos animais e dos seres humanos. Recentemente, um estudo conduzido por cientistas das Universidades de Lehigh, de Colorado e da Faculdade Lafayette, nos Estados Unidos, demonstrou seus impactos sobre a saúde de recém-nascidos. A pesquisa, publicada no periódico Southern Economic Journal, mostra que o aumento na iluminação noturna leva também ao aumento em casos de gestações mais curtas, partos prematuros e bebês com baixo peso ao nascer (inferior a 2500 gramas).

Para chegar a essas conclusões, os autores mediram diretamente o skyglow em oito cidades do estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Esse importante fator da poluição luminosa nada mais é do que o brilho no céu noturno das grandes cidades, formado por conta de luzes artificiais direcionadas para o alto.

O skyglow gera um efeito alaranjado e esbranquiçado no céu que nos impede de ver as estrelas. A pesquisa demonstrou que quando havia um aumento no brilho noturno, em que só era possível observar entre um terço e um quarto das estrelas visíveis a olho nu em condições ideais, a probabilidade do aumento de partos prematuros crescia em 12,9%.

Uma das razões apontadas pelo estudo é o desequilíbrio do ritmo circadiano, o nosso “relógio biológico”. O excesso de luzes artificiais durante a noite desestimula a produção de melatonina, o hormônio que regula o sono. “A gestação demanda que a mãe durma o suficiente para o desenvolvimento do feto e ter a energia exigida no trabalho de parto”, afirmam os cientistas em seu estudo. “Em particular, a privação de sono durante a gravidez já foi identificada como um fator de risco para nascimentos prematuros”.

Ainda que a pessoa controle sua exposição a luzes dentro de casa, como a redução no uso de televisão e dispositivos eletrônicos, a iluminação noturna vinda de fora, que gera o skyglow, também possui impactos sobre ritmo circadiano, resultando em noites de sono com menor duração e maior sonolência durante o dia.

Os pesquisadores reconhecem que o uso de luzes artificiais à noite são fundamentais no mundo moderno, já que elas melhoram a visibilidade, reduzem acidentes e ampliam a segurança nas ruas. No entanto, ponderam que a sua instalação não leva em consideração os efeitos nos nossos ciclos naturais. Muzhe Yang, professor de economia na Universidade Lehigh e um dos autores do estudo, afirma que “embora o aumento no uso de luzes artificiais à noite seja geralmente associado à prosperidade econômica, nossa pesquisa ressalta os efeitos positivos da escuridão em nossa saúde, e que são negligenciados”.

Este é o primeiro estudo que mede diretamente o skyglow para identificar a influência da poluição luminosa na saúde dos fetos. Para isso, foi utilizada a Lei de Walker, uma fórmula que estima o brilho noturno. Os autores também buscaram dados no Departamento de Saúde de Nova Jersey, no 500 Cities Project e no aplicativo Loss of the Night.

As descobertas sugerem que sejam feitas discussões sobre as políticas relacionadas à iluminação pública e a necessidade de minimizar o skyglow, a fim de evitar consequências negativas ao sono e à saúde dos recém-nascidos. “Essa é uma importante consideração, principalmente com o aumento na popularidade de luzes de LED para iluminação pública, que, embora economizem mais energia e tenham custos operacionais mais baixos, podem agravar a poluição luminosa por conta da emissão de luz azul”, dizem os cientistas.

(Fonte: Agência Einstein)

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