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Polônia, a guardiã europeia das células-tronco

Polônia, a guardiã europeia das células-tronco

O biólogo Krzysztof Machaj mostra células-tronco no banco de sangue PBKM/FamiCord - AFP

A Polônia se tornou a primeira potência europeia na conservação de células-tronco, cruciais para uma terapia que pode curar leucemias, mas que talvez gere expectativas exageradas.

Seu armazenamento se tornou um setor próspero que movimenta bilhões de dólares.

Submersas em vapor de nitrogênio líquido a -175ºC, centenas de milhares de células-tronco de toda Europa dormem em enormes barris de aço nos arredores de Varsóvia.

Presentes no sangue do cordão umbilical dos recém-nascidos, essas células, removidas no momento do parto, podem ajudar a curar doenças graves, como linfomas e leucemia, doenças de origem genética e problemas no sistema imunológico.

Na Polônia, país com forte tradição católica, não há planos de recorrer às células-tronco embrionárias, pois seu uso provocaria um forte debate ético.

Após a falência da empresa suíça Cryo-Save, o banco de sangue do cordão umbilical polonês PBKM/FamiCord se tornou o número um na Europa, e o quinto no mundo, atrás de duas empresas americanas, uma chinesa e outra com sede em Singapura, de acordo com seus dirigentes.

Desde o primeiro transplante de sangue do cordão umbilical na França, em 1988, o setor se desenvolveu muito e cria grandes expectativas.

– Seguro-saúde –

Teresa Przeborowska, mãe de Michal, 9 anos, não teve dúvida. Quando o menino tinha 5 anos e meio de idade foi diagnosticado com leucemia linfoblástica e precisava de um transplante de medula óssea.

A doadora mais compatível era sua irmã mais nova Magdalena. Quando nasceu, seus pais depositaram uma bolsa de sangue do cordão umbilical no PBKM. Não foi o suficiente para Michal – seria para um bebê de nove meses -, mas completou a extração da medula óssea.

“O resultado é que Michal agora é uma criança em plena forma, tanto intelectual quanto fisicamente”, diz sua mãe.

O transplante de sangue do cordão umbilical se tornou uma alternativa ao transplante de medula óssea quando não há doador compatível.

As células-tronco do cordão umbilical são como as da medula óssea, capazes de reproduzir todas as células sanguíneas: glóbulos vermelhos, plaquetas e células do sistema imunológico.

Uma vez dentro do corpo, produzem novos glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas.

No laboratório PBKM, “cada reservatório contém cerca de 10.000 bolsas de sangue”, disse à AFP o chefe desta unidade, Krzysztof Machaj.

Para as famílias que pagaram centenas de euros para que o sangue coletado do cordão umbilical de seus recém-nascidos seja preservado por 20 anos, é uma espécie de seguro-saúde: a promessa de um tratamento mais rápido e eficaz, em caso de necessidade.

Alguns cientistas são céticos, como o hematologista Wieslaw Jedrzejczak, pioneiro no transplante de medula óssea na Polônia.

– Produtos de beleza –

Esse especialista considera os promotores dessas terapias como “vendedores de esperança” que “fazem promessas cuja realização é impossível no futuro próximo, ou impossível por razões biológicas”. Ele os compara aos fabricantes de produtos de beleza que “prometem que seu creme rejuvenescerá em 20 anos quem usá-lo”.

Várias pesquisas sugerem que essas células-tronco podem ser usadas para tratar outras doenças, principalmente nervosas. Por enquanto, porém, as pesquisas são inconclusivas, alerta a rede de cientistas EuroStemCell.

“Há uma lista de 80 doenças, para as quais as células-tronco poderiam ser eficazes, mas no momento, elas são eficazes apenas para uma dúzia delas, como leucemia, ou paralisia cerebral”, observa o hematologista americano Roger Mrowiec, diretor do laboratório clínico do programa Vitalant, em Nova Jersey.

“Não é exato, como lemos algumas vezes, que já podem ser usadas contra o Parkinson, Alzheimer, ou diabetes”, acrescenta.

Na mesma linha, o EuroStemCell alerta contra bancos de sangue privados que “fazem publicidade para que as famílias paguem pelo congelamento do sangue do cordão umbilical de seus filhos”.

“Estudos mostram que é improvável que o sangue do cordão umbilical seja usado”, diz.

Alguns países, como França e Bélgica, são muito cautelosos com relação a esse assunto e proíbem o armazenamento de sangue do cordão umbilical para fins pessoais, diferentemente da maioria dos países europeus.

– Furor europeu –

O Cryo-Save experimentou um rápido crescimento no início do século, onde muitos suíços, italianos, espanhóis, húngaros, ou gregos, depositaram amostras de sangue do cordão umbilical de seus bebês.

A empresa suíça teve de fechar no início de 2019, e seus clientes ficaram assustados: para onde iriam as células-tronco, com as quais contavam em caso de doença?

A empresa suíça tinha um acordo de emergência com a PBKM. Esta, fundada em 2002 por dois sócios com dois milhões de zlotys (cerca de US$ 498 mil), também cresceu rapidamente. O grupo FamiCord, que a controla, detém cerca de 35% do mercado europeu, excluindo-se os recursos Cryo-Save.

Nos últimos 15 meses, outros investidores se juntaram a eles com uma contribuição de 63 milhões de euros (US$ 69 milhões), segundo seu presidente Jakub Baran.

A empresa não escapa da polêmica. Em dezembro passado, a revista “Polityka” publicou uma investigação sobre várias clínicas privadas que propõem terapias caras com células-tronco preservadas pelo PBKM, tratamentos autorizados, mas novamente questionados por vários pesquisadores.