Brasil

Politização no futebol

Bolsonaro e Rogério Caboclo se associaram para levar o discurso polarizado para o esporte. A realização da Copa América ignora a morte de quase 500 mil pessoas.

Crédito: Rodrigo Ziebell

MANTIDO O técnico Tite continua no comando da seleção brasileira: respeitado pelos jogadores (Crédito: Rodrigo Ziebell)

“Esquece esse negócio de vamos jogar, mas somos contra. Toma uma atitude de verdade, de homem” Casagrande, ex-jogador da seleção (Crédito:Divulgação)

A seleção brasileira de futebol não conseguiu escapar da polarização política que o País vive. As influências ideológicas e os conchavos dentro da CBF têm ultrapassado os limites esportivos. Com o País assolado pela pandemia, o presidente da República aceitou sediar a Copa América. Argentina e Colômbia se recusaram. Bolsonaro atendeu ao pedido do presidente da entidade, Rogério Caboclo. Ambos não contavam com a repercussão negativa. O técnico Tite e seus comandados se rebelaram e anunciaram que podiam não jogar a competição. O cientista político, Márcio Coimbra diz que Bolsonaro e Caboclo “jogaram o futebol brasileiro no faroeste da polarização política, apenas pensando no benefício próprio”.

No jogo da seleção brasileira com o Paraguai pelas eliminatórias da Copa do Mundo, na noite de terça-feira, 8, o time confirmou a liderança nas eliminatórias e venceu todos os jogos. Mas o que todo mundo queria saber era sobre o posicionamento da equipe a respeito da Copa América. A resposta foi decepcionante. Num comunicado inócuo, o grupo disse ser “contra a Copa América” e, contraditoriamente, confirmou que mesmo assim participará do torneio. A mudança de postura veio após o conselho de ética da confederação afastar Caboclo. Uma exigência feita pelos diretores da entidade. O coronel Antonio Carlos Nunes, 83, assume interinamente a presidência.

SUSPENSO Rogério Caboclo sai da presidência da CBF depois de acusação: assédio sexual (Crédito:WILTON JUNIOR)

Omissão dos atletas

O manifesto dos atletas ratificou as limitações políticas deles. É incomum no Brasil uma atitude contundente vinda de jogadores de futebol. Eles teriam feito história se mantivessem a decisão inicial de não disputar a competição. O ex-jogador e comentarista Walter Casagrande criticou a postura. “Esquece esse negócio de vamos jogar, mas somos contra isso. Toma uma atitude de verdade, de homem”. Na entrevista coletiva, o técnico Tite fugiu das perguntas sobre a relação com Caboclo e disse: “Não sou hipócrita. Nem alienado”. Depois de tamanho imbróglio, a palavra omisso, talvez fosse a mais apropriada. Aliado de primeira hora do presidente Bolsonaro, o técnico Renato Gaúcho tinha a ida para o comando da seleção confirmada, não fosse o afastamento de Caboclo.

Os bons resultados esportivos e o respeito por parte do gupo de jogadores manteve Tite no cargo. Bolsonaro evoca o expediente de conflito constante. Mais do que intervir no futebol como instituição, ele reafirma o quanto banaliza a pandemia e menospreza a CPI da Covid em curso no Senado. O STF acompanha o caso. No entanto, há poucas chances de que venha a proibir a realização do torneio. O vice-presidente, general Mourão, partiu para o deboche para atacar Tite. “O Cuiabá está precisando de técnico”, disse Mourão.

O presidente da CBF foi afastado por ser acusado de assédio sexual e moral contra uma funcionária. Na transcrição dos áudios, Caboclo constrange a mulher com perguntas de cunho sexual. Ela se esquiva, mas ele é insistente. A funcionária gravou a conversa e pediu socorro aos dirigentes da entidade. Caboclo se diz inocente. Entretanto, ofereceu R$ 12 milhões pelo silêncio da moça, que recusou a oferta.

Os impactos das denúncias contra Caboclo e o julgamento no tribunal das redes sociais afastaram também os patrocinadores da Copa América. Mastercard e Ambev anunciaram que, embora mantenham os contratos, não vão expor as marcas. A professora de projetos esportivos da ESPM, Líbia Lender de Macedo, afirma que a “marca seleção brasileira é uma potência, mas as empresas não querem ver seus nomes estampados em meio a essa polêmica”. Se havia uma projeção de faturar politicamente com a Copa América no Brasil, o efeito foi contrário. Não é possível esconder quase 500 mil mortos.

Divulgação

Ditadura e chuteiras

A vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970 guarda um episódio amargo para a história do futebol. Os militares viram nos jogadores garotos propagandas de um regime político. O presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, fazia questão de aparecer publicamente com os principais craques. Pelé especialmente. Pouco antes da Copa, Médici interviu na seleção e conseguiu mudar o técnico João Saldanha por Zagalo. Saldanha era militante comunista e isso conflitava com os interesses militares. Bolsonaro segue a cartilha e também tenta intervir na seleção.