Polícia interdita clínica de estética após três mortes investigadas no Rio

Operação na Zona Sul da capital fluminense apura denúncias de pacientes que relatam deformidades, necrose e sequelas após cirurgias plásticas

Polícia Civil investiga três mortes e denúncias de complicações após cirurgias plásticas em clínica de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Foto: Polícia Civil investiga três mortes e denúncias de complicações após cirurgias plásticas em clínica de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro interditou, nesta quarta-feira (21), os centros cirúrgicos de uma clínica de estética localizada no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul da capital fluminense. O estabelecimento, pertencente ao Grupo de Saúde Celita Toledo, é investigado por possíveis irregularidades em procedimentos estéticos, incluindo três mortes de pacientes.

A ação foi conduzida pela Delegacia do Consumidor (Decon), durante uma operação que busca esclarecer as circunstâncias dos atendimentos realizados na unidade. As investigações reúnem mais de 25 denúncias de pessoas que afirmam ter sofrido complicações graves após cirurgias plásticas.

Entre os problemas relatados estão necrose de tecidos, feridas que permaneceram abertas durante meses, deformações e alterações permanentes em diferentes partes do corpo.

Além das condições dos procedimentos, a polícia investiga suspeitas relacionadas à qualificação e à supervisão dos profissionais envolvidos nas intervenções.

Pacientes denunciam sequelas e necessidade de novas cirurgias

Segundo as informações reunidas pelos investigadores, pacientes que passaram por procedimentos na clínica relataram consequências físicas que ultrapassariam as complicações normalmente esperadas no período de recuperação.

As denúncias incluem alterações no abdômen, umbigo e mamas, além de lesões que teriam provocado danos permanentes.

Algumas pacientes afirmaram que precisaram recorrer a novas intervenções cirúrgicas para tentar corrigir os problemas decorrentes dos procedimentos anteriores.

A Polícia Civil trabalha para identificar se houve falhas técnicas, ausência de acompanhamento adequado ou outras irregularidades capazes de explicar as complicações relatadas.

Os investigadores também procuram estabelecer a relação entre os procedimentos realizados e as três mortes que integram a apuração.

Até o momento, as circunstâncias e as eventuais responsabilidades pelos óbitos continuam sob investigação.

Polícia apura atuação irregular de profissionais

Outra frente da investigação envolve a possível participação de alunos de cursos de pós-graduação em cirurgia plástica na realização dos procedimentos.

A suspeita é de que profissionais em formação, incluindo estrangeiros, tenham participado de intervenções sem a supervisão necessária de médicos responsáveis.

Os investigadores buscam verificar se todos os envolvidos possuíam habilitação adequada para as atividades desempenhadas e se os procedimentos obedeciam às exigências dos órgãos reguladores.

A atuação de profissionais sem a qualificação ou o acompanhamento exigidos pode representar riscos à segurança dos pacientes, especialmente em cirurgias que demandam anestesia, infraestrutura hospitalar e cuidados pós-operatórios.

A apuração também deverá esclarecer quais profissionais participaram dos procedimentos denunciados e quais eram suas atribuições.

Clínica já havia sido alvo de operação em agosto

A unidade investigada já havia recebido a visita de agentes policiais em agosto deste ano, durante uma fiscalização que identificou produtos e medicamentos com prazo de validade vencido.

Na ocasião, materiais foram apreendidos e quatro pessoas foram encaminhadas à delegacia para prestar esclarecimentos.

A nova operação foi realizada após o avanço das investigações e o recebimento de denúncias envolvendo pacientes que passaram por cirurgias no estabelecimento.

Nesta quarta-feira, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão para recolher documentos e outros materiais que possam contribuir para a identificação de possíveis irregularidades.

Como medida preventiva, os centros cirúrgicos da unidade foram interditados, impedindo a realização de novos procedimentos nesses espaços enquanto permanecer a restrição.

Procedimentos eram anunciados com preços promocionais

A clínica divulgava procedimentos estéticos com valores apresentados como acessíveis ao público interessado em cirurgias plásticas.

Entre os serviços anunciados estavam implantes de silicone, com preços a partir de R$ 6,5 mil, e abdominoplastias, oferecidas a partir de R$ 9,5 mil.

A investigação, no entanto, não se concentra nos preços cobrados, mas nas condições de realização das cirurgias, na segurança dos pacientes e na possível responsabilidade por complicações graves.

Especialistas recomendam que pessoas interessadas em procedimentos estéticos verifiquem a regularidade do estabelecimento, a habilitação dos profissionais e a existência de estrutura adequada para atendimento de emergências.

Investigação continua e responsabilidades serão apuradas

A Polícia Civil deverá analisar os materiais recolhidos durante a operação, ouvir pacientes e profissionais e reunir elementos técnicos para esclarecer os casos denunciados.

A investigação busca determinar se houve infrações sanitárias, falhas na prestação dos serviços ou condutas que possam configurar crimes.

A existência de denúncias e a interdição dos centros cirúrgicos não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal dos investigados.

Em manifestação anterior, a responsável pelo grupo negou irregularidades na supervisão dos profissionais em formação e afirmou colaborar com as investigações. Até a divulgação das primeiras informações sobre a operação desta quarta-feira, não havia sido apresentado um novo posicionamento oficial da empresa sobre a interdição.

Da IstoÉ