A dominância da política brasileira exercida pelo presidente Lula (PT) e por seu antecessor, Jair Bolsonaro (PL), gerou um processo de polarização que “transbordou o ambiente da política” e fadigou os eleitores. Essa foi a leitura feita pelo estrategista eleitoral Felipe Soutello em entrevista ao programa Como Ganhar uma Eleição, exibido pelo canal da IstoÉ no YouTube.
“A polarização assumiu uma lógica que transborda o ambiente da política. Famílias se dividiram, deixamos de seguir pessoas por conta de suas posições políticas, pessoas brigaram com amigos que tinham há muito tempo porque uma era bolsonarista e a outra lulista. Esse processo cansou, e tomara que consigamos superá-lo”, disse Soutello, que foi responsável pela campanha presidencial de Simone Tebet (MDB) e idealizou a chapa formada entre Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), adversários políticos até 2022.
Para ele, a ascensão das plataformas digitais contribuiu essencialmente para esse cenário de acirramento. “No dia seguinte à eleição, a sociedade respirava, processava o resultado e os partidos de oposição organizavam sua atuação, mas havia uma espécie de trégua para o novo governo se instalar e começar a trabalhar. Com as redes sociais e o estímulo a uma comunicação mais agressiva, o ‘pau come’ na internet como se a eleição não terminasse“, disse.
“A democracia precisa de institucionalidade para ser processada. Os líderes têm obrigação de respeitar o processo e dar a cadência que se exige dele. Não é admissível, por exemplo, que um político derrotado não participe da posse de seu sucessor [como ocorreu quando Lula tomou posse após Bolsonaro]“, concluiu.
Expectativa ou realidade
Na avaliação de Soutello, parte da tarefa de reverter o cenário cabe aos concorrentes ao espólio de Bolsonaro, a metade da polarização que não estará nas urnas em 2026 — o ex-presidente está inelegível e preso na superintendência da Polícia Federal, em Brasília, por tentar um golpe de Estado após a derrota para Lula. O estrategista espera que eles “tragam para o ambiente da política mais responsabilidade com o próprio discurso, os eleitores e a sociedade“.
A expectativa contrasta com a dinâmica estabelecida. Bolsonaro pregou “fuzilar a petralhada”, defendeu a execução do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e atacou a imprensa no mandato. Lula, por sua vez, responsabiliza o antecessor reiteradamente pelos problemas do país e já o chamou de “genocida” e “fascista”.
Pela oposição, são postulantes ao Palácio do Planalto nomes como os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que não chegam aos dois dígitos nas intenções de voto, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que mesmo com o sobrenome não aglutinou o campo e levantou a possibilidade de desistir em troca da libertação do pai. Em pesquisa Datafolha divulgada em dezembro, quem chega mais perto do petista é o próprio Jair, com 29% contra 41% do incumbente.

Estrategista histórico do PSDB participou do programa ‘Como Ganhar uma Eleição’ nos estúdios da IstoÉ
Quem é Felipe Soutello
Participante da fundação do PSDB, colaborou com a campanha de José Serra à Câmara dos Deputados, em 1986, foi secretário estadual de Juventude, Esporte e Lazer de São Paulo e trabalhou em todas as campanhas tucanas na capital paulista — à exceção de João Doria. Comandou a estratégia de reeleição do prefeito Bruno Covas e as campanhas de Márcio França ao governo do estado, em 2018, e de Simone Tebet à Presidência da República. Em um jantar com Fernando Haddad, apresentou a ideia de unir Lula e Alckmin nas eleições de 2022.