* Por Luciana Lima e Gilberto Nascimento
A intenção do presidente Lula de fazer uma reforma ministerial se tornou pública desde o final do ano passado. O principal objetivo das mudanças na equipe, segundo a versão propalada pelo governo, seria reorganizar a base de apoio parlamentar. Pelo menos três meses se passaram desde o início das especulações e, até agora, o objetivo não foi cumprido. A demissão da ministra da Saúde, Nísia Trindade, na tarde desta terça-feira, 25, está relacionada à performance da pasta, considerada deficiente no Planalto. A rearrumação dos aliados na Esplanada continua sem solução.
Na última atualização das especulações, a reforma ministerial propriamente dita ficou para depois do Carnaval, sem data prevista. Lula ainda negocia nomes e cargos com os partidos em busca de uma composição que aumente a força do governo no Congresso Nacional e, se possível, amarre acordos para as eleições de 2026. A falta de definição das trocas na equipe emperra o processo político e atrapalha o andamento das pautas de interesse do Planalto na Câmara e no Senado.
O presidente tem dificuldades para acomodar os interesses do Centrão, o bloco parlamentar majoritário no Congresso, formado por partidos que integram o governo, mas não votam fechados com o palácio. Nesse sentido, Lula conversa com PSD, Republicanos, PP e União Brasil. O MDB é considerado bem contemplado com postos Esplanada, segundo a ótica de auxiliares presidenciais.
Mas os nomes mais próximos de confirmação, pelo que se falou nos últimos dias, não são do Centrão. Os últimos movimentos indicam o favoritismo do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), para a vaga de Padilha na Secretaria de Relações Institucionais, e da deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), para a Secretaria-Geral da Presidência. A entrada de dois petistas na equipe, evidentemente, em nada ampliaria a base parlamentar.
Nesta terça-feira, aumentaram as especulações sobre a possível saída do ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, chamado por Lula para uma conversa sobre a pasta. No encontro, segundo a versão que circulou à tarde no Planalto, o ministro teria avisado o presidente que estaria desalinhado com algumas ideias do governo e que poderia deixar a equipe.
Não é uma surpresa. Nos últimos dias, houve desgaste de Fávaro no episódio da suspensão do Plano Safra por causa da demora na votação do Orçamento de 2025. Com pouco trânsito na bancada do agro no Congresso, o ministro se indispôs ainda mais com o grupo ao culpar o Legislativo pela demora na aprovação do Orçamento da União para este ano.
A pasta de Fávaro é cobiçada pelo Centrão e circulam rumores de que o cargo poderia ser entregue a um indicado de Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara e um dos principais líderes do bloco. Indagado nesta terça pelo PlatôBR sobre essa hipótese, Lira negou: “Nunca houve isso (a indicação), nunca existiu”.
A fritura de Nísia
A ministra da Saúde foi demitida depois de longo processo de fritura. Desde o primeiro ano no cargo, além das pressões do Centrão, que queria seu cargo, Nísia recebeu críticas por ter lançado campanhas contra a dengue sem ter vacinas suficientes na pasta. Também foi responsabilizada por falhas na implantação de políticas em terras yanomami, com piora nos índices da saúde da população local, e por não ter conseguido dar visibilidade a programas como o Mais Especialidades, que Lula gostaria que fosse uma das vitrines de sua gestão.
A decisão de demitir Nísia Trindade estava tomada desde quinta-feira, 20, segundo um petista que circula no Planalto. Lula teria avisado a políticos do PT sobre o desejo de substituí-la e ficado insatisfeito com o vazamento da informação para a imprensa.
No dia da demissão, Nísia passou por momentos constrangedores no Planalto. Os boatos de sua saída eram cada vez mais intensos. Ao lado de Lula, ela participou pela manhã de uma solenidade para anunciar, entre outras coisas, a produção de uma vacina 100% nacional contra a dengue.
O evento começou com uma hora e meia de atraso e a expectativa da plateia, formada por auxiliares da ministra e parlamentares aliados ao governo, era que a demissão seria anunciada no evento, como uma despedida, com discursos e agradecimentos por sua gestão.
Nísia subiu ao palco entre aplausos, assobios e gritos, o que foi interpretado como um gesto de insatisfação dos funcionários da pasta com a possível saída da ministra técnica. Ela deu início ao discurso com a voz embargada, lembrou que conheceu o papa Francisco quando viajou a Roma em outubro e pediu um minuto de silêncio pelo pontífice. Ao retomar o discurso, passou a listar as entregas da pasta, nominando cada parceiro ou funcionário do ministério que trabalhou nessas parcerias. Ela foi aplaudida mais de 10 vezes pela plateia.
Havia a expectativa de uma fala de Lula sobre o trabalho da ministra. Mas o presidente não se pronunciou. Deixou o discurso para o vice Geraldo Alckmin. O presidente e a ministra saíram sem falar com a imprensa. Ao chegar ao ministério, Nísia se mostrou incomodada com a indefinição e ligou de volta para o presidente, pedindo uma conversa. Lula a chamou depois do almoço e a comunicou da demissão.
Uma mulher a menos
Com a saída de Nísia, o governo passa a ter uma mulher a menos no primeiro escalão. Lula recebe críticas pela baixa representação feminina na equipe e o novo ministro da Saúde é um homem. A forma com que Nísia foi demitida também foi considerada deselegante, pela longa fritura e por ter acontecido justamente depois de uma solenidade sobre vacinas, assunto que foi um dos pontos fracos da gestão da ministra. O modo como Lula tirou Nísia, com a antecipação da decisão pela imprensa e sem conversas preliminares, resgatou a memória de outro episódio, no primeiro governo do petista: Cristovam Buarque, então ministro da Educação, foi demitido por telefone durante uma viagem internacional.