Pinguins da Antártida antecipam temporada reprodutiva por mudanças climáticas

Os pinguins da Antártida estão antecipando sua temporada reprodutiva a um ritmo sem precedentes devido às mudanças climáticas, segundo um estudo publicado nesta terça-feira (20) no periódico Journal of Animal Ecology.

A pesquisa internacional analisou uma década de observações e detectou uma mudança extraordinária nos padrões reprodutivos dos pinguins, estreitamente vinculados ao aumento das temperaturas no continente gelado, informou o principal autor do estudo, o espanhol Ignacio Juárez Martínez.

A reprodução dos pinguins está fortemente vinculada à disponibilidade de comida, e a diminuição do gelo marinho tem tornado as áreas de caça e os locais de nidificação mais acessíveis durante mais tempo ao longo do ano.

Os cientistas esperavam que a reprodução se antecipasse sutilmente, mas ficaram “muito surpresos tanto pela magnitude quanto pela rapidez da antecipação”, disse Juárez Martínez à AFP.

“A magnitude da mudança é tal que, na maioria das zonas, os pinguins já se reproduzem antes que em qualquer registro histórico conhecido”, acrescentou o pesquisador da Universidade de Oxford e da Universidade Oxford Brookes.

Para este estudo, os cientistas observaram, entre 2012 e 2022, zonas de nidificação de pinguins-papua, pinguins-de-barbicha e pinguins-de-adélia, mediante dezenas de câmeras instaladas em colônias de toda a Antártida.

A maior mudança foi observada entre os pinguins-papua, que anteciparam sua temporada reprodutiva em 13 dias em média em dez anos, e até em 24 dias em algumas colônias.

Segundo os pesquisadores, trata-se da mudança mais rápida na temporada reprodutiva observada até agora em qualquer ave e, possivelmente, em qualquer vertebrado.

Os pinguins-de-adélia e pinguins-de-barbicha também anteciparam sua temporada reprodutiva, em cerca de dez dias, em média.

– Vencedores e perdedores –

A Antártida é uma das regiões que aquece mais rapidamente no mundo, e no ano passado as temperaturas médias anuais atingiram máximos históricos, segundo o observatório europeu Copernicus.

Os cientistas ainda não compreendem totalmente os mecanismos exatos através dos quais o aumento das temperaturas afeta o comportamento dos pinguins.

Tradicionalmente, as três espécies escalonavam suas temporadas reprodutivas, mas a antecipação atual está provocando sobreposições, o que aumenta a disputa por comida e por espaços de nidificação sem neve.

Este fenômeno beneficia os pinguins-papua, coletores naturais mais adaptados a condições mais temperadas, e prejudica os pinguins-de-barbicha e os pinguins-de-adélia.

“Já observamos como os papua ocupam ninhos que antes pertenciam aos adélia ou aos barbicha”, apontou Juárez Martínez.

Enquanto as populações de papua estão aumentando em uma Antártida com clima mais temperado, os pinguins-de-barbicha e adélia, mais dependentes do kril e de condições específicas de gelo, estão diminuindo.

“Visto que os pinguins são considerados um barômetro das mudanças climáticas, os resultados deste estudo têm implicações para espécies de todo o planeta”, afirmou, em um comunicado, Fiona Jones, coautora do trabalho e pesquisadora da Universidade de Oxford.

Juárez Martínez ressaltou que é “cedo demais” para determinar se esta adaptação é benéfica ou se os pinguins foram obrigados a fazer mudanças drásticas que podem afetar seu sucesso reprodutivo.

“Agora, estamos estudando a capacidade de cada espécie para fazer seus filhotes prosperarem. Se mantiverem um número elevado de filhotes, significará que estão se adaptando às mudanças climáticas”, concluiu.

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