Pingtok: quando jovens expõem o uso de drogas no TikTok

Pingtok: quando jovens expõem o uso de drogas no TikTok

"TendênciaAdolescentes filmam seus momentos de euforia induzidos por drogas, comercializam entorpecentes entre si e alcançam milhões de visualizações na rede social. Quão perigosa é essa tendência?Pupilas dilatadas, sob o efeito de drogas em frente à câmera e, geralmente, sozinhos. Na rede social TikTok, cada vez mais jovens expõem publicamente seus momentos de euforia induzidos por entorpecentes. Os vídeos alcançam milhões de visualizações – frequentemente sob a hashtag #Pingtok.

Essa tendência representa uma nova visibilidade do uso de drogas nas redes sociais. O que antes acontecia em segredo agora é filmado, estetizado e compartilhado publicamente. As consequências podem ser fatais e, muitas vezes, invisíveis para os pais.

"Desde que comecei a conscientizar sobre vícios no TikTok, tenho recebido muitas mensagens. Isso é assustador porque geralmente são de menores de idade", disse a influenciadora Sarah em entrevista à DW.

Ela própria se tornou viciada em drogas aos 15 anos. Hoje, aos 26 anos, ela educa as pessoas no TikTok sobre seu vício e sua abstinência. Muitos dos seus seguidores que foram levados a usar drogas através do TikTok são ainda mais jovens. "Eles não têm com quem conversar sobre isso, e alguns deles me escrevem coisas muito intensas sobre suas experiências e traumas", afirmou Sarah. Como chegamos a esse ponto?

Um clique para as drogas

O TikTok revela como se tornou fácil para os jovens entrarem em contato com conteúdo relacionado a drogas. Basta uma busca rápida pela hashtag #Pingtok e vídeos de adolescentes sob efeito de drogas aparecem um após o outro. Quanto mais você rola a tela, mais vídeos o algoritmo exibe.

Quando questionado pela DW sobre por que o TikTok não adota medidas mais enérgicas contra a distribuição desse tipo de conteúdo, um porta-voz da plataforma disse que a rede age rapidamente para remover as postagens.

"A segurança e o bem-estar da nossa comunidade são nossa principal prioridade. Proibimos a exibição, a publicidade ou a venda de drogas ou outras substâncias e as removemos da plataforma – mais de 99% do conteúdo que viola essas regras é removido antes mesmo de ser denunciado."

O que está por trás dessa tendência

O Pingtok, no entanto, mostra como é fácil burlar essas regras. Os usuários se comunicam por meio de códigos. Eles usam emojis, sons e novos termos para burlar a moderação da plataforma. Em vez de mostrar o uso visível de drogas, por exemplo, exibem apenas suas pupilas dilatadas.

Essa, inclusive, é a origem do termo Pingtok. "Ping" é uma gíria utilizada para se referir ao consumo da droga MDMA

Essa chamada linguagem algorítmica, também conhecida como algospeak, dificulta a identificação clara do conteúdo e sua remoção rápida.

Mesmo quando os termos são bloqueados, os usuários se adaptam rapidamente: a hashtag #Pingtok foi bloqueada pelo TikTok, mas ainda circulam variações como #Pingtokk ou #Pintok.

Tráfico de drogas no TikTok

Particularmente problemático é o fato de o TikTok estar se tornando um mercado informal. "Você nem precisa mais sair de casa. Pode conseguir tudo o que quiser, direto do seu quarto", disse a influenciadora Sarah. Uma olhada nas seções de comentários dos vídeos revela o que ela quer dizer. Consultas de busca como "quem está vendendo?" ou "preciso de alguma coisa em Berlim" geram respostas diretas de traficantes.

Eles sinalizam sua disponibilidade para vender por meio de símbolos como um plugue de carregamento e, em seguida, convidam os usuários para grupos de bate-papo no aplicativo de mensagens Telegram.

Os jovens sempre experimentaram drogas, mas tornar isso público de maneira voluntária é algo que está mudando tudo, diz Sarah. No passado, as pessoas fechavam as cortinas e usavam drogas em segredo com outras pessoas. Hoje, elas ligam suas câmeras e usam drogas sozinhas – por cliques no TikTok.

Dados atuais mostram o quão perigoso esse uso descontrolado pode ser. De acordo com o Departamento Federal de Polícia Criminal, as mortes relacionadas a drogas na Alemanha quase dobraram em dez anos. Entre os menores de 30 anos, o número de mortes aumentou 14% em 2024.

Países querem proibir redes para menores

Estudos dos EUA também mostram que mais de dois terços das overdoses fatais acontecem em casa, muitas vezes porque ninguém pode intervir. Uma ligação direta com tendências do TikTok, como o Pingtok, não foi comprovada. No entanto, especialistas alertam que o isolamento e a exposição a conteúdo relacionado a drogas nas redes sociais podem tornar o uso de drogas mais perigoso.

Internacionalmente, aumenta a pressão política sobre as redes sociais. Alguns governos querem proteger melhor os jovens de conteúdos prejudiciais.

Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país a introduzir uma proibição de redes sociais para menores de 16 anos.

O Reino Unido, a Dinamarca e, mais recentemente, a França planejam restrições semelhantes. A União Europeia (UE) avalia se as plataformas estão cumprindo adequadamente suas obrigações em relação à proteção de menores e está discutindo restrições de acesso. Mas as proibições são realmente a solução?

Redes sociais também podem ser redes de apoio

"Há um aspecto que muitas vezes é negligenciado no debate sobre o uso de drogas e as redes sociais", disse a pesquisadora Layla Bouzoubaa em entrevista à DW. Ela destacou que existem pessoas que usam essas plataformas para encontrar apoio, e que "isso não tem nada a ver com glorificação."

Bouzoubaa e sua equipe analisaram centenas de vídeos do TikTok sobre o tema do uso de substâncias. Eles descobriram que mais da metade do conteúdo trata de prevenção ao uso de drogas, superação do vício ou busca por ajuda.

Uma remoção completa de todo o conteúdo ou uma proibição da plataforma pode ser perigosa para esses grupos, alertou Bouzoubaa.

"Não queremos cortar esse apoio vital para as pessoas enquanto moderamos o conteúdo de forma extremamente rigorosa. Se as plataformas querem mudar algo, precisam envolver as comunidades afetadas."

Prevenção também está disponível online

Essa também é a abordagem de Sarah, que não usa o TikTok para exaltar as drogas, mas para alertar sobre as consequências reais do vício.

"Os agentes de combate às drogas e os assistentes sociais devem estar preparados para o fato de que a maioria das coisas acontece online hoje em dia", disse ela.

"É bom que eles vão às ruas ou às escolas. Mas também precisam ficar de olho no ambiente online, principalmente porque muitos usuários são menores de idade."