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A piada (péssima) de Crivella

Se Marcelo Crivella falou sério, soou como piada; se ele fez piada, soou como de péssimo gosto. O general Eduardo Villas Bôas, por exemplo, não riu. E nem era para rir. No comando do Exército, Villas Bôas tem mantido uma paciência sem fim com os reiterados pedidos de governadores e prefeitos para que coloque suas tropas na rua e na função de correr atrás de delinquente, substituindo ou apoiando, dessa forma, as polícias civil e militar. Dessa vez, no entanto, o prefeito do Rio de Janeiro passou de todos os limites: acredite quem quiser, mas ele queria que as Forças Armadas Brasileiras desembarcassem na ex-cidade maravilhosa para colaborar no policiamento durante o carnaval. Crivella tem de lembrar que o Exército, a Aeronáutica e a Marinha merecem respeito.

Já diversas vezes o general ponderou os riscos que existem em se bater à porta da caserna na tentativa de transformar o militar em policial. Na semana passada, Villas Bôas revelou o seu temor de que as facções criminosas acabem contaminando as tropas federais. Há, na verdade, um único registro de soldado que se bandeou para o lado dos traficantes. Pode-se argumentar que um episódio isolado não é nada, mas o comandante tem razão. E há outros pontos. No Rio Grande do Norte, onde recentemente a polícia deflagrou greve, as Forças Armadas estiveram presentes por três vezes em um período de cento e oitenta dias. Isso é abuso. No Rio de Janeiro, desde 2016, elas participaram do policiamento em quatro ocasiões.

Se governadores não cuidam de seus aparatos repressivos, se não aparelham as instituições e não pagam salários e soldos, isso é problema desses próprios governantes – eles que prestem conta à população. O que não pode acontecer novamente são fatos como os que se viram no Rio de Janeiro quando as Forças Armadas subiram morro e desceram morro atrás do traficando Rogério 157. Basta um soldado atirar para se defender de um bandido, errar o alvo, e toda a instituição será execrada por civis. Pode também ocorrer o contrário: e se um militar for morto, hipótese nada implausível, uma vez que os soldados não estão autorizados a usar armamentos, a não ser em situação extrema? Como reagirão os seus pares?

Existe, portanto, esses riscos e o risco da contaminação do qual fala Villas Bôas. Cabe ao ministro da Defesa, Raul Jungmann, deixar o vaivém que norteia a sua atuação nessa área (fala que não vai enviar tropa mas na última hora a envia) e, de uma vez por todas, manter Exército, Marinha e Aeronáutica dentro de suas missões constitucionais. É a banalização de seu emprego no combate ao crime organizado que faz os Crivella desse País acharem que nossas Três Armas são constituídas para atuarem em meio à folia e à bebedeira do carnaval.


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