A Polícia Federal instaurou uma investigação para apurar a propagação de conteúdos que incitam a violência contra mulheres nas redes sociais. A investigação foca em publicações associadas a uma “trend viral”, na qual usuários sugerem reações violentas a hipotéticas negativas femininas.
A investigação da Polícia Federal teve início após o recebimento de denúncias sobre vídeos que viralizaram no Instagram e no TikTok. “Durante a análise, também foram identificados outros vídeos vinculados à mesma tendência, que foram igualmente reportados e removidos. As informações reunidas serão analisadas para a adoção das medidas cabíveis”, informou a PF à IstoÉ.
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Simulação de agressões
A tendência vitral consiste em vídeos curtos nos quais homens aparecem simulando pedidos de namoro ou casamento. No momento em que a mulher (muitas vezes representada por um saco de pancadas ou um interlocutor imaginário) diz “não”, o autor do vídeo inicia uma sequência de golpes de artes marciais, exibe facas ou simula ataques físicos violentos.
As legendas que acompanham essas postagens costumam utilizar frases como “praticando caso ela diga não” ou “me preparando caso ela não aceite meu pedido”.
“Não é ‘brincadeira’, não é ‘meme’, não é ‘trend’. É incitação à violência contra mulheres. Isso normaliza a violência e alimenta a cultura do estupro”, afirmou a deputada federal Duda Salabert (PDT-MG), na sexta-feira, 6, ao comentar sobre a trend.
A parlamentar informou ter acionado o Ministério Público para que os responsáveis sejam identificados e punidos. Para Duda Salabert, esses conteúdos mostram a urgência de regulamentar as redes sociais e defendeu a aprovação de um projeto de lei, de autoria dela, que tipifica como crime a misoginia coordenada e coletiva praticada nas redes sociais.
De acordo com advogada criminalista Pamela Villar, esse tipo de publicação pode ser considerada crime.
“Se uma pessoa, em razão do conteúdo da trend, agredir uma mulher por ela se recusar a se relacionar com ele, ambos responderão criminalmente por lesão corporal. E se mais de uma pessoa seguir esse mesmo roteiro, a pessoa que fez o vídeo pode ser responsabilizado criminalmente em cada um desses delitos, separadamente, o que pode chegar aí a responsabilização criminal e penas altíssimas”, afirmou à Agência Brasil.
O que é misoginia
A palavra misoginia significa ódio contra mulheres. Conteúdos misóginos vêm ganhando força em grupos da chamada machosfera, termo que abrange comunidades online, que miram o público masculino, e promovem o discurso de ódio contra as mulheres e comportamentos agressivos.
Fazem parte desse grupo os red pills, movimento que defende que homens estão sendo manipulados ou oprimidos por mulheres e pela sociedade moderna. E ainda os incels, ou celibatário involuntário (do inglês, involuntary celibate),outro termo da machosfera que descreve homens que desejam sexo ou relacionamento, mas não conseguem obtê-lo, culpando mulheres ou a sociedade por isso.
Diante desse crescimento, setores da sociedade defendem que a misoginia se torne crime. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, em outubro do ano passado, um projeto que prevê pena de 2 a 5 anos de prisão.
No entanto, responsabilizar as redes sociais ainda é difícil. Atualmente, sem uma decisão judicial, o único tipo de vídeo que deve ser retirado imediatamente é aquele relacionado a crimes sexuais, assim que a vítima notificar a plataforma. Mesmo nesses casos, a advogada Pamela Villar afirma que a chance de responsabilização é remota.
“Do ponto de vista criminal existe, ainda que seja uma possibilidade muito remota de responsabilização pelos responsáveis legais da empresa, por uma prática de um crime omissivo: você deixar de agir quando você possui ferramentas e o dever de o fazer. Embora concretamente isso seja muito difícil de acontecer”.
De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o país registra atualmente quatro feminicídios por dia; foram 1.547 em 2025. Todos os anos, desde 2015, esse número vem aumentando.
Somente em janeiro deste ano, 131 mulheres sofreram feminicídio, quase 5% a mais que no mesmo mês do ano passado. O primeiro mês do ano ainda registrou 5.200 estupros, cerca de 168 por dia.
Casos de violência contra mulheres podem e devem ser denunciados pelo Ligue 180.
* Com informações da Agência Brasil