Brasil

PF dominada

Pelo menos 18 delegados da PF foram alvos de punições pela direção do órgão que deveria combater a corrupção, mas tem uma gestão marcada por perseguições políticas e blindagem de familiares de Bolsonaro

Crédito: Divulgação

PUNIÇÕES INJUSTAS Dezoito delegados foram exonerados após abrirem investigações contra pessoas ligadas ao bolsonarismo. 1 Denisse Ribeiro foi retirada da investigação dos atos antidemocráticos por ordem de Maiurino e de Bolsonaro. 2 Franco Perazzoni teve promoção negada por se recusar a dar informações sobre o inquérito que investigava Salles. 3 Hugo Correia foi exonerado por investigar pessoas do círculo bolsonarista. 4 Maurício Valeixo foi demitido da direção-geral da PF em abril de 2020 por se recusar a exonerar Ricardo Saadi da PF do Rio. 5 Max Eduardo Ribeiro teve promoção negada por autorizar entrevista de Alexandre Saraiva sobre investigação contra Salles. 6 Silvia Fonseca foi exonerada por pedir extradição do blogueiro Allan dos Santos. 7 Alexandre Saraiva foi demitido após apresentar notícia-crime contra o então ministro Salles. 8 Thiago Leão foi retirado do comando do Grupo de Investigações Ambientais após chefiar operação que apurou suposta participação de Salles. 9 Rolando de Souza sucedeu Valeixo e foi afastado por não aceitar pressões de Bolsonaro para trocar outros cargos. 10 Bernardo Amaral foi exonerado após autorizar investigação contra Dias Toffoli. 11 Antonio Teixeira virou desafeto de Bolsonaro após ter desacatado ordem dele durante campanha. 12 Daniel Grangeiro passou a sofrer retaliações do governo após iniciar investigações contra aliados do presidente. 13 Rubens da Silva foi afastado da chefia de Repressão a Crimes Ambientais após investigar Salles e a extração ilegal de madeira. 14 Graziela Costa e Silva teve promoção negada após organizar abaixo-assinado em apoio a Felipe Leal. 15 Felipe Leal foi afastado da investigação sobre suposta interferência de Bolsonaro na PF após ter pedido informações sobre punições. 16 Rodrigo Fernandes foi exonerado da inteligência da PF em MG após ter investigado o atentado a faca em 2018. 17 Carla Barros da Cunha foi exonerada da chefia da Superintendência de PE por manter ligações com políticos do PSB. 18 Ricardo Saadi foi afastado da Superintendência da PF no Rio após tentar investigar o deputado federal Hélio Negão, amigo de Bolsonaro. (Crédito: Divulgação)

DIRETOR-GERAL Maiurino: acusado
de perseguir delegados e de comprar apartamento suspeito nos EUA (Crédito:Divulgação)

Quando Bolsonaro passou a ser investigado por tentar interferir na Polícia Federal (PF) a pedido do ex-juiz Sergio Moro, ninguém imaginou que a corporação estaria em pouco tempo totalmente dominada pelo capitão. Um dos principais órgãos estatais de investigação e de combate à corrupção, a PF passa, sob a batuta do mandatário, por um período tenebroso, marcado por perseguições políticas, boicotes e blindagem a familiares do presidente. Para atingir seus objetivos, Bolsonaro segue uma cartilha bem clara: impõe aliados em cargos importantes na PF dispostos a obedecer suas ordens e que passam depois a deter o controle total sobre os trabalhos da corporação. De lá para cá, 18 delegados sofreram punições por parte da direção do órgão por terem aberto procedimentos investigativos contra integrantes do governo ou de amigos do presidente. Muitos deles, insatisfeitos e inconformados com a perseguição, já ensaiam entregar seus cargos caso Bolsonaro não mude a gestão da instituição, enquanto outros acionaram a Corregedoria da PF pedindo investigação contra o diretor-geral, Paulo Gustavo Maiurino, acusado de várias irregularidades, incluindo a compra de um imóvel suspeito nos EUA.

PERSEGUIÇÃO Delegados combativos são trocados por aliados de Bolsonaro: suspeita de conivência com malfeitos (Crédito:Divulgação)

O episódio mais recente envolveu a delegada Silvia Amélia Fonseca. Ela foi punida por atingir interesses escusos do bolsonarismo ao desempenhar suas funções. Quando ainda era chefe da Diretoria de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça (DRCI), órgão responsável por pedidos de extradição, Silvia tomou providências para agilizar o processo de repatriação para o Brasil do blogueiro bolsonarista Allan do Santos, próximo ao clã, e que foi alvo de ordem de prisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em outubro de 2021. Pouco tempo depois de ter atendido a ordem do STF, a delegada foi destituída da função. O governo queria que ela não encaminhasse, ou retardasse, o pedido de extradição do blogueiro.

Nos últimos quatro meses, seis dos oito delegados que integram o Serviço de Inquéritos (Sinq), repartição que investiga autoridades com foro especial, foram substituídos. As trocas ocorreram por conta de uma crise criada por divergências a respeito do que está sendo investigado em relação ao orçamento secreto, manobra armada com a anuência do mandatário para distribuir dinheiro público a aliados no Congresso na tentativa de alimentar seus projetos eleitoreiros. Já Paulo Maiurino, diretor-geral da PF desde abril de 2021, é acusado de estar por trás desse esquema de perseguição a delegados, e tem sido alvo inclusive de suspeitas lançadas contra ele por colegas da instituição. Segundo delegados da PF, Maiurino teria enriquecido nos últimos anos. Ele teria conseguido quitar um apartamento de luxo no valor de R$ 3,5 milhões em Miami Beach, nos EUA. A transação foi realizada em 2016, época em que sua renda anual, somada com a da sua mulher, a funcionária pública Renata Veit, era incompatível para a realização de uma compra desta monta. A notícia despertou suspeitas até mesmo de alguns delegados. Demitido da superintendência do Amazonas por investigar denúncias de corrupção em um esquema de corte ilegal de madeira na Amazônia, o delegado Alexandre Saraiva enviou um ofício ao corregedor-geral da PF no qual pede que Maiurino seja investigado pela compra do imóvel, sob o argumento de que o caso “pode caracterizar prática de conduta descrita no artigo 1º da lei 9613/1998”. Trata-se da lei que regulamenta o crime de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. No texto, enviado em 12 de novembro à Corregedoria da PF, ao qual a ISTOÉ teve acesso, Saraiva justifica que deseja preservar seus superiores. “Ressalto que, excepcionalmente, deixo de seguir o canal hierárquico usual para preservar meus superiores hierárquicos de eventuais retaliações”, afirmou.