O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, concordaram em “virar a página” nesta terça-feira (03/02) e explorar “caminhos comuns” na luta contra o narcotráfico. Após meses de insultos e ameaças, os dois se reuniram na Casa Branca com um novo cenário político de pano de fundo, em consequência da captura do venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro.
Depois do encontro com Petro, Trump disse que os dois se deram muito bem, embora não fossem antes “exatamente os melhores amigos”. Não houve declarações conjuntas à imprensa no Salão Oval, e a recepção a Petro foi discreta, sem que Trump saísse para recebê-lo na porta, como costuma fazer com outros líderes.
Petro propôs que militares de Colômbia, Venezuela e EUA enfrentem juntos os narcotraficantes que atuam nas regiões de fronteira entre os dois vizinhos sul-americanos. Ele também ofereceu apoio da petrolífera estatal Ecopetrol na recuperação econômica do oeste venezuelano.
À rádio Caracol, o colombiano disse que é necessário o trabalho conjunto dos exércitos para que aqueles que estejam “ajoelhados diante do narcotráfico” sejam derrotados.
“É preciso colocar o Exército da Venezuela com o colombiano, uma operação comum, de tal maneira que aqueles que estão ajoelhados diante do narcotráfico e não sabem que essa época passou, que se inicia uma nova era, e ficaram num passado imediato de ganância, sejam derrotados”, afirmou Petro após a reunião com Trump.
Nos últimos meses, Trump lançou uma ofensiva militar no Caribe e no Pacífico Oriental, culminando na captura de Maduro, em nome de uma guerra às drogas nas Américas.
Guerrilheiros na mira
De acordo com Petro, a ideia é que os exércitos mirem sobretudo as lideranças da guerrilha Exército de Libertação Nacional (ELN) que estão na Venezuela.
Desde a captura de Maduro pelos EUA, o governo colombiano ordenou reforçar os mais de 2 mil quilômetros de fronteira com a Venezuela, especialmente na região de Catatumbo, um dos maiores redutos do ELN.
Lá também atua a Frente 33 das dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há mais de um ano enfrenta o ELN pelo controle desse território.
O presidente colombiano já declarou, desde a operação dos EUA no país vizinho, que “a Venezuela merece o futuro” e que “o passado será avaliado, mas o presente e o futuro são fundamentais”. Na reunião de terça-feira com Trump, ele afirmou ter entregado ao americano uma lista de chefões do narcotráfico vivendo fora da Colômbia.
“A primeira linha do narcotráfico vive em Dubai, Madri, Miami”, afirmou Petro. “Os chefões não estão na Colômbia, e é preciso persegui-los.”
Petro nega “chantagens”
Embora antes tivesse chamado Trump de ditador e o acusado de ter veleidades fascistas, Petro vem estendendo a mão ao chefe da Casa Branca desde a captura de Maduro.
A escalada de tensão entre a Colômbia e os EUA incluiu a adoção de medidas drásticas por Trump. Em setembro, o país sul-americano perdeu uma certificação que o governo americano oferece aos seus aliados na luta contra as drogas, em troca de ajuda financeira. Petro e sua família foram alvo de sanções no mês seguinte.
Maior produtor de cocaína do mundo, a Colômbia precisa do apoio dos EUA para manter a pressão militar nas zonas de cultivo.
Questionado sobre as sanções por jornalistas após se encontrar com Trump, Petro respondeu: “Não se pode agir sob chantagens”. Ele disse não ter falado sobre isso com o presidente americano.
Trump quer, por sua vez, que Bogotá assegure a recepção de milhares de migrantes, fruto de sua campanha de deportações, num momento em que enfrenta fortes críticas da oposição. A Colômbia anunciou na semana passada que os voos em aeronaves colombianas serão retomados, após oito meses de interrupção.
Interesse petrolífero
Petro aproveitou a reunião ainda para afirmar que a Colômbia pode ajudar na reativação da indústria petrolífera no oeste da Venezuela. Segundo ele, desde a captura de Maduro, “os Estados Unidos viram a possibilidade imediata de revogar sanções no Ocidente e abrir as possibilidades de que a Ecopetrol” participe.
“A reativação do oeste da Venezuela pode ter um protagonismo grande da Colômbia”, disse ele à rádio Caracol.
O plano contemplaria o uso de energia elétrica limpa produzida na Colômbia, assim como a reativação de gasodutos, oleodutos e conexões elétricas já construídas, que permitiriam impulsionar setores como o gás, o petróleo e a indústria de fertilizantes em aliança com empresas venezuelanas, entre elas a petroquímica Monómeros.
“A reativação do oeste da Venezuela, não de toda a Venezuela, pode permitir uma economia mais próspera que beneficie ambos os países”, afirmou.
Segundo o presidente colombiano, a iniciativa não busca abranger todo o território venezuelano, mas se concentrar em áreas fronteiriças, como parte de uma estratégia de desenvolvimento econômico binacional.
(AP, Efe, ots)