Comportamento

‘Pessoas de bem’ aprendem a atirar e apoiam Bolsonaro por medo da violência

‘Pessoas de bem’ aprendem a atirar e apoiam Bolsonaro por medo da violência

No Rio de Janeiro, um cartaz alerta carros e pedestres sobre assaltos, em Santa Teresa - AFP/Arquivos

“O Rio vive uma guerra civil velada. As pessoas de bem vão se armar para defender sua família, sua propriedade e será uma guerra declarada, se nada for feito pelas autoridades”, alerta o empresário Armando Piccinini, um dos frequentadores do clube de tiro “Calibre 12”.

Desde o assassinato de seu pai em 2002, Piccinini, de 52 anos, decidiu que sua segurança dependeria de si mesmo e passou a defender a liberação do uso de armas de fogo, uma das bandeiras do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 7 de outubro.

No clube de tiro localizado em Niterói, município da região metropolitana do Rio, respira-se o cheiro da pólvora e o ar da camaradagem.

“Este é um ambiente familiar”, afirma Piccinini, sócio da “única empresa de turismo no Brasil que promove excursões para quem deseja ter seu primeiro contato com uma arma de fogo”.

Com a segurança pública como uma das maiores preocupações dos brasileiros, o debate sobre a liberalização do uso de armas tomou um rumo inesperado na quinta-feira, quando o ex-capitão do Exército que lidera as pesquisas para as eleições de 7 de outubro foi esfaqueado em um comício em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Seria “irônico, se não fosse trágico”, aponta Rildo Anjos, militar de reserva de 52 anos que trabalha como instrutor de tiro há quase três décadas.

“Um candidato pró-armas sofrendo violência por lâmina de faca de cozinha só corrobora o fato de que quem pratica violência é o próprio homem, e não” a arma, afirmou.

“Todos nós apoiamos o Bolsonaro”, afirma Paulo Alberto, de 55 anos, mais um dos 210 membros do clube, local de encontro para quem quer treinar tiro como prática de esporte, ou deseja obter uma autorização de porte de arma.

Com óculos de proteção e uma arma descarregada na mão, ele alega que “hoje em dia, a bandidagem supera as forças de segurança em número e equipamento bélico”.

“Os armamentos deles são infinitamente superiores, e a capacidade deles é muito melhor”, acrescenta.

“Moro perto de uma favela e acordo no meio de tiroteios. A gente sai de casa e não sabe se volta. Os cidadãos de bem exigem o direito de defender sua família”, enfatiza.

No Brasil, o porte de arma é regulado pelo Estatuto do Desarmamento, lei de 2003 que Bolsonaro pretende derrogar.

Sua posição vale ao candidato várias polêmicas, como quando, em julho, viralizou um vídeo em que aparecia ensinando uma menina a imitar um revólver com as mãos.

“As crianças brasileiras têm que ver as armas como algo ligado à responsabilidade e à proteção da vida”, justificou-se, em declarações ao jornal “O Globo”.

Essas declarações não assustam as pessoas no stand de tiro do clube.

“Meu filho está aqui”, afirma Anderson Lessa, um comerciante de 46 anos, apontando um adolescente.

“Ensinei meus três filhos a dirigir, nadar e atirar. Eu os preparei para que saibam se defender. Acho que um direito básico”, explica.

Sempre às voltas com suas posturas provocativas, Bolsonaro acabou virando alvo de críticas dos demais candidatos.

“Não acho que se resolva o problema dramático de um país com mais de 60.000 assassinatos por ano distribuindo armas à população (…). Ao contrário, isso aumentará a violência”, afirmou a ambientalista Marina Silva, que, segundo as pesquisas, tem chances de disputar o segundo turno com o ex-capitão.

– “A maior mentira do mundo” –

No Brasil, para comprar armas de fogo, é preciso ter ao menos 25 anos e apresentar prova de aptidão psicológica e capacidade técnica, além de uma “declaração de necessidade efetiva”. Em outras palavras, o candidato a se armar deve justificar por que quer uma arma.

“A declaração de necessidade efetiva é a maior mentira do mundo. Se eu for comprar um carro, preciso fazer uma declaração de necessidade efetiva e dizer para que quero um carro? Para ficar o dia todo na garagem?”, questiona Rildo Anjos, um militar de 52 anos que há 30 anos é instrutor de tiro.

“Para que quero uma arma? Para proteger meu bem maior que é a minha vida!”, prossegue.

O instrutor admite a necessidade de requisitos para manipular armas, mas acredita que o Estatuto não serviu para reduzir a violência. Em 2016, o Brasil alcançou a maior taxa de homicídios: 30,3 para cada 100.000 habitantes. Houve 62.517 assassinatos, dos quais 44.475 foram cometidos com uma arma de fogo.

Segundo o “Atlas da Violência 2018”, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, se não fosse pela lei de 2003, a taxa seria ainda maior.

Mas, no clube Calibre 12, Paulo Alberto insiste em que o Estatuto privou “os cidadãos de bem do direito da legítima defesa, garantido na Constituição”.

“Nos foi tirado nosso principal meio de defesa. Isso favoreceu a delinquência”, insiste.

Quando perguntados se um deles já teve de usar sua arma na rua, os risos são incômodos, e alguém responde: “A gente não gosta de falar disso”.