Internacional

Pesadelo americano

Falta de informações e dificuldades burocráticas retardam reencontro de pais e filhos separados pela desumana política de imigração de Donald Trump

Crédito: Joe Raedle

ACESSO RESTRITO Criança permanecem separadas dos pais em alojamentos: despacho de juiz reuniu primeira família brasileira (Crédito: Joe Raedle)

A espera é interminável. Falta de informação, dificuldades logísticas, má vontade de funcionários do governo: tudo conspira para aumentar o drama de 50 famílias brasileiras que foram bruscamente separadas de seus filhos nos Estados Unidos. Na semana passada, a Justiça da Califórnia, em uma decisão de alcance nacional, com base em uma ação da União Americana pelas Liberdades Civis (Aclu), invalidou a determinação do presidente Donald Trump de separar as famílias de imigrantes ilegais, prendendo os pais para julgá-los criminalmente e colocando os filhos em abrigos distantes. Foi dado um prazo de 14 dias para que as crianças de até 5 anos sejam devolvidas a seus responsáveis e de 30 dias para aquelas com idade entre 6 e 17 anos. Os efeitos da medida, contudo, não são imediatos e não há qualquer plano de ação para cumpri-la.

Desde o início da prisão dos imigrantes, em abril, pelo menos 2,3 mil crianças e adolescentes de várias nacionalidades foram separados de seus pais, detidos por cruzarem ilegalmente a fronteira, e 1,8 mil ainda continuam na mesma condição. Na quinta-feira 28, a brasileira Lídia Karine Souza conseguiu a libertação imediata de seu filho de 9 anos, que estava alojado em Chicago. Nem todos têm a mesma sorte. Os consulados brasileiros espalhados pelos EUA enfrentam obstáculos burocráticos e pouco empenho dos funcionários americanos para facilitar o reencontro. Oito crianças estão instaladas em abrigos no Texas. “A situação é dramática, o governo americano não fornece dados oficialmente sobre os abrigados e nós temos que descobrir onde estão suas famílias”, diz o cônsul-adjunto em Houston, Felipe Santarosa. “O Texas é do tamanho de Minas Gerais e algumas crianças estão em cidades localizadas a dez horas de carro do consulado e sem contato com os pais.” Santarosa já se encontrou com três dos oito alojados no estado: dois adolescentes de 15 e 16 anos e um menino de 9, retido há mais de um mês em uma hospedagem na cidade de Como. A mãe dele está presa no estado de Massachussets, a milhares de quilmetros dali. “Passei 20 dias tentando encontrar os responsáveis por ele e soube, finalmente, na semana passada, que a mãe iria entrar em liberdade provisória, o que deve facilitar o reencontro”, diz o o diplomata, cujo temor é que os pais sejam deportados sem os filhos. Semelhante a uma escola americana, com dois prédios e um espaço de lazer no centro, o abrigo de Como é cercado por um alambrado de sete metros de altura, o que reforça a sensação de prisão. As crianças têm aulas diárias de espanhol e atividades numa sala de brinquedos.

Felipe Santarosa, diplomata (Crédito:Divulgação)

“A situação é dramática e o governo americano não fornece oficialmente dados sobre as crianças abrigadas” Felipe Santarosa, diplomata

Veto migratório
A Corte Suprema aprovou na segunda-feira, 25, o veto migratório de Trump que limita a entrada nos Estados Unidos de pessoas de cinco países de maioria muçulmana – Irã, Líbia, Somália, Síria e Iêmen. Para a maioria dos juízes da Corte, a política do governo pode ser levada adiante porque não viola a lei federal de imigração e nem a Constituição americana no que se refere à discriminação religiosa.