Perto do caos social

O Brasil vive uma crise com características especiais. Não há na história republicana nenhum paralelo. Tudo o que vivemos foram crises pontuais. Hoje estamos assistindo a um processo de tensão permanente que atinge amplos setores da vida nacional. É a crise mais longa e profunda. Longa pela extensão no tempo; profunda, pois alcançou uma amplitude muito maior do que conhecemos em 132 anos de República. E pior: em nenhuma das anteriores tivemos à frente da Presidência um genocida, psicopata e beócio.

Esperar que Bolsonaro possa se converter à democracia é, no mínimo, um grave equívoco. Não há, para ele, um caminho de Damasco.

Ao longo da sua vida parlamentar sempre deixou claro o seu descompromisso com os valores democráticos e com a Constituição de 1988. Não podemos esquecer que ele planejou — ainda quando era capitão — um conjunto de ações terroristas no Rio de Janeiro que, se realizadas, levariam a um morticínio. Permaneceu décadas no Parlamento defendendo torturadores, ditaduras, insuflando a guerra civil e até advogando o fuzilamento de um presidente da República.

Bolsonaro sempre defendeu torturadores, ditaduras, insuflou a guerra civil e até advogou pelo fuzilamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

A questão que se coloca é que os sucessivos ataques ao Estado democrático de Direito, nesta conjuntura, são ainda mais graves.

Isto porque o país vive a crise sanitária mais grave da história. A perversa combinação destes fatores e, ainda, associados a uma profunda crise econômica joga o Brasil à beira do caos social. Temos milhões de brasileiros que, sem exagero, passam fome. Outros milhões estão à margem do mercado formal de trabalho, jovens — e, infelizmente, também são milhões —, que não trabalham, nem estudam.

A economia está sem qualquer plano de reativação, à deriva. Todas as condições para uma explosão social
ao estilo das antigas jacqueries, que assolaram o mundo rural francês no final da Idade Média, estão colocadas, isto porque não há, como no final do século anterior, organizações populares que poderiam sistematizar, articular e conduzir ações políticas.

O impasse tem de ser enfrentado e resolvido. A iniciativa política tem de ser dos setores democráticos. Agir reativamente não basta. Para isso é indispensável construir um amplo arco de alianças no Parlamento e fora dele. A ação — ao invés de simples lamentos — é fundamental. E tem de ser rápida. Diversamente das crises anteriores, esta tem um componente único: a vida dos milhões de brasileiros. Se Bolsonaro não for rapidamente vencido, a pandemia continuará a ceifar diariamente milhares de vidas.


Sobre o autor

Marco Antônio Villa é historiador, escritor e comentarista da Jovem Pan e TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos (1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993). É Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia (USP) e Doutor em História (USP)


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