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Perguntei como ela estava, e parou de responder, diz mulher que perdeu 4 da família


A costureira Cristiane Ramos, de 49 anos, era uma das dezenas de pessoas que na manhã desta quinta-feira, 17, esperava diante da Sala Lilás do posto de identificação do Instituto Médico-Legal (IML) de Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Ela aguardava o momento de ser chamada para a liberação dos corpos da cunhada, Marise, de 42, e dos sobrinhos Yuri (13), Vitória (11) e Cláudio (4), que morreram soterrados após deslizamento provocado pelas chuvas de terça-feira, 15. A tragédia deixou pelo menos 106 vítimas.

“Espero que isso acabe logo, para acabar de uma vez com o sofrimento da gente.” Cristiane contou que foi a última pessoa a conversar com a cunhada. Quando começou a chuva, ela chamou Marise pelo WhatsApp para saber como estava a situação onde ela morava, em região próxima ao Alto da Serra, uma das áreas mais atingidas. “Toda chuvinha eu entrava em contato, porque a gente se preocupa. Chamei ela e perguntei como estava, e poucos minutos depois ela simplesmente parou de conversar”, relembrou

“Ela falou que estava chovendo muito e que estava dentro de casa com as crianças. Ela disse que tinha ido buscar a menina (Vitória) no colégio e pegado chuva no meio do caminho. Disse também que, quando ela chegou em casa, tinha caído uma barreira na frente da casa.”

Minutos depois, Marise parou de responder. Os corpos dela e dos filhos foram resgatados já sem vida pelos bombeiros e encaminhados ao IML. Faltava, no fim da manhã desta terça, apenas a finalização dos trâmites burocráticos para eles serem liberados.

“Meu irmão (pai das crianças e marido de Marise) estava trabalhando quando aconteceu. Ele está arrasado”, lamentou Cristiane. “Eu espero que liberem logo isso para acabar com o sofrimento da gente. Eu sei que não é só com a gente, todo mundo que está aqui está querendo ter notícias. É difícil, é muito sofrido.”

Além dela, pelo menos outras 30 pessoas aguardavam em frente ao posto do IML para identificar os corpos de familiares ou, ainda, manter a esperança de encontrá-los com vida. De tempos em tempos, uma policial civil surgia na porta e lia uma lista de nomes.

Um casal, que pediu para não se identificar, acompanhava a leitura com sentimentos conflitantes. Eles ainda têm a esperança de encontrar o filho com vida. “Ligamos para hospitais e para a polícia, pediram pra gente vir para cá”, contou o pai.

O filho não morava em área de risco, mas estava em um ônibus que foi arrastado pelas chuvas para dentro de um córrego. “Nós identificamos ele num vídeo. É aquele de camisa preta com manga que brilha. No vídeo a gente vê ele saindo, mas a imagem corta quando passa por uma árvore. Não sabemos o que aconteceu depois”, narrou a mãe.

A Polícia Civil montou uma força tarefa com cerca de 200 agentes, incluindo legistas, técnicos e auxiliares de necropsia. Um caminhão refrigerado está estacionado junto ao posto do IML para ajudar no armazenamento dos corpos.