Dois acidentes no intervalo de uma semana deram ao público a impressão de que a corrida espacial vai mal das pernas. No dia 20, quinta-feira, a nave Starship foi explodida pela equipe da missão apenas quatro minutos depois de decolar, quando o foguete ficou sem controle. Na quarta, dia 26, a nave japonesa Haruto-R perdeu contato com a Terra quando estava a 30 segundos de pousar na Lua. Sem comunicação posterior, só restou a alternativa de reconhecer o fracasso da empreitada. São notícias ruins, que chegam no momento em que a ida do homem ao espaço volta a ser popular na mídia e foco de investimentos bilionários.

Falando em dinheiro, a Starship é o projeto mais ambicioso daquele que volta e meia ocupa o posto de homem mais rico do mundo. A SpaceX, empresa de Elon Musk, propõe com seu novo foguete o propulsor mais potente da história, combinando 33 motores para gerar velocidade e autonomia muito além do melhor desempenho de qualquer projeto da Nasa, a agência espacial americana. O empresário, seguindo sua costumeira e nada modesta atuação nas redes sociais, postou uma mensagem pretensamente otimista poucos minutos depois que seus cientistas decidiram explodir a nave antes que ela ficasse totalmente incontrolável. “Congratulações à equipe SpaceX pelo animador teste da Starship. Aprendemos muita coisa para um novo lançamento daqui a alguns meses”, escreveu.

Explosão do foguete de Musk e fracasso no pouso de nave japonesa lançam dúvidas sobre o futuro da corrida espacial
ROUPA NOVA A Axiom fabrica trajes espaciais para a missão Artemis III, que deverá pousar na Lua em 2025 (Crédito:Handout )

O consultor Darryl Luganis, com longa experiência na Nasa, tendo trabalhado 12 anos no projeto Apollo, disse à ISTOÉ que a reação de Musk está dentro do que esperava. “Claro que ter conseguido manter a Starship no ar por mais algum tempo seria ótimo, mas ele não mente quando ressalta o aprendizado que um teste desse tipo oferece. Mas Musk é um falastrão, e muito gente não gosta dele, e são essas pessoas que festejam o lançamento como um fracasso inútil.”

Vanderlei Cunha Parro, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, vê sentido no que Musk falou. “A ambição da SpaceX em termos de avanço tecnológico é gigantesca. O acidente não depõe contra o processo. A declaração cumpre seu papel, como inspiração motivacional, mostrando que a coisa vai seguir. Milhares de pessoas já trabalharam no projeto, muito aprendizado foi desenvolvido, mesmo com erro.” A missão japonesa com a Haruto-R também pode ter obtido informações cruciais e inéditas em seu voo, mas é preciso saber se as várias empresas envolvidas no projeto têm a mesma condição financeira de Musk para continuar investindo.

Explosão do foguete de Musk e fracasso no pouso de nave japonesa lançam dúvidas sobre o futuro da corrida espacial
HÁ 51 ANOS Apollo 17: Harrison Schmitt, chefe da última tripulação no solo lunar, em 1972 (Crédito:NASA)

Ao largo desses acidentes, a Nasa passa por uma euforia que há tempos não experimentava. O anúncio da volta das viagens tripuladas à Lua, com as missões Artemis II, no próximo ano, e Artemis III, em 2025, esboçam uma retomada do projeto lunar que fez da chegada do homem ao satélite terrestre o Santo Graal da corrida espacial, em uma grande metáfora da Guerra Fria. Depois que os Estados Unidos alcançaram o objetivo antes da então União Soviética, o projeto esmoreceu. A última nave tripulada a pousar na Lua foi a Apollo 17, em 1972! O professor Parro acredita que interromper as missões à Lua não provocou um atraso no desenvolvimento técnico. “Na época, tinha o motor político empurrando a corrida espacial. Mas existem outros motores, como a ciência, o comércio, que levaram a avanços tecnológicos.”

Agora, tendo Marte como novo objetivo, a agência americana tenta levar a coisa com o maior apelo popular possível. Para a Artemis II, escalou o quarteto de astronautas que vai orbitar a Lua com uma mulher e um negro no time. Para a Artemis III, nave que deve efetivamente pousar na Lua, um novo traje espacial já foi apresentado, com inúmeros recursos tecnológicos inéditos e visual de uniforme de super-herói de quadrinhos.Explosão do foguete de Musk e fracasso no pouso de nave japonesa lançam dúvidas sobre o futuro da corrida espacial

À espera da Starship

A Nasa e a Agência Espacial Europeia estão com projetos divididos com empresas tecnológicas de todo o mundo, o que mostra um suposto fôlego para bons avanços rumo ao cosmos. Mas há um nó a desatar no meio desse cenário, e de novo aparece a figura de Elon Musk. A Starship é a aposta para levar astronautas a Marte. Por enquanto, não existe nenhum propulsor comparável ao bancado pela SpaceX. O bilionário afirma que poderá pousar uma nave não tripulada em Marte ainda nesta década, dando 2027 como data provável, e joga suas fichas em levar astronautas ao planeta em 2030. A Nasa trabalha com prazos bem mais modestos. Considera 2040 uma data exequível para uma pessoa pisar no planeta. De qualquer forma, é clara uma “Musk-dependência” da agência. Quanto mais a SpaceX demorar para acertar seu superfoguete, mais tempo a Nasa espera.

Sem outro player no mercado disposto a literalmente torrar centenas de milhões de dólares em lançamentos inconclusivos, é difícil enxergar um avanço rápido da Nasa. Outros modelos de experiências espaciais parecem esgotados. Avanços técnicos surgiram com os ônibus espaciais, mas, depois dos acidentes com a Challenger, em 1986, e com a Columbia, em 2003, totalizando 14 astronautas mortos, foi impossível seguir com o formato. A Estação Espacial Internacional, que acolhe tripulantes de países diferentes desde 2000, será desativada em 2030, muito além da previsão inicial de sua vida útil para 2011. Mas, depois de trazida para a Terra em janeiro de 2031, talvez não exista mais clima para essa cooperação global em órbita.

Problemas de um bilionário

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Joe Skipper

Em março, Elon Musk teve fortuna avaliada em US$ 184 bilhões, atrás apenas de Bernard Arnault, dono do império de luxo que inclui a grife Louis Vuitton. Mas seus problemas vão além de foguetes explodindo. Há duas semanas, perdeu em um único dia US$ 12,6 bilhões com suas empresas.

A Tesla, desenvolvedora de carros elétricos, teve péssimo faturamento no trimestre: queda de 10 pontos nas ações. Depois de diminuir os preços dos veículos, a resposta foi aumentá-los de novo no último dia 22, estratégia duvidosa.

Os problemas não param também no Twitter. Musk administra crises na rede social desde sua aquisição, no ano passado, por US$ 44 bilhões. Desde então, polêmicas e perda de usuários já fizeram o valor da empresa despencar a US$ 22 bilhões. Agora Musk lançou o Twitter Blue, plano de assinatura que custa R$ 42 mensais, com imensa repercussão negativa. O Twitter vê hoje uma debandada de famosos, perdendo sua força. Mas, mesmo crivado de problemas, Musk ainda é a esperança de o homem pisar em Marte .

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Divulgação

* Estagiário sob supervisão de Thales de Menezes