A pesquisadora brasileira Tatiana Sampaio esclareceu em entrevista ao Roda Viva da Tv Cultura nesta segunda-feira, 23, que a patente internacional da polilaminina foi perdida devido a uma decisão ‘técnica’ da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), embora o contexto nacional fosse de cortes de verbas para pesquisas em universidades.
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O caso ganhou repercussão após Tatiana declarar, em entrevista ao Brasil 247 no dia 24 de dezembro, que as patentes internacionais foram perdidas em 2015 e 2016. A notícia ganhou as redes sociais, onde usuários passaram a acusar Dilma Rousseff, presidente da República até 2016, e Michel Temer, que assumiu o cargo após o impeachment da petista.
“Em 2014, houve uma avaliação da UFRJ de que não valia mais a pena continuar pagando as patentes dos EUA e da Europa. Foi uma avaliação técnica, que concluiu que essas patentes não seriam concedidas no futuro, que era um custo alto e não valia a pena pagar. Não foi uma decisão minha, eu fui comunicada e suspenderam. Mas foi uma decisão técnica”. afirmou.
“Não foi uma perda para o Brasil. Vamos supor que tivéssemos obtido a patente internacional. Provavelmente isso teria sido negociado com uma empresa farmacêutica internacional, que daria um ‘tchau’ para nós todos e já estaria vendendo por uma fortuna e a gente comprando”, complementou.
O que diz a farmacêutica responsável pela produção da substância
A farmacêutica Cristália, responsável pela produção da polilaminina, divulgou no dia 19 deste mês uma nota de esclarecimento sobre a situação da patente da substância. Segundo a empresa, a propriedade intelectual segue válida e não houve perda da patente relacionada a esses pedidos.
O laboratório ainda informou que solicitou, em 2022, a patente nacional e, em 2023, a patente internacional referente ao processo de extração, purificação e polimerização da polilaminina — substância atualmente em testes clínicos de Fase 1. Essas patentes têm validade de 20 anos, com vencimento previsto para 2042 (nacional) e 2043 (internacional).
“Trata-se de um processo complexo, que demanda alta tecnologia e que foi desenvolvido com exclusividade pelo centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do laboratório Cristália. Além disso, a substância que está sendo utilizada nos testes clínicos é produzida em uma de nossas plantas de biotecnologia de última geração”, afirma a farmacêutica.
“Como todas as patentes, as relativas ao processo de extração, purificação e polimerização da polilaminina têm validade de 20 anos, vencendo em 2042 a patente nacional e em 2043 a internacional”, continua a nota.
O que é a polilamina
A polilaminina é uma versão polimerizada da laminina, uma proteína naturalmente produzida no corpo (especialmente abundante no desenvolvimento embrionário) e extraída de placentas humanas. No laboratório, a equipe da UFRJ conseguiu recriá-la para formar uma espécie de “andaime biológico” que estimula a reconexão de axônios (as “fibras” dos neurônios), facilitando a comunicação entre o cérebro e o corpo na região lesionada da medula.
A aplicação ideal ocorre de forma única, durante a cirurgia de descompressão da coluna, preferencialmente nas primeiras 72 horas após o acidente. Em situações fora desse prazo, pode ser injetada diretamente na medula.
Embora ainda experimental, a substância já foi usada em alguns pacientes por meio de decisões judiciais ou uso compassivo. Um exemplo recente é o da nutricionista e influenciadora Flávia Bueno, que sofreu lesão medular grave após um mergulho no início de 2025 e recebeu a polilaminina após liminar judicial; a família relatou movimentos no braço direito dias depois, mas especialistas enfatizam que não há como atribuir diretamente a melhora ao medicamento, devido a outros fatores e tratamentos envolvidos.
Em um estudo acadêmico preliminar (não patrocinado externamente e ainda sem revisão por pares completa), realizado pela equipe de Tatiana Sampaio com oito pacientes que tinham lesão medular completa, 75% apresentaram algum grau de recuperação de função motora — um índice bem superior aos cerca de 10% de recuperação espontânea típica descritos na literatura médica para casos semelhantes.
Pacientes relataram ganhos significativos de mobilidade, mas os resultados são considerados preliminares e não definitivos: ainda não é possível afirmar com certeza que as melhoras decorrem exclusivamente da polilaminina.