Pelados na guerra

Crédito: NELSON ALMEIDA

SEM RITUAL Coveiros fazem sepultamento de mortos pelo coronavírus no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo (Crédito: NELSON ALMEIDA)

Jair Bolsonaro visitou Mato Grosso na manhã de hoje e disse, como elogio aos produtores rurais da região: “Vocês não entraram naquela conversinha mole de ‘fique em casa e a economia a gente vê depois’. Isso é para os fracos. O vírus, eu sempre disse, era uma realidade e tínhamos que enfrentá-lo. Nada de se acovardar perante aquilo que a gente não pode fugir”. 

Sei que Bolsonaro não deixou escapar a frase sem querer. Foi uma provocação, uma armadilha. É parte do seu show. Infelizmente, tenho de morder a isca. É uma obrigação moral do jornalismo não olhar para o outro lado diante de absurdos. 

O presidente continua dizendo que a tentativa de reduzir o número de mortes da pandemia por meio do isolamento social foi uma bobagem – coisa de fraco. Ele continua insistindo que é preciso ser macho diante do perigo. 

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Como filosofia, não faz o menor sentido. Transportemos o raciocínio para o mundo militar. Se é bobagem tentar proteger as pessoas de uma doença – ainda mais de um vírus como o coronavírus, sobre o qual ninguém sabia nada até poucos meses atrás -, também é bobagem tentar proteger soldados do inimigo. Em vez de usar armas e coletes à prova de bala, eles deveriam correr pelados para o combate. Sim, é uma caricatura. Mas Bolsonaro é um presidente caricatural. 

Muita gente aplaudiu enquanto o presidente elogiava a coragem dos fazendeiros mato-grossenses, às custas de zombar de todos os brasileiros que em algum momento decidiram se isolar para fugir do risco (especialmente aqueles brasileiros que vivem apinhados em favelas, ou tomam todos os dias o transporte público, em vez de trabalhar nas vastidões do cerrado).

Suponho que as mesmas pessoas pedirão a interferência do governo se algum país estrangeiro impuser barreiras de importação aos produtos agrícolas brasileiros. Ou vão correr pelados para a guerra?   

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Você elege políticos para que eles resolvam problemas ou para que eles deixem os problemas intocados? 

Você acha que os seus representantes no governo devem usar os recursos do país para mitigar situações de risco ou podem deixar a população entregue à própria sorte? 

Você acredita que um governante, tendo a chance de salvar vidas, tem a obrigação moral de fazê-lo ou pode simplesmente olhar para o outro lado? 

Não sei quanto a você, mas a minha resposta é sim para as três perguntas acima.

Se quem ocupa um cargo público pode simplesmente dar de ombros diante de situações de incerteza e de perigo, arrotando frases como “todos vamos morrer um dia”, não vejo razão para que esse cargo público exista. Se devo me virar por conta própria, melhor fazer isso sem os custos e os aborrecimentos que vêm de Brasília. 

O governo fez a coisa certa ao distribuir o auxílio emergencial e cuidar de quem se viu em sérios apuros diante da paralisação da economia. Ou melhor: o Congresso fez a coisa certa, obrigando o governo a agir, mas deixemos para lá.  

O governo poderia ter reduzido o número de mortes pelo coronavírus no Brasil. Mas, em vez de fazer o trabalho de coordenação que lhe competia, Bolsonaro escolheu, mais do que a omissão, a sabotagem dos esforços para conter a doença.

O fato de que a pandemia podia ser mais bem controlada é comprovável. Não se trata de uma opinião. Basta olhar para países que tiveram taxas muito menores de mortalidade fazendo o contrário do Brasil, ou seja, coordenando ações.  

Bolsonaro errou, mas jamais vai admitir isso. Continuará guerreando, armado com suas bazófias e suas mentiras. Há que ter coragem e não desanimar. Com sorte, um dia o capitão fica nu. 

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