Nessa segunda-feira, dia de ressaca cívica, muita gente ainda questiona se o enfrentamento de eleitores de Lula e de Bolsonaro poderá render reações tensas e agressões físicas. Não falta combustível para tal, basta rever a imagem da justiceira Zambelli de arma em punho no bolsão classe alta da cidade de São Paulo.
Por essa insegurança, compreensível, ficar mais surpreendente a cena no metrô paulistano, nesta manhã de segunda pós-eleição. As portas do trem se abrem, e quem entra dá de cara com uma mulher, aparentemente com menos de 30 anos, discutindo com um rapaz, ainda mais jovem. Os dois em pé, conversando em tom tranquilo, mas com vozes firmes e altas, até porque o barulho do metrô em movimento recomenda um tom acima do normal para que as frases sejam ouvidas com clareza.
A mulher não traz nenhum detalhe visual, nem em sua roupa nem em adereços, que ajudem a classificá-la previamente em algum grupo urbano facilmente reconhecível. Já o rapaz é praticamente um clichê. Adota corte de cabelo no estilo militar, exibe um corpanzil musculoso e veste uma camiseta com a figura de Jair Bolsonaro. Este editor pega a conversa no meio, quando o rapaz está dizendo que, mais importante do que aquilo que Bolsonaro fala, é aquilo que ele faz. “E ele fez o quê, além de atrapalhar a vida da gente?”, pergunta a mulher. “Botou ordem numa série de coisas”, responde o jovem. Ela riu, e os dois continuam a conversa, que contava com pelo menos uma dúzia de interessados em volta, prestando atenção.
Depois de tantas demonstrações de truculência pelas redes sociais, a cena trazia uma civilidade até surpreendente. A ponto de, após a mulher ter dito que muito bolsonarista só quer uma desculpa para sair por aí batendo nos outros, o rapaz dos bíceps à mostra a interrompê-la e falar: “Eu não sou lutador, não quero bater em ninguém. O meu lance o fisiculturismo!”.Uma mulher ao lado, que levava um carrinho cheio de garrafas térmicas, certamente para vender café na rua, chega a aplaudir o fortão. No destino final do trem, os dois saem caminhando do vagão, ainda em plena conversa.
Claro que essa amostragem não serve de balizamento para nada. Provavelmente uma cena pitoresca perdida dentro de um vagão de metrô na zona oeste de São Paulo, nada mais que isso. Mas, ainda sob os efeitos da vitória de Lula, pode servir para lembrar que ninguém quer o fim da discussão política. O bom mesmo é civilidade no lugar do bate-boca.