Os senadores Eduardo Girão (Novo-CE) e Plínio Valério (PSDB-AM) afirmaram à IstoÉ que não há mais formas de conter o movimento pela votação do impeachment do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), no Senado.
“As sessões do Senado estão suspensas até o Carnaval, o que impede a discussão. Mas não tem mais como segurar“, disse Valério. “Sou favorável e muitos colegas são, mas não há sessões para discutirmos”, concluiu.
Girão afirmou que apresentará nesta quinta-feira, 12, um aditamento ao pedido de impeachment apresentado em 14 de janeiro. “Espero que o Senado se levante, porque está ficando muito ruim. Dezenas de pedidos foram engavetados pelo presidente [Davi Alcolumbre], e no caso do Toffoli há uma robustez de material, como demonstraram as revelações do celular do Daniel Vorcaro [dono do Banco Master]“.
O senador cearense pediu à PGR (Procuradoria-Geral da República) que o magistrado seja declarado suspeito para atuar como relator do caso Master no STF por conflito de interesse, mas não teve resposta. “Agora, o Senado tem a obrigação de colocar o impeachment em pauta“, disse Girão.
Como a IstoÉ explicou, qualquer proposta de impeachment de ministro do Supremo tem de ser analisada pela Mesa Diretora do Senado e, se houver aval do presidente da Casa, uma comissão especial é instaurada para emitir um parecer sobre a denúncia e sua passibilidade de julgamento.
Esse parecer vai a plenário, onde pode ser aprovado por maioria simples (41 dos 81 votos) dos parlamentares. O Senado então organiza o julgamento do pedido, onde os 81 senadores são convocados a votar “sim” ou “não”. Se houver adesão de dois terços (54 votos), o impeachment é aprovado, o que ainda não ocorreu na história da corte.
No caso de Toffoli, o pedido apresentado por Girão tem apoio de 20 senadores e 23 deputados federais. Veja a lista:
SENADORES
1. Magno Malta PL/ES
2. Jaime Bagattoli PL/RO
3. Astronauta Marcos Pontes PL/SP
4. Hamilton Mourão REPUBLICANOS/RS
5. Plínio Valério PSDB/AM
6. Carlos Portinho PL/RJ
7. Eduardo Girão NOVO/CE
8. Styvenson Valentim PSDB/RN
9. Cleitinho REPUBLICANOS/MG
10. Luis Carlos Heinze PP/RS
11. Vanderlan Cardoso PSD/GO
12. Izalci Lucas PL/DF
13. Marcos do Val PODEMOS/ES
14. Alessandro Vieira MDB/SE
15. Flávio Bolsonaro PL/RJ
16. Damares Alves REPUBLICANOS/DF
17. Marcio Bittar PL/AC
18. Marcos Rogério PL/RO
19. Esperidião Amin PP/SC
20. Sergio Moro UNIÃO/PR
DEPUTADOS
1. Rodolfo Nogueira PL/MS
2. Marcel van Hattem NOVO/RS
3. Marcio Alvino PL/SP
4. Rosana Valle PL/SP
5. Rodrigo da Zaeli PL/MT
6. Delegado Caveira PL/PA
7. Zé Trovão PL/SC
8. Carla Dickson UNIÃO/RN
9. Cabo Gilberto Silva PL/PB
10. Luiz Philippe de Orleans e Bragança PL/SP
11. Luiz Lima NOVO/RJ
12. General Girão PL/RN
13. Delegado Fabio Costa PP/AL
14. Junio Amaral PL/MG
15. Sargento Fahur PSD/PR
16. Dr. Frederico PRD/MG
17. Evair Vieira de Melo PP/ES
18. Adriana Ventura NOVO/SP
19. Pedro Westphalen PP/RS
20. Helio Lopes PL/RJ
21. Sargento Gonçalves PL/RN
22. Gilvan da Federal PL/ES
23. Rosangela Moro UNIÃO/SP
Questionada sobre a possibilidade de Alcolumbre pautar o pedido, a assessoria do presidente do Senado não respondeu até a publicação desta notícia. O espaço segue aberto à manifestação.
O que compromete Toffoli no caso Master
Toffoli foi designado para relatar o inquérito que investiga as fraudes do Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero e solto semanas depois, sob o cumprimento de medidas cautelares.
Desde então, o magistrado ordenou que itens apreendidos na nova fase da Compliance Zero fossem enviados ao STF “lacrados e acautelados” para avaliação — o que, num primeiro momento, impedia a análise das provas pela PF. Depois, recuou da determinação.
Dois dias após a decisão, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é o dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos de Toffoli no resort Tayayá, cujo valor estimado à época era de R$ 6,6 milhões. O site Metrópoles revelou que o magistrado frequenta o hotel de luxo, recebe convidados e é tratado por funcionários como dono.
A ONG (Organização Não Governamental) Transparência Internacional Brasil afirmou haver um “conjunto de evidências muito mais que suficientes” para que PGR e Senado apurem a conduta do ministro. “Cabe agora à sociedade demandar que as autoridades competentes cumpram seu papel, diante deste caso que está afundando o tribunal constitucional brasileiro em sua mais grave crise”. Senadores acionaram a Procuradoria para pedir seu afastamento do caso.
Na quarta-feira, 12, a PF pediu a suspeição do ministro após encontrar menções ao seu nome no celular de Vorcaro. Além das citações, o site UOL revelou que conversas entre banqueiro e magistrado foram encontradas no aparelho. Como relator, Toffoli deveria ser o destinatário de novas informações das investigações. Como ele mesmo está citado, os policiais repassaram o material para o presidente da corte, Edson Fachin, avaliar que medida deve ser adotada.
Em nota divulgada nesta quinta por meio de seu gabinete, Toffoli negou ter recebido “qualquer valor” de Vorcaro ou Zettel. O magistrado admitiu que teve uma participação societária em uma empresa familiar e administrada por parentes, a Maridt, que era integrante do grupo Tayaya até 21 de fevereiro de 2025. Conforme a Lei Orgânica da Magistratura, um magistrado pode integrar o “quadro societário de empresas e dela receber dividendos, sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador”, disse o comunicado.
Segundo o ministro, a participação da Maridt na Tayaya foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025.
“Deve-se ressaltar que tudo foi devidamente declarado à Receita Federal do Brasil e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado”, seguiu a nota de Toffoli. “Todos os atos e informações da Maridt e de seus sócios estão devidamente declarados à Receita Federal do Brasil sem nenhuma restrição”.
O ministro afirmou no comunicado que a ação sobre a compra do Master pelo BRB foi distribuída a ele no dia 28 de novembro de 2025. “Ou seja, quando há muito a Maridt não fazia mais parte do grupo Tayaya Ribeirão Claro”, ressaltou. Na prática, Toffoli indicou na nota que não vê motivos para que ele, por conta própria, deixe a relatoria do caso Master.
*Com informações de Reuters