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Pediatras criticam guia alimentar para crianças feito pelo Ministério da Saúde

Bebês a partir de nove meses que não são alimentados com leite materno podem tomar leite de vaca ou somente fórmulas infantis? A discussão ganhou corpo depois de o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, abrir uma brecha para o uso de leite de vaca a partir desta faixa etária.

Lançado semana passada, o documento diz ser possível substituir a fórmula infantil por leite materno, a partir de 9 meses, caso os bebês já não recebam o aleitamento materno e seja difícil o uso de fórmulas.

A orientação provocou uma reação imediata da Sociedade Brasileira de Pediatria. Na quinta-feira, 21, a entidade encaminhou para o Ministério da Saúde um comunicado questionando e pedindo mudanças no guia, sob o argumento de que o leite de vaca na dieta dos bebês nesta idade pode causar complicações, comprometer o crescimento e o desenvolvimento.

“O documento traz recomendações muito importantes sobre o aleitamento materno, é muito bem feito”, afirma Virgínia Weffort, da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Mas, ao mesmo tempo, inclui orientações sobre o uso de leite de vaca que não concordamos.”

Virgínia afirma que o leite de vaca tem altos teores de proteínas e sua ingestão em bebês compromete o metabolismo, aumenta o risco de obesidade e sobrecarrega os rins. Para a sociedade, o essencial seria que bebês que não podem receber aleitamento materno exclusivo tivessem acesso a fórmulas infantis.

Diretora do Departamento de Promoção À Saúde do Ministério da Saúde, Lívia Salles afirma que o documento lançado semana passada pela pasta é fruto de mais de dois anos de discussão e que, em nenhum momento, recomenda o uso do leite de vaca como primeira opção. “A cartilha foi feita para contribuir com o desenvolvimento de estratégias que promovam uma dieta saudável e equilibrada. Mas ela deve ser feita de acordo com a realidade do País”, argumenta.

Lívia conta que pesquisas realizadas mostram que 60% dos bebês brasileiros com menos de seis meses e 74% dos bebês maiores de seis meses já tomam leite de vaca. Isso se deve, sobretudo ao alto preço das fórmulas infantis. Nem todas as famílias do País conseguem arcar com o custo deste tipo de alimentação e acabam, portanto, mesmo sem recomendação médica, recorrendo ao leite de vaca.

Ela diz que, diante dessa realidade, a equipe de consultores procurou deixar claro no manual as melhores formas do uso do leite de vaca, quando fórmulas infantis ou o aleitamento não podem ser realizados. Nos casos de bebês a partir de quatro meses, o leite tem de ser diluído em água. Para maiores de 9 meses, o produto pode ser incluído na alimentação, mas dentro de um cardápio equilibrado.

Lívia argumenta que o Brasil não está sozinho na recomendação do uso de leite de vaca. O guia alimentar do Canadá e o da Suécia já trazem essa possibilidade, a partir dos nove meses.

“E, naqueles países, a decisão não é norteada em função do preço”, observa a diretora da Ministério da Saúde.

Ela afirma que a pasta não cogita fazer alterações no guia, em função das críticas feitas pela sociedade de pediatria. Acrescenta ainda o argumento de que a Organização Mundial da Saúde recomenda que todos as cartilhas feitas por organismos públicos têm de levar em consideração a realidade do País.

A nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Ana Paula Bortoletto Martins avalia que o leite de vaca, de fato, não é a primeira opção para se incluir na dieta de bebês. “Entendo as queixas feitas pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mas o documento do ministério também deixa claro que a prioridade é o aleitamento materno exclusivo. E que fórmulas viriam em segundo lugar”, completa.

Alerta

Ana Paula, contudo, chama atenção para outro risco quando não se dá alternativa para famílias: o uso inadvertido de compostos lácteos como se fossem fórmulas infantis. Esses compostos estão dispostos nas prateleiras de farmácias e supermercados ao lado de fórmulas infantis. As embalagens são muito parecidas, mas o preço é muito menor. “Muitas famílias, sem informação adequada, acabam se valendo destes preparados, na ilusão de que estão comprando o melhor para seus filhos. Como se fosse uma fórmula, mas mais barata”, diz.

Tais compostos, embora sejam muito mais baratos, levam em sua composição 51% de leite. Trazem ainda uma boa porção de açúcares e são enriquecidos com alguns vitaminas. “Eles estão longe de ser um alimento adequado para bebês e crianças”, diz Ana Paula.

Esses compostos, por terem registro no Ministério da Agricultura, não são ainda sujeitos às regras que controlam a publicidade. E justamente por isso, muitas vezes trazem brindes, ou promoções de descontos. O guia faz um alerta para esses compostos, mostrando que eles estão longe de ser um substituto para fórmulas infantis.

Além das críticas às referências ao leite de vaca, Virgínia conta que a sociedade discorda das recomendações feitas a formulação de papinhas para bebês. O guia permite o uso moderado de sal nestas refeições. A pediatra afirma, no entanto, que o ideal seria que nenhum sal fosse adicionado à dieta até um ano de idade. “Recomendamos o uso moderado, estudos mostram não haver prejuízo com essa prática”, afirma Salles.