Pede para sair, capitão!

Crédito: Andre Ribeiro

(Crédito: Andre Ribeiro)

Fosse ele decente — o que deveras, não é — já teria jogado a toalha e admitido os delitos. O capitão Bolsonaro, ao contrário, dobra a aposta nos crimes. Como espuma encharcada de lama, quando comprimida vai expelindo sujeira por todos os poros e o odor putrefato de suas lambanças toma conta de Brasília. O genocida que com as suas práticas e faltas matava e desmatava agora também demonstra roubar a torto e a direito. Não apenas se envolvendo em ardis deploráveis para a compra de vacinas superfaturadas, com propina inclusa e triangulações via atravessadores. O Messias impoluto desponta (as denúncias estão aí!) na pele de verdadeiro chefe da quadrilha do laranjal que cobrava de seus funcionários um, digamos, “pixuleco”, “pedágio” de 90% dos salários a título de gratificação por ter arranjado para eles o emprego na máquina pública. Em outras palavras: fazia um proveitoso escambo, imoral e ilícito, ainda por cima com o dinheiro dos outros. Coisa típica de salafrário. A família praticamente inteira tinha o mesmo hábito. O filho Flávio é investigado, desde sempre, pelos rolos seguidos nesse sentido. Conseguiu abafar os processos com a influência de papai presidente e passou a esbanjar, sobranceiramente, as vantagens do cambalacho comprando uma mansão de milhões, porque impunidade pouca ali é bobagem. A primeira-dama foi poupada, embora depósitos, como o de R$ 89 mil feitos por meio do encalacrado Fabrício Queiroz, direto na sua conta, sigam inexplicáveis. A moral, a Lei e a ordem impõem o impeachment do mandatário, como o tic tac do relógio de uma bomba prestes a explodir. Cada dia com maior estridência. É imperativo. Por todas as ruas, mais de 300 municípios e capitais, setores do Estado, do STF ao Congresso, com CPIs que evidenciam os desvios de conduta, a sanha do impedimento está no ar. Mas existe, pode crer, aquele que atua como uma espécie de Engavetador Geral da República. Justamente o titular da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, aliado de primeira hora que senta sobre uma pilha de mais de 130 pedidos de impeachment e alega, cinicamente, não existir fatos novos para deliberar o inevitável. Sobra desfaçatez ao parlamentar. E a responsabilidade por omissão e acobertamento pode lhe custar caro demais logo adiante. O elementar, na condição que ocupa, seria deliberar tantas e tão fundamentadas demandas. Não o faz por mero compadrio. Nem o “superpedido” de impeachment, recém-concebido, contendo o conjunto das denúncias, o sensibilizou. Há algo de concreto nessa cruzada toda: sem o afastamento do presidente, o Brasil, que já vive uma das fases mais sombrias de sua história, mergulha de vez em longa e extenuante temporada de país sem rumo, na produção de consequências imprevisíveis. A reincidência de faltas e crimes do chefe da Nação está erigindo uma herança de retrocessos inacreditáveis, da qual será cada vez mais difícil se livrar. Não é apenas na saúde que a tragédia de decisões vem fazendo vítimas. Bolsonaro levou aos píncaros do limite do inaceitável diversas práticas danosas no campo da Educação, do Meio Ambiente e dos direitos fundamentais. E segue aprofundando os erros nesse sentido. Na semana passada, apesar da resistência do procurador-geral, Augusto Aras, mais um dos aliados que parece prestar vassalagem ao senhorio, foi finalmente aberto o inquérito para investigar a prevaricação indiscutível do mandatário. Muitos dizem que, por obra e graça, do titular da PGR, as inspeções não darão em nada.

Que também Aras, como Lira, fecha os olhos para todos e gritantes desvios de comportamento do inquilino do Planalto. Mas nesse caso, como no da viabilidade do impeachment por meio do Congresso, vale o que diz o decano da Justiça e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ayres Britto, uma das vozes mais tonitruantes e legítimas a favor da obediência à Constituição. Lembra o jurista: a resposta para tudo está na Carta Magna e, por ela, serão cumpridos os trâmites republicanos que pautam a nossa sociedade. Diz Britto, com propriedade intelectual e vivência de causa, “a democracia nunca vence de nocaute, mas nos rounds, por pontos”. E, nesse sentido, ela vem realmente apresentando pequenos avanços e conquistas na direção certa, expondo abertamente as infrações do mandatário. A Constituição é decerto o mapa do caminho para o alcance da justiça. Os crimes de responsabilidade estão todos claramente tipificados nos seus artigos. Até mesmo quando o presidente, em pessoa, resolve chamar de “ladrões, bandidos” os membros de uma CPI está incorrendo em afronta grave prevista na lei. É um show de desvios de comportamento. Dias atrás, Jair Bolsonaro decidiu aventurar-se no campo das insinuações e ilações sem sentido. Postou em suas redes sociais uma suposição delirante, que atravessa os mais notórios fundamentos da covardia e da chantagem mafiosa. Divagou o “mito” de araque: “Vamos supor uma autoridade filmada numa cena com menores (ou mesmo com pessoas do mesmo sexo ou com traficantes) e esse alguém passe a fazer chantagem ameaçando divulgar esse vídeo. Parece que isso está sendo utilizado no Brasil (importado de Cuba pela esquerda) onde certas autoridades tomam decisões simplesmente absurdas, para atender ao chantageador”. Como é presidente? De onde o senhor tirou essa? Primeiro aos pontos: o tal envolvimento com menores (crime indiscutível) não tem qualquer equivalência com as relações de pessoas do mesmo sexo ou com “traficantes”. Não misture as bolas nos seus delírios. Que insinuação abominável é essa e com que intuito? Pretende, com a já habitual prática de difundir boatos, constranger outras autoridades? Pergunto diretamente ao leitor: é cabível aceitar um comportamento desses do ocupante do cargo maior de uma nação? Onde o Brasil vai parar nas mãos de um inconsequente com tal envergadura para a difamação? Pare um minuto e reflita: não existe nada de bom saindo dali. Nunca. Cada dia uma surpresa inominável, típica de gente sem caráter. Com esse metro de valores e princípios, o Brasil definitivamente afunda. É a decadência moral em evolução de maneira irremediável. Não restam dúvidas, o comando do País está nas mãos, mais uma vez, de um grupo marginal, que flerta com irregularidades todos os dias. É mister que os poderes constituídos afastem de nós esse cálice de veneno. Homens como Lira e Aras, cujo esforço inegável é no sentido de proteger as ações do mandatário, precisam ser premidos a darem explicações por esse comportamento delituoso à Nação. E de sua parte, presidente, muito cuidado mesmo: o senhor pode até conseguir o intento de garantir a cadeira por mais algum tempo. No entanto, não será mesmo capaz de escapar do julgamento final, inclusive em tribunais internacionais que já se mobilizam nesse sentido. A prisão pode e deve ser um destino inevitável. É aguardar para ver.


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