Paulinha Diniz transforma legado do samba em potência feminina

Neta de Monarco, sobrinha de Mauro Diniz e filha Marquinho Diniz, a artista cresceu entre melodias, rodas e composições.

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Paulinha Diniz. Foto: Divulgação.

Herdeira de uma das linhagens mais respeitadas do samba, a cantora Paulinha Diniz carrega no nome uma história que atravessa gerações — mas é na forma como escolhe honrá-la que constrói seu próprio caminho. Neta de Monarco, sobrinha de Mauro Diniz e filha do cantor, compositor e produtor cultural carioca Marquinho Diniz, a artista cresceu entre melodias, rodas e composições que ajudaram a moldar o samba como patrimônio cultural brasileiro. Hoje, ela transforma esse legado em instrumento de afirmação, representatividade e mudança.

“Cada dia que passa sinto mais a responsabilidade. Sou a mais nova a seguir esse legado. É uma honra, mas também um compromisso muito grande. Sou sortuda. É como o raio caindo seis vezes no mesmo lugar”, afirma. Mais do que carregar um sobrenome, Paulinha carrega uma missão: manter viva a tradição sem abrir mão de provocar novas narrativas dentro de um universo que, historicamente, sempre foi dominado por homens.

Integrante da ala de compositores da Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, ela ocupa um espaço que por décadas foi negado — ou dificultado — às mulheres. E faz questão de expor essa realidade sem romantizar. “O samba ainda é machista. As barreiras não são invisíveis, são muito claras. A gente vê na roda, vê na estrutura, vê até nos símbolos. Mulheres ainda usam camisa escrita ‘compositor’. Isso diz muito.”

Mesmo diante desse cenário, Paulinha não recua — ela avança. Sua presença, sua voz e suas composições se tornam ferramentas de resistência dentro do próprio samba. Questionada constantemente sobre sua autoria — muitas vezes reduzida à herança familiar —, ela responde com trabalho, talento e firmeza. “Todos os dias perguntam se eu componho mesmo. Mas eu sigo escrevendo, sigo cantando, sigo ocupando.”

Essa consciência também atravessa sua atuação fora dos palcos. Ao idealizar o projeto “Samba Encontro Delas”, Paulinha propõe mais do que encontros musicais: cria redes de apoio, visibilidade e fortalecimento entre mulheres. Para ela, a transformação do samba passa, necessariamente, pela união feminina. “Ninguém vence sozinha. A gente precisa se juntar, compor juntas, ocupar as rodas. É assim que a gente quebra esse ciclo.”

Comparada à trajetória de Leci Brandão, Paulinha entende que sua caminhada dialoga com outras mulheres que vieram antes — e que abriram caminhos para que ela pudesse estar ali. Ainda assim, sabe que o avanço precisa continuar. “É uma responsabilidade infinita. Não é só sobre mim. É sobre quem veio antes e sobre quem ainda vai chegar.”

Em sua nova fase na Mayer Music, ao lado da empresária Helena Mayer, Paulinha reforça essa construção de protagonismo feminino também nos bastidores. A parceria, liderada por uma mulher negra, amplia o alcance de uma narrativa que vai além da música: é sobre poder, autonomia e representatividade.

Ao mesmo tempo em que honra suas raízes — absorvendo a cadência, a poesia e a identidade de gerações anteriores —, Paulinha Diniz se posiciona como voz ativa de uma nova era. Uma artista que não apenas preserva o samba, mas tensiona suas estruturas, questiona seus padrões e amplia seus horizontes. “Sou jovem, mas represento o velho e o novo. Estou no meio de duas gerações. E isso é lindo”, resume.