O líder religioso Paul Nthenge Mackenzie, responsável por uma seita apocalíptica no Quênia, foi considerado culpado pelo assassinato de 190 crianças e um adulto. A decisão foi anunciada na segunda-feira (19) pela Justiça queniana, após um julgamento que investigou a imposição de jejuns extremos a integrantes do grupo.
Mackenzie, fundador da Good News International Church, também conhecida como Igreja Internacional das Boas Novas, foi condenado juntamente com outros 28 acusados. Segundo a Justiça, os integrantes da organização participaram de um sistema de controle que obrigava seguidores a abandonar a alimentação sob a promessa de alcançar o céu antes do fim do mundo.
O caso ficou conhecido como Massacre de Shakahola, nome da floresta onde centenas de corpos foram encontrados em 2023. Desde então, as autoridades identificaram mais de 400 vítimas relacionadas às atividades da seita.
Quem é Paul Mackenzie?
Antes de se tornar líder religioso, Paul Mackenzie trabalhou como motorista de táxi. Em 2003, fundou a Good News International Church, organização que ganhou seguidores em diferentes regiões do Quênia.
O grupo difundia uma interpretação apocalíptica do cristianismo e pregava a rejeição de instituições consideradas incompatíveis com suas crenças.
Entre os ensinamentos estavam a oposição à educação formal e a desconfiança em relação à medicina. Mackenzie também utilizava transmissões televisivas para divulgar suas mensagens religiosas.
Com o passar dos anos, a organização ampliou sua influência. Posteriormente, o líder religioso passou a incentivar seguidores a se estabelecerem na floresta de Shakahola, no condado de Kilifi, próximo ao litoral queniano.
Na região isolada, famílias passaram a viver em construções simples, distantes de serviços públicos e da fiscalização das autoridades.
Crianças eram impedidas de comer e fugir, aponta Justiça
Durante o julgamento, a acusação apresentou depoimentos e provas sobre o funcionamento da comunidade religiosa.
De acordo com a decisão judicial, os jejuns não eram apenas práticas voluntárias de fé. Havia uma estrutura organizada para obrigar os integrantes a permanecer sem alimentação, inclusive crianças.
Testemunhas relataram que menores de idade eram vigiados e podiam sofrer agressões caso tentassem fugir ou procurar comida.
A investigação também identificou situações em que seguidores foram impedidos de receber tratamento médico.
A juíza Diana Kavedza-Mochache rejeitou o argumento da defesa de que as vítimas haviam escolhido livremente morrer de fome. Para o tribunal, os acusados participaram de um sistema que provocou deliberadamente as mortes.
Descoberta de covas revelou dimensão da tragédia
O caso ganhou repercussão internacional em 2023, quando autoridades começaram a investigar denúncias sobre desaparecimentos e jejuns extremos na comunidade.
As buscas na floresta de Shakahola revelaram numerosas sepulturas clandestinas. Equipes de investigação passaram meses realizando escavações e tentando identificar os corpos.
Exames periciais apontaram que muitas vítimas morreram de desnutrição e fome prolongada. Também foram encontrados indícios de mortes provocadas por asfixia e violência física.
A quantidade de vítimas transformou o episódio em uma das maiores tragédias recentes relacionadas a grupos religiosos extremistas.
Muitas famílias ainda enfrentam dificuldades para identificar parentes desaparecidos, em razão do estado de decomposição dos restos mortais encontrados.
Mackenzie negou ter obrigado seguidores a jejuar
Desde sua prisão, em abril de 2023, Mackenzie negou responsabilidade pelas mortes.
O religioso sustentou que os seguidores praticavam os jejuns por decisão própria e afirmou não ter determinado que pessoas morressem de fome.
A versão, entretanto, foi rejeitada pela Justiça, que considerou comprovada a participação dos acusados na organização e manutenção das práticas responsáveis pelas mortes.
Além do processo envolvendo 191 vítimas, Mackenzie enfrenta outras acusações relacionadas às atividades da seita, incluindo investigações sobre terrorismo e radicalização religiosa.
O caso também provocou debates no Quênia sobre a fiscalização de organizações religiosas e a proteção de pessoas submetidas a situações de exploração e violência.
Quando será anunciada a pena?
A condenação divulgada em 19 de outubro estabelece a responsabilidade criminal de Mackenzie e dos demais acusados pelas mortes analisadas no processo.
A definição das penas está prevista para 6 de novembro de 2026. Antes disso, uma audiência para apresentação de argumentos sobre a punição deverá ocorrer em 30 de outubro.
Para familiares das vítimas, o veredito representa um avanço na busca por justiça, embora o impacto da tragédia permaneça presente nas comunidades afetadas.
As investigações sobre outras mortes relacionadas à seita continuam, já que o número total de corpos encontrados supera o conjunto de 191 vítimas abrangidas por essa condenação.
Da IstoÉ