O pré-carnaval de rua de São Paulo, que ocorreu no final de semana de 7 e 8 de fevereiro, escancarou a contradição entre o sucesso financeiro celebrado pela gestão pública e as dificuldades estruturais enfrentadas por quem coloca os blocos na rua. Sob o comando do prefeito Ricardo Nunes (MDB), a festividade foi alvo de críticas antes mesmo de começar devido a uma redução de R$ 12 milhões no orçamento destinado pela prefeitura à estrutura e à organização. A justificativa oficial é que, pela primeira vez, a iniciativa privada custearia 100% da estrutura.
Os números, no entanto, apontam uma queda nos investimentos totais: em 2025, a gestão municipal investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura, contando com um patrocínio de R$ 27,8 milhões da Ambev. Para 2026, o valor total caiu para R$ 30,2 milhões — uma redução de 29% no montante aplicado na organização dos desfiles dos blocos. Desde 2024, a SPTuris, empresa municipal de turismo e eventos, é responsável por toda a estrutura do carnaval de rua, incluindo banheiros químicos, sinalização e montagem dos circuitos. Na prática, foliões reclamaram da falta de banheiros — 37% menor do que no ano passado —, além de superlotação e tumultos.
Privatização da festa popular
A Ambev venceu a licitação como parceira oficial do Carnaval 2026 com um aporte de R$ 29,2 milhões. O contrato garantiu a exclusividade de vendas para suas marcas nos blocos oficiais e marcou o retorno da Skol como protagonista após um hiato de seis anos. Apesar das queixas, a administração municipal projeta atrair 16 milhões de foliões com 650 blocos, afirmando que o investimento foca em logística, segurança e limpeza para manter o caráter “democrático e acessível” do evento.
Questionado sobre o difícil acesso dos blocos aos patrocínios, Ricardo Nunes afirmou, em coletiva no dia 30 de janeiro, que as agremiações tinham de buscar seu próprio “despertar de empreendedorismo”. Segundo o prefeito, “ficar acomodado, querendo tudo do governo, não é por aí”.
A fala repercutiu negativamente entre os organizadores. À IstoÉ, Zé Cury, coordenador do Fórum de Blocos, explicou que colocar um bloco na rua custa entre R$ 5 mil e R$ 300 mil. Para ele, o incentivo à iniciativa privada é injusto, pois a prefeitura foca em capitalizar os megablocos. “Que interesse tem uma marca se a prefeitura não trabalha em uma campanha dizendo o quanto a festa é plural? Pelo contrário, a administração prega que o carnaval de bairro incomoda e não tem segurança”, declarou.
O custo real da folia
Rodrigo Guima, um dos fundadores do bloco “Tarado Ni Você”, destacou que 600 agremiações disputaram um edital de ‘Fomento Cultural a Blocos de Carnaval de Rua’ de apenas R$ 2,5 milhões — o que resulta em R$ 25 mil para cada um dos 100 blocos selecionados. “Para ter uma ideia, o trio elétrico do nosso bloco, que arrasta 150 mil pessoas, custa R$ 60 mil. Esse repasse não custeia nada”, pontuou. Guima ressaltou ainda que a Ambev pôde revender sete outras cotas de patrocínio para outras marcas, entre elas 99 e Keta. “Muita gente está lucrando muito, e não são as pessoas que fazem a festa acontecer”, desabafou.
Essa falta de apoio público teve resultado prático. O bloco “Desculpa Qualquer Coisa”, por exemplo, anunciou por meio de suas redes sociais que não desfilará este ano por falta de suporte e patrocínio, alegando que sem isso não é possível garantir a segurança e a estrutura necessárias.
Embora a prefeitura destaque o financiamento privado da estrutura, o investimento público ultrapassa os R$ 60 milhões. O montante inclui R$ 15 milhões para serviços médicos e ambulâncias, R$ 9 milhões para promoção turística, R$ 3,9 milhões para agentes de trânsito e R$ 8,7 milhões para guias bilíngues, entre outros custos, como pontuou o vereador Nabil Bonduki (PT).
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Encontro de megablocos e reação política
A tensão atingiu o ápice no domingo, 8, na Rua da Consolação. O encontro do tradicional “Acadêmicos do Baixo Augusta” com a estreia do bloco da Skol, comandado pelo DJ Calvin Harris, resultou em superlotação e tumulto. Grades de segurança foram derrubadas pela multidão e artistas precisaram interromper as apresentações diversas vezes devido ao empurra-empurra. O desfile do Baixo Augusta sofreu um atraso de duas horas.
O episódio gerou forte reação política. O vereador Nabil Bonduki acionou o MP-SP (Ministério Público de São Paulo) para intervir na organização, afirmando que “interesses comerciais não podem ficar acima da segurança”. A vereadora Marina Bragante (Rede) já havia enviado um pedido de informações à prefeitura no final de janeiro, criticando a falta de diálogo entre o Executivo e os blocos tradicionais.
À reportagem, Marina afirmou que, na sua concepção, “o projeto de Carnaval da gestão não está de acordo com o projeto de Carnaval de quem vem tocando a festa há muitos anos”.
No mesmo tom, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) defendeu, em entrevista à reportagem, que a prefeitura deve completar o financiamento para garantir a fiscalização e a segurança adequadas. Já a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) informou pelo X que acionou o MP-SP para investigar o modelo de patrocínio, alertando que a prefeitura está transferindo poder decisório ao setor privado. “O lucro é privatizado enquanto os riscos operacionais ficam com o poder público”, criticou.
Após ser provocado por parlamentares, o tribunal determinou que a gestão de Ricardo Nunes apresente uma cópia do contrato firmado com a Ambev e também pretende investigar a superlotação nos blocos de carnaval na Rua da Consolação.
Resposta da Prefeitura
Após a repercussão negativa, a Prefeitura anunciou novas medidas de segurança: agentes municipais passarão a acompanhar os desfiles de dentro dos trios elétricos para monitorar a dinâmica dos blocos. Em nota à IstoÉ, a administração municipal reiterou que o pré-Carnaval foi um “sucesso” e que o plano de contingência na Consolação foi acionado corretamente pela GCM (Guarda Civil Municipal) e pela PM (Polícia Militar).
A gestão municipal ainda destacou que as cinco pessoas atendidas nos postos médicos já foram liberadas e que o policiamento conta com 6,4 mil guardas civis (20% a mais que em 2025), além de 482 câmeras e 23 drones para monitoramento. Questionada sobre o motivo de a SPTuris — e não a Secretaria de Cultura — gerir o evento, a prefeitura não detalhou a escolha, focando na ausência de incidentes graves como prova do êxito da operação.
Confira a nota na íntegra:
“A Prefeitura de São Paulo informa que o final de semana de pré-Carnaval com 182 blocos desfilando sábado e domingo em toda a cidade foi um sucesso, sem incidente grave envolvendo os foliões. O desfile do DJ Calvin Harris, domingo, aconteceu durante todo o percurso da Rua da Consolação seguido por milhares de pessoas em clima de festa. O plano de contingência foi acionado diante da superlotação, e forças de segurança da GCM e da PM atuaram e controlaram a situação. O bloco seguiu até o centro da cidade e as cinco pessoas que receberam atendimento nos postos da Prefeitura foram levadas para hospitais da região. Todas já foram liberadas. Para garantir que o desempenho dos blocos não afete os desfiles, a administração terá, a partir dos próximos megablocos, agentes da Prefeitura dentro dos trios para evitar eventuais transtornos com a dinâmica do Carnaval de rua.
Além disso, ficaram definidas novas medidas de segurança em alguns dos circuitos. Na região do Parque do Ibirapuera, os foliões contarão com mais duas áreas de saída, uma pelo estacionamento do prédio da Assembleia Legislativa e outra pela Rua Abílio Diniz.
Haverá também reposicionamento dos postos de saúde para outras áreas dentro do próprio circuito, sem qualquer prejuízo aos atendimentos que contam com 960 profissionais dedicados durante todo o Carnaval. A Prefeitura reitera que 6,4 mil GCMs estão destinados ao policiamento no Carnaval, 20% a mais que no ano passado. Os circuitos dos megablocos contam ainda com 482 câmeras do Smart Sampa e 23 drones para monitoramento durante todos os desfiles.”