O papa Leão XIV não deixou uma carta de renúncia antes de ser internado em Roma para a retirada de um tumor maligno no pulmão. A informação foi confirmada nesta sexta-feira (16) pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que descartou a necessidade de medidas extraordinárias para assegurar a continuidade do governo da Igreja Católica.
Questionado sobre a possibilidade de o pontífice ter preparado um documento preventivo, como fizeram alguns de seus antecessores, Parolin afirmou que o estado de saúde de Leão XIV não justificava essa providência.
“Não, ele não fez isso. E nem havia necessidade: a situação não era grave a ponto de exigir providências para uma eventual ausência de governo”, declarou o cardeal.
O pontífice, de 71 anos, está internado no Hospital Agostino Gemelli, na capital italiana, após uma cirurgia realizada na terça-feira (13) para a retirada de parte do pulmão direito, em decorrência de um adenocarcinoma pulmonar.
Segundo os boletins médicos, a recuperação ocorre de maneira satisfatória, sem complicações pós-operatórias divulgadas até o momento.
Vaticano garante continuidade do governo da Igreja
Ao comentar a internação, Parolin reforçou que as atividades administrativas da Santa Sé não foram interrompidas.
“O governo da Igreja continua”, afirmou o secretário de Estado, considerado uma das principais autoridades da estrutura administrativa do Vaticano.
A declaração busca afastar especulações sobre uma eventual dificuldade de governança durante o período de recuperação do pontífice.
Mesmo hospitalizado, Leão XIV já retomou parte de suas atividades. Na quinta-feira (15), o papa recebeu Paolo Rudelli, substituto da Secretaria de Estado, para tratar de assuntos relacionados à administração da Igreja.
A continuidade das atividades demonstra que a internação não resultou em uma interrupção completa das funções do pontífice.
Parolin também esclareceu que declarações anteriores sobre possíveis ajustes no pontificado estavam relacionadas à agenda de viagens, especialmente à visita prevista para novembro à América do Sul, e não a uma reorganização permanente do governo da Igreja.
Papa Francisco preparou carta de renúncia em 2013
A possibilidade de uma renúncia preventiva não é inédita na história recente da Igreja Católica.
Em 2013, no início de seu pontificado, o papa Francisco assinou uma carta de renúncia destinada a produzir efeitos caso uma condição médica o impedisse de exercer suas responsabilidades.
O documento foi entregue ao então secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone.
A iniciativa tinha caráter preventivo e buscava evitar uma situação de incerteza institucional caso o pontífice ficasse permanentemente impossibilitado de governar.
Francisco permaneceu à frente da Igreja até sua morte, em 2025, sem que a medida precisasse ser aplicada.
O Código de Direito Canônico prevê a possibilidade de renúncia do papa, desde que a decisão seja tomada livremente e devidamente manifestada. A questão de uma incapacidade permanente, entretanto, apresenta desafios jurídicos e institucionais específicos.
Pio XII também adotou precaução durante a Segunda Guerra
Outro precedente mencionado por Parolin envolve o papa Pio XII, que liderou a Igreja Católica durante a Segunda Guerra Mundial.
Segundo relatos históricos, o pontífice teria preparado uma renúncia preventiva diante da possibilidade de ser capturado pelas forças nazistas.
A preocupação estava relacionada ao risco de que a prisão do papa comprometesse a autonomia do governo da Igreja.
“Mas ali tinha Hitler, que o ameaçava”, observou Parolin ao diferenciar aquele contexto histórico da atual situação de Leão XIV.
A referência reforça o caráter excepcional das circunstâncias que motivaram medidas semelhantes no passado.
No caso do atual pontífice, o Vaticano afirma que não houve necessidade de preparar qualquer documento dessa natureza.
Leão XIV apresenta melhora constante após cirurgia
O boletim divulgado pela Santa Sé nesta sexta-feira (16) aponta evolução positiva na recuperação do papa.
De acordo com o comunicado, exames de sangue e uma radiografia do tórax confirmaram a melhora de seu estado geral.
Leão XIV continua realizando sessões de fisioterapia respiratória e já consegue executar suas atividades cotidianas com autonomia.
O pontífice foi submetido à retirada do lobo inferior do pulmão direito após a identificação de um adenocarcinoma, tipo de câncer que se desenvolve em células glandulares e pode atingir os pulmões.
A cirurgia foi concluída sem complicações, segundo as informações médicas divulgadas pelo Vaticano.
Apesar da evolução favorável, ainda não foram apresentados publicamente todos os resultados necessários para determinar o estágio da doença e a eventual necessidade de tratamentos complementares.
Essas informações dependem da avaliação dos tecidos retirados e de outros exames médicos.
Papa celebra missa no hospital e pode retomar oração dominical
Nesta sexta-feira, Leão XIV celebrou uma missa em uma sala preparada no décimo andar do Hospital Gemelli.
A celebração contou com a presença de profissionais da equipe médica e de enfermagem, além de integrantes da Gendarmaria do Vaticano.
O episódio marcou uma das primeiras atividades religiosas divulgadas desde a cirurgia.
A Santa Sé também avalia a possibilidade de o pontífice conduzir a tradicional oração do Angelus no domingo (18), a partir do próprio hospital.
A decisão depende das condições de saúde e da evolução da recuperação pós-operatória.
Viagem à América do Sul ainda depende de avaliação médica
Outro ponto acompanhado pelo Vaticano é a viagem apostólica prevista para ocorrer entre 6 e 17 de novembro, com visitas ao Uruguai, à Argentina e ao Peru.
A programação permanece em avaliação, uma vez que o pontífice ainda se recupera da cirurgia.
Parolin indicou que eventuais ajustes poderão ser necessários conforme a orientação da equipe médica.
A realização de viagens internacionais exige deslocamentos prolongados e uma agenda intensa de compromissos religiosos e institucionais.
Por enquanto, o Vaticano mantém o acompanhamento clínico do papa e não anunciou uma decisão definitiva sobre mudanças no roteiro.
Com a recuperação considerada satisfatória e a continuidade das atividades administrativas, a Santa Sé procura transmitir uma mensagem de estabilidade durante o tratamento de Leão XIV.
Da IstoÉ e Ansa