Papa Leão XIV critica corrida armamentista e a eutanásia na França

Em Paris, pontífice também advertiu que sociedades sem diversidade abrem caminho para derivas autoritárias

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Em um discurso incisivo proferido nesta sexta-feira (25), durante o primeiro dia de sua viagem à França, o Papa Leão XIV alertou sobre os perigos de sociedades que não protegem a diversidade, abrindo caminho para derivas autoritárias. O pontífice também criticou a corrida armamentista global, afirmando que “a paz não é um equilíbrio de forças”, e condenou práticas como a eutanásia e o suicídio assistido.

No Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa em Paris, Leão XIV declarou a autoridades políticas e diplomáticas que uma sociedade autenticamente livre “não impõe uniformidade, mas protege a diversidade de consciências, prevenindo derivas autoritárias e promovendo um diálogo que enriquece o tecido social”. Este diálogo, segundo ele, é ainda mais urgente na França atual, onde pessoas de diferentes origens culturais e religiosas são chamadas a viver juntas e contribuir para a construção da sociedade.

A corrida armamentista e a paz

O pontífice dedicou parte central de sua fala ao cenário internacional, instando a todos a “nunca se resignarem à perspectiva de uma guerra, considerando-a inevitável”, mas a promoverem “incansavelmente o diálogo e a diplomacia”. Ele enfatizou a importância de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos, e ressaltou a vocação da França como “artífice da paz e do multilateralismo” diante das “crises multifacetadas que abalam o nosso mundo”.

Além disso, Leão XIV fez um alerta contundente contra a corrida armamentista e a “convicção errada de que a posse de armas nucleares constitui uma garantia de segurança”. “Na verdade, a paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça”, disse ele.

Ciência, tecnologia e dignidade humana

O Papa também abordou a prática da eutanásia e do suicídio assistido, um mês após a França ter promulgado uma lei que garante o direito à assistência para morrer. A medida, alvo de forte crítica da Igreja Católica, permite que pacientes terminais recebam ajuda médica para abreviar a própria vida.

“Atualmente, existe a tentação de esperar da ciência solução e conforto para todos os nossos sofrimentos. O risco é, muitas vezes, o de cair na ilusão. Quando a ciência e a tecnologia não são orientadas pela consciência, podem propor soluções imediatas que parecem responder aos desejos e às dores dos homens e das mulheres, mas que, na realidade, podem desviá-los gravemente do bem a que aspiram profundamente”, alertou o pontífice.

Segundo Leão XIV, os “desvios atuais das sociedades” correm o risco de “deturpar a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada”.

Símbolo de esperança: Notre-Dame

O pontífice também saudou a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, devastada por um incêndio em 2019. “A reabertura da catedral não é apenas o coroamento de uma proeza técnica, mas o símbolo de uma esperança reencontrada, a prova de que aquilo que se pensava estar destruído para sempre pode renascer graças à colaboração de todos. Um resultado tão belo deve inspirar nos agentes da vida política, social e religiosa do país um novo ímpeto para trabalhar incessantemente em espírito de unidade”, afirmou Leão XIV.

O discurso, pronunciado em francês, foi aplaudido de pé por dois minutos. O presidente Emmanuel Macron permaneceu ao lado do Papa e lhe tomou as mãos ao final, agradecendo pelas palavras.

Qual o papel da França na paz mundial?

O chefe de Estado da França, Emmanuel Macron, também discursou na cerimônia e garantiu que ele e o pontífice estão “do lado da paz, do multilateralismo e do respeito ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas”. “A paz não é apenas o silêncio das armas. Ela pressupõe justiça, segurança, respeito aos direitos humanos e soberania das nações”, salientou o presidente.

Macron ainda assegurou que a histórica laicidade da República Francesa não significa a “negação da religião”. “A França considera um dever permitir que cada um expresse o próprio ponto de vista em cada esfera de sua existência, de acreditar ou não acreditar, desde que em respeito às leis. Conduzimos uma batalha essencial para proteger os lugares de culto”, declarou o presidente.

Leão XIV desembarcou em Paris no início da manhã, dando início a uma agenda de quatro dias que também incluirá Lourdes e Metz. Essa é a primeira visita de um papa à França em 18 anos. (Da IstoÉ com ANSA)