Pandemia e tédio

Se você, leitor, está à procura de uma sentença que resuma a situação brasileira, sugiro-lhe esta: de onde menos se espera é que não sai mesmo nada.

Da dupla Bolsonaro e Lula, sim, é cabível esperar mais do mesmo. Mais atraso, mais beligerância verbal, mais de tudo o que, como Nação, precisamos evitar. Há quem diga que Bolsonaro apenas espera o momento certo para desfechar um autogolpe; e há quem acha mais provável que uma entidade apelidada de “partido militar” está à espera que ele tente isso, para desfechar, ela, seu próprio golpe.

Tais hipóteses podem ou não ter fundamento. De concreto, o que sabemos é que a “nova política” (leia-se, o Centrão) assumiu de vez as rédeas do governo, e que sua capacidade não conhece limites. Com ele estendendo seus tentáculos sobre o Legislativo e o Executivo, só ingênuos enxergam alguma saída. E há, finalmente, os que apontam o dedo para o Supremo Tribunal Federal, atribuindo-lhe a responsabilidade pelo bem que Bolsonaro supostamente desejaria fazer. Inegável, entretanto, é que o STF não comanda muitas divisões.

Certo, mesmo, é que a pandemia disseminou o tédio e os dois se associaram para nos deixar à mercê
de tudo o que o Brasil tem de pior. Prostrados, nossa única certeza é que não sabemos como nem quando sairemos dessa. No momento, os que têm como se virar estão se virando, individualmente, como sempre fizeram. Os que não têm, continuam como sempre estiveram, ou seja, à deriva.

No momento, os que têm como se virar estão se virando, individualmente, como sempre fizeram. Os que não têm, continuam como sempre estiveram, ou seja, à deriva

Claro, sempre há uma minoria de indivíduos argutos e destemidos, que não se deixam dominar pelos desígnios da casta sediada em Brasília. Um deles é o jurista Modesto Carvalhosa, que vem propondo a convocação do poder originário, vale dizer, de uma nova Constituinte. Seria uma possibilidade, se ela fosse convocada e eleita segundo regras diferentes das que prevaleceram em 1986. Naquela oportunidade, como todos se lembram, o que se fez foi outorgar poderes constituintes ao Congresso eleito naquele ano. Daí a crença, também generalizada, de que uma Constituinte independente, eleita para o fim específico de elaborar uma nova Constituição, nos mostraria o fim do túnel.

Não quero desmanchar o prazer de ninguém, mas é fácil ver que essa hipótese é também insuficiente. Penso que só veremos um horizonte menos sinistro quando os setores que detêm alguma influência, cada um focalizando sua área de interesse ou especialidade, começarem a trabalhar, sem açodamento, com seriedade e método, nos fundamentos de nossa hipotética futura Constituição.


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