Lula corre por palanques fortes no Sudeste para reverter rejeição em região decisiva

Desaprovação do petista nos maiores colégios eleitorais do país impõe urgência pela consolidação de chapas estaduais fortes

Pedro Ladeira
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República Foto: Pedro Ladeira

A última pesquisa da Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira, 11, indicou que a desaprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na região Sudeste ampliou quatro pontos em apenas um mês. Segundo o levantamento, 58% dos sudestinos reprovam a atual gestão, o que pressiona a formação de palanques estaduais capazes de propulsar a reeleição do petista contra Flávio Bolsonaro (PL).

Informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que o Sudeste é decisivo para conquistar o pleito federal — com mais de 65 milhões de eleitores, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo representam 46% do volume total de votos do Brasil. A urgência de melhorar a capilaridade na região foi reconhecida pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT) ao dizer, em entrevista para a CNN na quinta-feira, 12, que “a eleição se decide no Sudeste”.

Aprovação do governo Lula por região – foto: reprodução/Quaest

Para o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, a conjectura é significativa e coage Lula a formar chapas estaduais competitivas que “criem identidade com o seu governo e sua própria candidatura”. “E os palanques não se resumem aos governadores estaduais, mas também nos senadores e até mesmo aos deputados federais e estaduais”, ressaltou à IstoÉ.

São Paulo no colo de Tarcísio

Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad

Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad

À frente do maior colégio eleitoral do Brasil, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chega em 2026 com bons índices de aprovação e pesquisas de intenção de voto favoráveis a sua reeleição. O último levantamento do Real Time Big Data mostrou que Tarcísio era preferido por 47% do estado, porcentagem que acompanha projeções de outros institutos.

O PT apresenta o ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) como provável adversário do republicano, mas a mira da base governista está na conversão de votos paulistas para a corrida presidencial. Consentino explica que, uma vez sabendo que Tarcísio é o favorito, Lula manda alguém para o “sacrifício”.

“Haddad sabe que dificilmente vai vencer, mas ele vai buscar um número significativo de votos para ajudar nessa transferência [para Lula], e de preferência que não permita que o Tarcísio fature já a eleição em primeiro turno, porque isso tornaria o palanque muito mais fácil para o candidato da oposição”, completa.

O fundador e presidente do Instituto Locomotiva Renato Meirelles afirmou à IstoÉ que o candidato de Lula em São Paulo só conseguirá angariar palanque federal “se parar de disputar nostalgia e começar a disputar rotina. Precisa falar com quem pega trem lotado, teme assalto e fecha o mês apertado. Tarcísio é forte porque encarna ordem.”

Na Senado, a oposição se divide sobre quem concorrerá pela segunda vaga ao lado do ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP). O governo federal já confirmou a ministra do Planejamento Simone Tebet (MDB) como candidata, o que pode diminuir a rejeição petista pois “conversa com os eleitores de centro”, diz Meirelles. O segundo nome da chapa e o selecionado para concorrer como vice-governador ainda não foram sinalizados pela base governista.

No Rio de Janeiro, Paes é Lula

O presidente Lula (PT) ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD)

O presidente Lula (PT) ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD)

No estado carioca, o candidato para governador apoiado por Lula angaria boa vantagens nas pesquisas — prefeito da capital, Eduardo Paes (PSB) é o favorito e deve enfrentar Douglas Ruas (PL) na corrida pelo Palácio Guanabara. Leandro Consentino explica que Paes serve como um cabo eleitoral importante para o atual presidente, mas a falta de popularidade fora da capital será um “desafio para ambos”.

Tanto Paes quanto Lula têm dificuldades para conseguir aumentar a aprovação na Baixada Fluminense, o que levou o pessebista a anunciar Jane Reis – irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias e chefe estadual do MDB, Washington Reis – como vice de sua chapa para ampliar a capilaridade fora da capital. De todo modo, o reduto de Paes representa o colégio eleitoral mais volumoso do estado, com mais de 5 milhões de votantes.

O palanque Paes-Lula buscar “criar uma imagem de que a candidatura de Lula vai além do seu campo a e passa por apoios de centro, como é o perfil do atual prefeito — que inclusive tem flertado com a direita para tentar mostrar que não está associado exclusivamente à esquerda”, explica Consentino.

Já a corrida pelo Senado ainda tem linhas indefinidas, mas projeta o atual governador Cláudio Castro (PL) como nome da oposição em uma das vagas e reserva a segunda para outra legenda aliada. A composição da chapa apoiada por Paes também não foi sinalizada. O PT, porém, já demonstrou intenção de postular a deputada federal Benedita da Silva (PT).

Minas: o termômetro nacional

Rodrigo Pacheco

Rodrigo Pacheco e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – foto: Agência Brasil

As últimas eleições mostraram que a preferência do eleitorado em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, costuma ser replicada nacionalmente — o presidenciável que se elege no estado mineiro frequentemente é consagrado vencedor. Renato Meirelles explica que cenário não é uma coincidência: “Minas tem cara de termômetro federal porque mistura interior, metrópole, indústria, serviço e classe média espremida. É um Brasil em miniatura.”

Apesar de fundamental, o palanque de Lula em MG segue emperrado. O PT despeja suas expectativas no ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD), mas ainda espera que o senador decida para qual partido deve migrar antes de confirmar a candidatura para governador.

Com atual gestor Romeu Zema (Novo) fora para tentar a presidência, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) tem vantagem numérica em pesquisas como nome da oposição. Já o presidente do PSD, Gilberto Kassab, aposta na candidatura do atual vice-governador mineiro, Mateus Simões, com apoio de Zema.

No Senado, a situação também é de congestionamento — Marília Campos (PT) cresceu nas intenções de voto, enquanto o segundo postulante do governo, o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira (PSD) ainda não emplacou. No retrovisor da dupla governista estão o senador Carlos Viana (Podemos) e o secretário de Zema, Marcelo Aro (PP).

“Quando o palanque de Lula emperra nesse estado, o problema não é só mineiro; é sinal de dificuldade para falar com o eleitor da vida prática. Mineiro vota menos em grito e mais em confiança”, sustenta Meirelles.

Espírito Santo tímido e as nuances do Sudeste

No Espírito Santo, o candidato de Lula é o deputado Helder Salomão (PT), que soma pouco mais de 10% das intenções de voto, segundo levantamento de março do Paraná Pesquisas. A preferência capixaba ainda é diluída, mas o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), lidera todas as simulações recentes e concretiza favoritismo.

Um dado a se considerar é que os moradores da região Sudeste lideram o apoio ao fim da escala de trabalho 6×1 no país. Segundo uma pesquisa da Nexus lançada em fevereiro, 67% dos sudestinos são favoráveis à mudança desse modelo — medida que a campanha de Lula busca emplacar como principal trunfo eleitoral.

Consentino, entretanto, pondera que não há como garantir que a pauta seja aprovada a tempo de funcionar como catalizador presidencial. “Toda pauta que tem apoio popular é importante, mas após os festejos juninos e o recesso de julho, começa o segundo semestre já marcado pela eleição. Então é importante articular a pauta, porém avaliando se ela vai ter capacidade de ser aprovada com a celeridade que o governo deseja”, finaliza.

**Estagiária sob supervisão