A megaoperação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV), no fim de outubro, reacendeu o alerta internacional sobre a expansão das facções brasileiras. A ofensiva, que teve repercussão em países vizinhos, expôs o alcance global do CV e do Primeiro Comando da Capital (PCC), hoje com presença confirmada em vários continentes.
O avanço das organizações levou governos da América do Sul a reforçar fronteiras, trocar informações de inteligência e adotar medidas antiterrorismo. Já dentro do Brasil, autoridades intensificam ofensivas contra facções, incluindo a também recente Operação Carbono Oculto, que mirou na infiltração do crime dentro da economia formal do País.
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PCC atua em pelo menos 28 países
O Primeiro Comando da Capital, criado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté (SP), se transformou em uma das maiores organizações criminosas da América Latina. De acordo com relatório do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a facção possui 2.078 integrantes distribuídos em 28 países além do Brasil.
As maiores concentrações estão na América do Sul, onde o Paraguai abriga 699 membros, seguido por Venezuela (656), Bolívia (146) e Uruguai (140). A presença do grupo nesses países está ligada principalmente ao tráfico de cocaína e ao controle de rotas de fronteira.
Na Europa, o PCC mantém atuação relevante em Portugal (87 integrantes), Espanha (26) e França (11). Há registros menores em Holanda, Irlanda, Itália, Bélgica, Inglaterra, Suíça, Alemanha, Sérvia e Turquia. Fora da Europa, a facção também foi identificada em Estados Unidos (15), México (3), Japão (3) e Líbano (1).
Segundo o MP-SP, a internacionalização do PCC não se limita ao narcotráfico, envolvendo também lavagem de dinheiro, logística criminosa e cooperação com grupos locais. O relatório tem servido de base para tratativas de cooperação com embaixadas e consulados estrangeiros.
Comando Vermelho expande alianças e territórios
O Comando Vermelho (CV), fundado nos anos 1970 nos presídios do Rio de Janeiro, consolidou sua presença fora do Brasil após romper com o PCC em 2016. Desde então, o grupo passou a atuar com cartéis da Colômbia e do Peru, responsáveis pelo fornecimento e escoamento de cocaína para os Estados Unidos e países da Europa. Paraguai, Bolívia, Uruguai, Venezuela e até Guiana Francesa já apareceram como rotas de atuação do Comando Vermelho.
Além do tráfico internacional, o CV tem sido associado à mineração ilegal de ouro e à exploração de rotas de contrabando de migrantes na região amazônica. Relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) indicam que a facção ampliou sua influência na chamada “Amazônia Compartilhada”, área entre Brasil e Colômbia, aproveitando a ausência do Estado para expandir suas atividades.
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Reação internacional e alerta de segurança
A repercussão da megaoperação no Rio levou países vizinhos a reagirem. Na Argentina, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, decretou alerta máximo nas fronteiras leste e noroeste, mobilizando até 200 militares especializados. O país incluiu PCC e CV no Registro de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo (Repet).
O Paraguai seguiu a mesma linha, com o presidente Santiago Peña anunciando que assinará um decreto classificando as duas facções como organizações terroristas, reforçando patrulhas e vigilância na fronteira com o Brasil.
Na Bolívia, o presidente eleito Rodrigo Paz pediu aumento da segurança nas fronteiras com Acre, Rondônia e Mato Grosso, e o Uruguai intensificou a cooperação internacional para evitar a entrada de integrantes das facções.