O que Paes e o PL buscam com as chapas formadas no RJ

Políticos de Belford Roxo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São Gonçalo serão candidatos para buscar votos fora da capital

Luma Venâncio
Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL) Foto: Luma Venâncio

Os grupos políticos do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), definiram suas chapas para a eleição fluminense com base em acordos partidários, mas também em um cálculo de distribuição regional.

Enquanto a direita consolidou o espaço do governador Cláudio Castro (PL) e busca ampliar o eleitorado em Belford Roxo, Nova Iguaçu e São Gonçalo a centro-esquerda optou por uma composição que acena ao segmento evangélico e mira em Duque de Caxias, segundo maior colégio eleitoral do estado.

Neste texto, a IstoÉ explica o cálculo regional do movimento.

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Na direita, a ampliação dos redutos

Na terça-feira, 24, uma reunião entre Flávio e Castro definiu o secretário estadual das Cidades, Douglas Ruas (PL), como candidato do grupo ao Palácio Guanabara. Nome de preferência do filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL), Ruas não era cotado à sucessão do atual governador até meados de 2025.

Reeleito em 2022 após assumir a cadeira com o impeachment do ex-bolsonarista Wilson Witzel, Castro começou a gestão com o vice-governador Thiago Pampolha (MDB) como sucessor natural, mas teve atritos com o emedebista que foram superados por sua indicação a uma vaga de conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado).

Na equação, o ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) Rodrigo Bacellar (União Brasil) assumiria o governo com a renúncia de Castro, em abril, para ter oito meses na cadeira e concorrer à reeleição no comando da “máquina” estadual.

Tudo mudou em dezembro, quando Bacellar foi preso por suspeita de vazar informações sigilosas de uma operação policial contra o ex-deputado TH Joias. O parlamentar teve a prisão revogada pelos colegas, mas deixou a presidência da Alerj e perdeu a condição política de ser candidato.

Neste cenário, o PL chegou a cogitar o secretário estadual de Polícia Civil, Felipe Curi, mas formou consenso em torno de Ruas. Além da preferência de Flávio, o escolhido é filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), além de ter sido secretário e manter base eleitoral na cidade, que tem 665 mil eleitores, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A indefinição, agora, é se Ruas disputará ou não a eleição interna pelo “mandato-tampão” de oito meses a partir da renúncia de Castro — visto que o vice está no TCE. O mais cotado é Nicola Miccione (PL), secretário estadual da Casa Civil.

Douglas Ruas Flávio Bolsonaro

Douglas Ruas (PL), secretário estadual das Cidades, será candidato ao governo do Rio de Janeiro

Definida a escolha para o Executivo, o grupo buscou ampliar a chapa para garantir a Flávio um palanque forte para a corrida presidencial em seu berço político. Para uma das vagas ao Senado, Castro consolidou o favoritismo após a megaoperação policial que deixou 121 mortos na capital fluminense, quando atingiu seu maior patamar de aprovação popular desde o início do mandato.

Como ficou demonstrado nas anotações feitas em reunião com a cúpula do PL, no entanto, o objetivo do grupo é ampliar alianças partidárias, o que restringiu o espaço para que a sigla ocupasse as duas vagas ao Senado na chapa e tirou da disputa o senador Carlos Portinho, que pretendia buscar um novo mandato.

Unindo as contas do movimento partidário e do peso regional, o escolhido foi Márcio Canella (União Brasil), prefeito de Belford Roxo. Em 2024, Canella rompeu com um ciclo de poder do grupo político de Waguinho (Republicanos) no município da Baixada Fluminense e, desde então, obtém altos índices de aprovação popular.

Belford Roxo é o oitavo maior colégio eleitoral do estado — com mais de 347 mil eleitores — e recebeu comícios do presidente Lula (PT) nas eleições de 2022, quando o então prefeito Waguinho pediu votos para o petista.

No caso de Rogério Lisboa (PP), além de atrair um partido que esteve na mira da articulação de Eduardo Paes, o candidato a vice-governador ainda traz consigo o fator de ter sido prefeito de Nova Iguaçu, quarto maior colégio eleitoral do estado, de 2017 a 2024.

A cidade tem cerca de 617 mil eleitores, segundo o TSE, e reduziu os votos dados a Bolsonaro na eleição de 2022, mas Flávio conta com o espaço dado na chapa ao ex-prefeito, que fez Dudu Reina (PP) como sucessor e se mantém politicamente influente na região, para recuperar o espaço e ampliar a vantagem local da direita.

Para Paes, o desafio de ir além da capital

Enquanto a ala bolsonarista decidia os incumbentes de 2026, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, consolidou-se como nome mais enfático da disputa para o governo do estado. O último levantamento do Paraná Pesquisas mostrou que quase 70% da população carioca aprovava a atual gestão, mas o pessedista ainda pena para conquistar credibilidade entre os fluminenses fora da capital. De todo modo, o reduto de Paes representa o colégio eleitoral mais volumoso do estado, com mais de 5 milhões de votantes.

A estratégia de elasticidade territorial foi selada na última quinta-feira, 19, com o anúncio de Jane Reis – irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias e chefe estadual do MDB, Washington Reis – como vice na candidatura de Paes.

Washington tinha intenção de disputar o comando do palácio Guanabara, mas atualmente está inelegível e tem atuado apenas como cabo eleitoral, visto que a família Reis tem longo histórico com a região de Duque de Caxias, 2º maior colégio do RJ, com 674 mil votantes. O atual prefeito da cidade carrega o mesmo sobrenome do clã – Netinho Reis (MDB).

A união, no entanto, causou repercussão devido às divergências essenciais entre os dois integrantes da chapa: enquanto o atual prefeito é o “candidato do Lula”, a família Reis é fiel ao legado de Jair Bolsonaro. O chefe do MDB reverberou o acordo sem nenhum estranhamento e afirmou, em entrevista ao SBT na segunda-feira, 23, que o partido é “democrático” e que trabalha com a “independência de cada estado”.

Washington Reis garantiu que apoiará Flávio Bolsonaro como presidente, mas que não poderia deixar seu capital político disponível para “testar candidatos” no âmbito estadual ou apostar em “aventuras”. O apoio a Eduardo Paes coincide com a vantagem nas pesquisas de intenção de voto, que apontam cenário favorável para o atual prefeito.

O prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD) e Jane Reis (MDB)

Além de se aproveitar da credibilidade da família Reis, que atrai o maior colégio eleitoral fora da capital, Paes consegue atingir públicos mais amplos e mitigar uma associação exclusiva à imagem do presidente Lula (PT). A vice Jane Reis, casada com um pastor da Assembleia de Deus, cumpre uma função de “ponte” com o eleitorado conservador, tendo forte atuação em comunidades religiosas da Baixada.

Na atual conjuntura, a candidatura do PL arrasta União Brasil/PP, Mobiliza, Avante, Agir e PRTB. Do outro lado, Eduardo Paes fica com PSD, Cidadania, MDB, Podemos, PSB, PDT e PT/PCdoB/PV. Os demais partidos, como Novo, Missão e Psol, apresentaram candidaturas independentes, mas devem sinalizar apoio em eventual segundo turno.

A composição da chapa de Paes ao Senado ainda não foi sinalizada. Analistas apontam a tendência do prefeito em priorizar o próprio grupo político, o que poderia resultar em indicações dentro do partido de Gilberto Kassab (PSD). O PT, porém, já demonstrou intenção de postular a deputada federal Benedita da Silva (PT) em uma das vagas.