Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Paciência tem limite

Há quase uma década, participei de um famoso “debate” com Ciro Gomes, no qual ele, de forma deselegante, interrompia constantemente meu raciocínio e, lançando mão de sofismas, afirmava ser difícil encontrar “um bilhão” para cortar no gigantesco gasto público. E pensar que esse mesmo Ciro quer ser presidente em 2018…

Mas não era disso que ia falar. Nesse mesmo programa, o empresário Henry Maksoud apresentou uma proposta radical de reforma, que Ciro disse ser inviável, alegando que atravancaria o País. Lembro bem da resposta: Então vamos parar tudo, cruzar os braços e repensar a coisa toda, pois assim não dá mais.

Como um liberal com viés conservador, não sou chegado a utopias e revoluções. Acompanho Burke em sua preocupação na época da Revolução Francesa: precisava destruir tudo que existia antes? Não havia nada no Antigo Regime a ser preservado? E o tempo mostrou como os jacobinos, com sua sanha revolucionária, colocaram tudo a perder, criando apenas um regime de Terror. É preciso preservar as instituições, buscar sua evolução. Mas confesso que fica cada vez mais complicado defender essa postura moderada em meio a tanto abuso. O corporativismo da classe política é asqueroso. Supostos liberais se unem a petistas de olho na impunidade, para fugir da “Lista de Janot” e evitar reformas necessárias que cortem privilégios no governo.

Em resposta aos anseios de uma população indignada, aparecem com uma “reforma política” que, no fundo, é puro golpe, pois fala em “financiamento público de campanha” e “lista fechada”. São medidas que ninguém no povo pediu, e que afastam ainda mais o poder do cidadão, concentrando-o nos caciques dos grandes partidos. Temer, que só tem como trunfo as reformas para salvar parcialmente a economia, já demonstra fraqueza ao decidir tirar os servidores de estados e municípios das mudanças na Previdência. Aquilo que já estava aquém do necessário ficou ainda pior. Se for só essa bala de festim, por que apoiar um governo tão enfraquecido e que foi cúmplice da destruição perpetrada pelo PT?

Muitos falam do risco de um “aventureiro”, mas e o risco de nada efetivamente mudar após tanta luta, com milhões indo às ruas pelo impeachment de Dilma? Remamos tanto contra a maré vermelha para morrer na praia? Para ver “mudanças” cosméticas e uma disputa entre Ciro e algum cacique tucano em 2018?

Os políticos estão brincando com fogo. Se acham que podem apenas simular mudanças para deixar tudo como está, vão quebrar a cara. O Brasil mudou. A direita acordou. E se o establishment só pensar em salvar a própria pele, pode apostar que ela será escalpelada por algum “outsider” qualquer. Ninguém aguenta mais. Paciência tem limite, e a do brasileiro já ultrapassou esse limite.

Se o establishment só pensar em salvar a própria pele, pode apostar que ela será escalpelada por algum “outsider” 


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