Ou segue a ideologia ou está fora

Em meio ao clima de caças às bruxas, diplomatas que não rezam na cartilha ideológica do governo preparam-se para deixar o Itamaraty. Competentes ou não, já receberam o recado: sairão por bem ou por mal

Crédito:  Pedro Ladeira/Folhapress

“DEUS VULT” Sob o comando de Ernesto Araújo, o Itamaraty virou palco de perseguições contra quem não concorda com a catilinária obscurantista do chanceler (Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress)

ELE CAIU ATIRANDO O experiente diplomata Mario Vilalva deixou a presidência da Apex, na última semana, sem poupar o chanceler Ernesto Araújo de pesadas críticas

A demissão de dois quadros de grande relevância na diplomacia brasileira retrata o tóxico ambiente que se instalou no Itamaraty desde a posse do novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Na última semana, o diplomata Mario Vilalva, assim como já acontecera com seu antecessor, foi defenestrado da presidência da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). E o embaixador Sérgio Amaral deixou a embaixada dos Estados Unidos, cumprindo o que já avisara o presidente Jair Bolsonaro antes da viagem aos Estados Unidos. É provável que, a partir dessas saídas compulsórias, haja uma debandada voluntária no corpo diplomático brasileiro nas próximas semanas. Não exatamente em solidariedade a eles. Mas pela condução extremamente ideológica de Ernesto Araújo no ministério, que tem tornado o clima na diplomacia brasileira insuportável. Há, segundo diplomatas ouvidos por ISTOÉ, uma verdadeira perseguição macarthista no ministério – uma referência à caçada contra pretensos comunistas que conduzia na década de 1950 nos Estados o senador Joseph Mcarthy. Uma perseguição radical e injusta que levou à expulsão do país mesmo de ícones populares, como o ator Charles Chaplin. Neste caso, quem não reza na cartilha ideológica do governo – que condena delírios como o “marxismo cultural” e luta contra o que chamam de “globalismo” – é posto para fora.

“Nunca pensei que um ministro (Ernesto Araújo) faria isso. Legislando sem transparência, modificando o estatuto da Apex e tentando me induzir ao erro”

“Comecei a receber pressão do próprio Ernesto Araújo e de Otávio Brandelli (secretário-geral do Itamaraty). Os dois me disseram para deixar os diretores fazerem o que quisessem. Desse tipo de esquema, eu não participo”

“À medida que eu neguei, tentaram me constranger”

ISTOÉ apurou que muitos diplomatas que consideram não se encaixar exatamente no perfil político desejado por Araújo estão tentando transferência para cargos em outros Poderes, especialmente o Legislativo. O maior incômodo são com as decisões administrativas de Ernesto. Uma delas seria a nova política de remoção, cujo critério para escolha das melhores representações nacionais mundo afora agora é a afinidade do interessado com a filosofia do novo governo, algo que nunca havia sido feito antes. “Estou vendo gente que ama o que faz querendo sair porque não aguenta esse ministro”, disse um diplomata, sob a condição de não ser identificado para não sofrer perseguições. De acordo com ele, há um clima de “caça às bruxas”.
O medo tem fundamento. Os dois recém-demitidos foram criticados por fazer “corpo mole” na defesa da política externa do novo governo. Tanto Vilalva como Sérgio Amaral, ex-porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso, são embaixadores dotados de grande experiência. Serviram a vários governos. Vilalva, por exemplo, afirma que sua saída está diretamente ligada a pressões que sofria para dar liberdade plena a dois subordinados indicados por gente de fora do quadro da agência. A ordem de Ernesto Araújo com relação a eles, segundo Vilalva, é que estariam autorizados a fazer o que bem entendessem na agência. A primeira é Letícia Catelani, pivô de outra demissão na Apex em três meses: a de Alecxandro Carneiro. Ela é diretora indicada por Ernesto, a pedido de Eduardo Bolsonaro. O outro é Márcio Coimbra.

MAIS UM BODE EXPIATÓRIO O embaixador Sérgio Amaral deixou posto nos EUA acusado de não blindar Jair Bolsonaro de ataques fora do País (Crédito:Marlene Bergamo/Folhapress)
Marlene Bergamo/Folhapress

Vilalva recusava-se a dar aos dois a autonomia exigida por Araújo. A situação tornou-se irreversível quando foram instaladas portas eletrônicas com senha na entrada da ala de acesso às salas de Catalani e Coimbra. Sem o código de acesso, o presidente da Apex era simplesmente barrado dos gabinetes dos subordinados – algo impensável para qualquer repartição de esquina, quiçá num importante órgão de governo. Ao sair, Vilalva não poupou crítica ao ministro, a quem chamou de desleal. “Desse tipo de esquema, eu não participo”, afirmou. O embaixador Sergio Amaral deixou a chancelaria brasileira em Washington, nos Estados Unidos, um dia depois da queda de Vilalva. A interlocutores, Bolsonaro se queixou que a imagem dele não estava boa lá fora, pois era apresentado como ditador, racista e homofóbico “sem a devida defesa dos diplomatas brasileiros”, como se Amaral fosse o culpado pelas diatribes do mandatário do País.

Os dois episódios marcam o estilo de gestão de Ernesto Araújo no Itamaraty. Diplomatas que atuam em países fora do eixo principal de interesse dos Estados Unidos dizem ter sido orientados a não celebrar negócios e adiar compromissos até segunda ordem. Outros casos que provocam incômodo são as relações com a China e os países árabes. ISTOÉ apurou que, por conta dos riscos econômicos, já há setores dos Ministérios da Economia e da Agricultura trabalhando nos bastidores para que Ernesto Araújo deixe o governo. Por ora, ele segue prestigiadíssimo, sobretudo por professar o mesmo rosário do presidente da República. Enquanto isso, os tempos no Itamaraty seguem nada diplomáticos.