Cultura

Otávio Júnior lança dois livros infantis sobre a vida de crianças na favela

Há muito tempo o carioca Otávio Júnior queria escrever um livro sobre o que ele e milhares de crianças veem de suas janelas – um pouco inspirado, também, pelo seu filho que, pequeno, olhava a Igreja da Penha ali mais adiante e imaginava que ela era um castelo encantado.

Otávio é morador do Complexo da Penha, e o que ele via quando menino é basicamente o que João Victor, hoje com 11 anos, vê: crianças brincando, os amigos passando, os pais chegando do trabalho, os irmãos voltando da escola – e coisas ruins.

Autor de O Chefão Lá do Morro e O Garoto da Camisa Vermelha, publicados pela Autêntica com ilustrações de Angelo Abu, Otávio Júnior realiza mais esse sonho agora com Da Minha Janela, que ele lança pela Companhia das Letrinhas e que, antes de chegar às livrarias, foi enviado para 30 mil assinantes do Leiturinha.

Para ilustrar a obra, convidou a argentina Vanina Starkoff, que vive no Brasil, com a condição de que ela fosse conhecer as comunidades cariocas. Juntos, visitaram cerca de 10. “Em Manguinhos, aconteceu uma situação que é recorrente. Houve um confronto entre policiais e traficantes e ficamos na rua, no meio do fogo cruzado. Conseguimos ir para a biblioteca e havia crianças abrigadas lá”, conta.

Vanina viu os meninos e as meninas num momento de tensão e conseguiu, depois desse passeio por diversas regiões, captar tudo o que envolve a vida na favela: a diversidade e os momentos de alegria e de tristeza. O resultado é um livro supercolorido, com passagens um pouco sutis, e mais escuras, por questões que afligem os moradores, como as fortes chuvas e os confrontos – e as balas perdidas e a impossibilidade de ir para a escola nesses dias.

“O Rio é uma cidade partida por causa das facções e das milícias, e a ideia desse projeto foi juntar todas as favelas em uma só. No livro, faço uma brincadeira com o que a criança de cada favela vê de sua janela; por exemplo, o mar, no caso da Mangueira, ou o Maracanã, do Morro dos Macacos”, conta o autor.

Ainda é uma infância livre, explica Otávio, mas as crianças têm seus códigos. “E elas entendem os sinais do lugar, sabem o significado dos fogos e percebem pelo olhar dos moradores quando vai ter uma operação.”

Ainda assim, tem que ter espaço para o sonho, para brincar e se divertir. “E elas têm que ir para a escola. Eu fico muito triste quando vejo que as crianças não tiveram aula por causa dos conflitos e quis tocar nesse assunto no livro para chamar a atenção para essa questão inaceitável.”

Otávio Júnior nunca pensou em sair da favela e encontrou na literatura – como escritor ou mediador de leitura – a sua missão de vida. “Creio que posso ajudar um pouco na transformação do bairro e das favelas. A literatura mudou minha vida completamente no que diz respeito aos meus sonhos e profissão. Quero ser um agente transformador e tem que estar lá sentindo as dores que meus familiares e amigos sentem”, diz o autor que gostaria de escrever um livros sobre seus pais, e sobre profissões invisíveis na literatura – ele é pedreiro e ela, dona de casa e faxineira.

Ele tem ideias para muitos outros livros e diz que quer se concentrar em sua carreira de escritor agora. Mas não consegue deixar de lado sua origem como formador de leitores e tem se dedicado, nos últimos anos, a estudar jogos e a criar jogos literários. Acredita que com o que já recebeu pelos dois livros que lança agora por editoras grandes – o outro é Grande Circo Favela – vai conseguir desenvolver pelo menos um. “E vou sair com a maleta vendendo”, diz, animado o autor que será o destaque da Estrela na Bienal do Livro do Rio, que começa na sexta, 30. O estande será ambientado com a tenda de um circo na favela e quem passar por lá no sábado, 31, vai ver a bateria mirim do Salgueiro.

Isso porque o samba-enredo da escola para 2020 e o livro de Otávio retratam o mesmo personagem: Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. Ele está lá em O Grande Circo Favela, mas a obra traz a primeira protagonista menina de Otávio, uma garota de 10 anos que sonha em montar um circo na favela. “Tem toda uma jornada de sonho e empreendedorismo”, conta o autor.

DA MINHA JANELA

Autor: Otávio Júnior

Ilustradora: Vanina Starkoff Editora:

Companhia das Letrinhas (48 págs.; R$ 34,90)

GRANDE CIRCO FAVELA

Autor: Otávio Júnior

Ilustradora: Roberta Nunes

Editora: Estrela Cultural (32 págs.;R$ 39,90)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.