Cultura

Oscar fica cada vez mais politizado e menos glamouroso

Oscar fica cada vez mais politizado e menos glamouroso

A atriz americana Frances McDormand durante seu discurso após receber o Oscar de melhor atriz por "Três anúncios para um crime" na 90ª cerimônia do prêmio, em Hollywood, em 4 de março de 2018 - AFP

O movimento #MeToo ganhou protagonismo na primeira cerimônia do Oscar desde que explodiu o escândalo envolvendo o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, tirando da festa grande parte do glamour habitual.

A seguir, alguns dos momentos mais importantes da 90ª edição dos prêmios da Academia, realizada no teatro Dolby de Hollywood.

– Oscar para mulheres –

Frances McDormand fez um discurso emocionante para o movimento #MeToo – que busca pôr fim ao assédio sexual e à desigualdade de gênero em Hollywood – ao receber o Oscar de melhor atriz.

No final do discurso, colocou sua estatueta no chão e pediu para as mulheres indicadas em todas as categorias ficarem de pé.

“Olhem em volta, damas e cavalheiros, porque todas nós temos histórias para contar, projetos para ser financiados”, disse McDormand entre aplausos.

“Não falem conosco nas festas esta noite. Convidem-nos aos seus escritórios, em alguns dias, ou podem vir aos nossos, o que for melhor para vocês, e lhes falaremos delas”, disse.

“Tenho duas palavras para vocês esta noite, damas e cavalheiros: ‘inclusion rider'”, concluiu, em referência a uma cláusula nos contratos que garante a diversidade na equipe de um filme.

– ‘Apagar a linha na areia’ –

O diretor mexicano Guillermo del Toro, cujo filme “A forma da água” ganhou o Oscar de melhor filme, fez referência à sua própria experiência e, de forma sutil, às políticas migratórias de Donald Trump.

“Sou um imigrante”, disse o mexicano, que mora em Los Angeles, quando recebeu o prêmio de melhor diretor, acrescentando que o negócio do cinema é “viver em um país de todos os nossos”.

“A melhor coisa”, continuou, “que a nossa indústria faz é apagar a linha na areia”.

“Devemos continuar fazendo isso, quando o mundo nos pede para ir mais fundo”.

– Sem pênis –

O apresentador do Oscar, Jimmy Kimmel comemorou, em seu monólogo no início da cerimônia, a queda do produtor de Hollywood Harvey Weinstein, acusado por uma centena de mulheres de assédio e abuso.

“O mundo está nos olhando. Precisamos dar um exemplo”, disse Kimmel.

Mas o comediante também recorreu ao humor e disse que a estatueta do Oscar é uma figura adequada para a época.

“Olhem para ele. Mantém suas mãos onde você pode vê-las. Nunca diz uma palavra grosseira. E o mais importante, não tem pênis”.

Em referência a “A forma da água”, brincou: “Sempre lembraremos deste ano como o ano em que os homem erraram tanto que as mulheres começaram a sair com peixes”.

– Apelo à mudança –

Esperando enviar a mensagem de que Hollywood está mudando, o Oscar exibiu um clipe em que várias estrelas chamaram a indústria a ser mais representativa.

Salma Hayek, Ashley Judd e Annabella Sciorra, que dizem ter sido vítimas de Weinstein, apresentaram o vídeo e declararam que as coisas mudaram.

“Todo mundo está recebendo uma voz para expressar algo que vinha acontecendo desde sempre, não só em Hollywood, mas em cada segmento da vida”, disse a atriz Mira Sorvino.

Greta Gerwig, a única diretora indicada, por “Lady Bird”, fez um apelo à audiência para fazer mais cinema: “Vão fazer seus filmes. Nós precisamos do seu filme. Eu preciso do seu filme”.

Kumail Nanjiani, o comediante de origem paquistanesa indicado pelo roteiro do autobiográfico “Doentes de Amor”, disse: “Alguns dos meus filmes favoritos foram feitos por homens brancos heterossexuais sobre homens brancos heterossexuais”.

“Agora vocês podem ver filmes comigo e se identificar. Não é tão difícil, eu fiz isso a minha vida inteira”.

– Oscar para Kobe –

Kobe Bryant, lenda do basquete, agora também é uma estrela de Hollywood com um Oscar.

Quase dois anos depois de deixar a NBA, Bryant, de 39 anos, ganhou no domingo a estatueta de melhor curta de animação por “Dear Basketball”, em colaboração com o artista Glen Keane e o lendário compositor John Williams.

Mas a homenagem recebida foi de encontro ao tom da noite. Ele foi preso em 2003 pelo suposto estupro de uma funcionária de hotel de 19 anos no Colorado.

Bryant, que estava no auge de sua carreira, admitiu ter tido uma relação sexual, mas insistiu em que tinha sido consensual.

O caso criminal foi descartado quando a acusadora se recusou a testemunhar, mas Bryant enfrentou uma ação civil. Como parte de um acordo extrajudicial, ele se desculpou publicamente, mas não admitiu a culpa.

– ‘Um presidente que se move com ódio’ –

O foco no movimento #MeToo teve uma consequência não intencional: diminuiu a atenção ao presidente Donald Trump, duramente criticado pelo mundo do entretenimento desde sua chegada ao poder.

O rapper Common, que interpretou junto a Andra Day a canção de “Marshall”, um filme biográfico sobre Thurgood Marshall – a primeira juíza afro-americana na Suprema Corte -, criticou o mandatário.

“Um presidente que se move com ódio/ Ele não controla nosso destino / Porque Deus é grandioso”, cantou Common.

Também citou os quase 700.000 “dreamers”, jovens imigrantes em situação irregular que podem ser deportados dos Estados Unidos, depois de que Trump revogou um programa que os protegia.

“Isso tudo não significa nada se você não defende algo / E eu te defendo / Defendemos os sonhadores / Defendemos os imigrantes”, acrescentou.

A atriz Lupita Nyongo, nascida no México e criada no Quênia, e o comediante Kumail Nanjiani chamaram a si próprios de “dreamers”.

“Crescemos sonhando que um dia trabalharíamos em filmes. Os sonhos são a fundação de Hollywood e os sonhos são a pedra angular dos Estados Unidos”, disseram.