Artigo

Os três trapalhões

Por que esses personagens fazem o mundo rir do Brasil e massacram ainda mais a nossa autoestima tão em baixa

Os três trapalhões

Ninguém pode dizer que Neymar não deitou e rolou na Copa do Mundo diante das seleções adversárias — tá bom, não deitou, caiu. Mas que rolou, rolou! Fez do gramado, tatame.

Neymar é apenas um dos personagens de nossa história, há mais dois, um político, outro desembargador. Eles, sim, deitaram e rolaram mesmo, ou, melhor dizendo, fizeram rolo. Não com a bola, mas com a caneta, nossa velha roleira caneta republicana, e não a caneta que na gíria esportiva significa passar a bola entre as pernas de outro jogador: é a caneta da canetada!

Então, como se disse, são três os personagens; e chega de embromação, no País e nesse texto, enrolar é com eles, eu não sou disso não. E o leitor muito menos ainda. Vamos lá?

No campo das trapalhadas e do deboche do País, eles, os personagens, ganharam de três a zero. Quem marcou os gols? Cada um com seu drible próprio, foram marcando.

1) Neymar, jogador de futebol, fez um golaço de encenação: à mais leve falta sofrida, coisa normal nesse esporte que guarda excessivo contato físico, ele caía no tatame, quero dizer, gramado, e rolava como se tivesse sofrido uma fratura exposta.

2) Eunício Oliveira, presidente do Senado, marcou golaço também, com a ajuda dos parlamentares de sua Casa e da Câmara: gol de placa e de atropelo a princípios básicos da República, fez aprovar tantas pautas que, num Brasil falido, terão elas um custo de mais de R$ 100 bilhões nas contas públicas dos próximos anos.

3) Finalmente, gol de letra, marcou o desembargador Rogério Favreto, que refez os trâmites processuais sob a ótica de um plantonista de fim de semana disposto a tentar tirar da cadeira aquele que foi seu companheiro de PT por quase duas décadas, o ex-presidente Lula. Eis os três gols dos três a zero. O zero, é claro, ficou com o povo brasileiro para não quebrar a tradição.
Voltaremos, mais à frente, a lances desses artilheiros. O que se propõe, nesse momento, é um olhar, uma percepção: já perceberam que Neymar, Eunício e Favreto têm um ar até ingênuo, meio infantil, quiçá puro, a lembrar os excelentes atores que William Shakespeare colocava em suas peças para representar aqueles que exerciam a função de arrancar risadas dos reis? Claro que de bobo nossos personagens não têm nada, é só um certo ar do olhar: às vezes longe, às vezes hermético, às vezes zombeteiro. Pois bem, também eles fazem os brasileiros rir, riso de ansiendade, riso que parece que há uma borboleta se debatendo na barriga, riso de medo, riso de nervoso. E conseguem, igualmente, tirar riso do mundo, mas aí é riso de galhofa, é riso de escárnio.

Sem dúvida, o comportamento de Neymar, de Eunício e de Fabreto machuca ainda mais a imagem do Brasil e do brasileiro, em nosso próprio chão e no exterior. Esvazia ainda mais a nossa já murcha autoestima, tornando-nos motivo de pilhéria. Sei lá, ainda que os bobos para valer sejamos nós, vale um olhar clínico: as atitudes de Neymar, do presidente do senado e do desembargador deixam sequelas. Qual investidor estrangeiro vai pôr dinheiro aqui com o rombo dos R$ 100 bilhões? Qual cidadão pátrio ou de fora vai acreditar na nossa Justiça, depois que Favreto tentou soltar Lula, alegando que a sua pré-candidatura era um fato novo no processo, diante do fato real de que Lula já se dizia pré-candidato desde quando foi forçado a ver a Copa na tevê da Polícia Federal? Qual jogador de pindorama, daqui para frente, não levará a fama de catimbeiro devido às espalhafatosas quedas de Neymar?

Se o mundo é rei, com Neymar o rei gargalha. E o Brasil também. Em festas joaninas, a criançada está se jogando no chão e… rolando. No México, no intervalo de uma partida, torcedores rolaram pelo gramado sob aplausos e gargalhadas. Em Portugal, o serviço público de emergência estampou uma imagem de Neymar caído, cara de dor, e a mesagem: “75,8% das chamadas ao 112 (número do serviço) não são urgências autênticas”. Na República Dominicana, crianças rolam em um vídeo gravado, assim como uma turma de formandos em odontologia, na Colômbia. Na Bélgica, país que mandou Neymar para casa, a brincadeira foi de péssimo gosto: a mais famosa fonte de Bruxelas chama-se “Manekem Pis”, que significa “garoto fazendo xixi”. O garoto é uma estátua que há na fonte. Colocaram uma imagem de Neymar nesse local. Ruim. Isso foi ruim, muito ruim mesmo, meus caros belgas. Em suma, Neymar virou tudo que é memes, piadas, simulações. Claro que a coisa sai de sua pessoa e esfola a imagem do Brasil como um todo. Não, não merecemos isso.

Com menos riso mas não menos gravidade repercutiram na mídia internacional a mixórdia do desembargador e a festa pela aprovação da pauta-bomba no Congresso. E anote-se um detalhe: a brincadeira de Eunício com os colegas que, na véspera do recesso e depois de tudo votado, exageravam na algazarra, feito colegiais que sairão em férias. Eunício os advertiu, em tom de brincadeira, que, se não ficassem quietos, ele faria desaprovar tudo que fora aprovado. O mínimo que os governos de diversos países repetem, diante de tantos pândegos, é que o Brasil não é um país sério.

Foi o embaixador Carlos Alves de Souza quem disse, em 1963, que “o Brasil não é um país sério”. Charles De Gaulle jamais
pronunciou essa frase. Em 1979, o Itamaraty admitiu esse fato. Vinda de um brasileiro, ela se tornou ainda mais precisa, grave e depreciativa

Aliás, falando em seriedade, durante décadas a história oficial brasileira, a contar do episódio diplomático com a França conhecido como a “guerra da lagosta” (1963), fez crer que o então presidente francês Charles De Gaulle teria dito exatamente essa frase: “o Brasil não é um país sério”. Na época, autoridades brasileiras fizeram-na descer goela abaixo do povo, inflando o nacionalismo promovido por João Goulart. Mas já então se sabia, e o Itamaraty ocultava, que não era um francês o dono de diagnóstico tão preciso. Era um brasileiro: Carlos Alves de Souza, embaixador do Brasil na França. Em 1979, ele próprio tornou isso público no livro “Um embaixador em tempos de crise” (Editora Martins Fontes). Alves de Souza disse a frase, a frase é dele, nunca foi de Charles De Gaulle. O governo do Brasil desculpou-se junto ao governo francês. E o fato de a falta de seriedade ter sido cravada por um brasileiro tornou o tal diagnóstico, naturalmente, mais grave e mais depreciativo ainda.

Colaborou André Vargas