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Os tentáculos do controle da informação

Para controlar a narrativa sobre as várias crises e impor suas próprias versões, Bolsonaro intervém em órgãos como INPE, o TCU e a PF. Inquérito do STF comprova que a máquina de propaganda envolvia canais bolsonaristas na internet

Os tentáculos do controle da informação

A crise hídrica, cuja gravidade fica cada dia mais evidente, mostrou mais uma vez que o governo Bolsonaro avança para intervir nos órgãos de Estado. O objetivo é diminuir a transparência e centralizar o controle. Em uma MP que deve chegar ao Congresso a qualquer momento, o governo retira os poderes da Agência Nacional de Águas (Ana) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) para regular a quantidade de água nos reservatórios das hidrelétricas. O objetivo inicial é dar poderes a uma “Câmara de situação”, que evite o risco de um apagão com medidas excepcionais. Mas a medida mais uma vez premia a falta de planejamento e transfere o poder ao Planalto, tirando a autonomia de gestores ou de instituições que não deveriam se subordinar à vontade política do Executivo. É uma MP baseada na autoritarismo e na concentração de poder.

A emergência no setor energético é agravada por outra medida que o presidente pratica desde o início: o esvaziamento dos institutos de pesquisa. Agora, pela primeira vez na história, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está prester a desligar o supercomputador Tupã, responsável por previsões de tempo e clima, coleta de dados meteorológicos e emissão de alertas climáticos. O argumento é a falta de verbas, ainda que elas sejam abundantes para comprar aliados no Congresso. Há consternação entre os especialistas com a perda desse instrumento com o risco de racionamento de água. O monitoramento das queimadas será afetado, assim como a coleta de dados sobre a estiagem. O diretor do órgão, Clézio di Nardin, disse que um novo equipamento seria comprado, com porte menor e capacidade equivalente ao atual, mas dificilmente vai reparar o estrago. É a segunda vez que o INPE, responsável pelas informações sobre a Amazônia, é atingido pela política bolsonarista. As queimadas que chamuscaram a imagem internacional do presidente no início da gestão já haviam servido de pretexto para a demissão do então diretor do órgão, Ricardo Galvão. O governo queria impedir que as más notícias fossem divulgadas. A manobra não foi suficiente. Para esconder a marcha da devastação, o governo trocou o chefe da superintendência do Amazonas da PF, delegado Alexandre Saraiva, pivô dos inquéritos contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pelo favorecimento a madeireiros ilegais. O resultado desse desmonte institucional pode ser medido em números: o índice de desmatamento em unidades de conservação federal registrou um aumento de 312% em maio deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

O que está por trás das ações de Bolsonaro é uma tentativa de censura. Manipular informações visa impedir a crítica ao governo

NOVO ALOPRADO O auditor do TCU Alexandre Marques comparece à CPI, na quinta, e depoimento é adiado: relatório falso para beneficiar Bolsonaro (Crédito:Jefferson Rudy)

Ação no TCU

Quando não tem dados favoráveis a mostrar, o presidente os suprime. É o que fez na pandemia, quando o Ministério da Saúde tentou abafar os números de óbitos e casos – e foi impedido pelo STF. Outra tática é fabricar informações, como aconteceu na recente operação aloprada no TCU: um auditor próximo a Bolsonaro, Alexandre Silva Marques, plantou um relatório falso na corte, numa noite de domingo, que apontava números superestimados de mortes de Covid. O presidente os divulgou na manhã seguinte. A versão colou poucas horas, até que o embuste fosse desmascarado. O uso dos instituições chega ao cúmulo de o filho do presidente Flávio mobilizar a Receita para apurar eventuais investigações contra ele. Mais grave é a máquina de desinformação montada a partir do Planalto. O inquérito dos atos antidemocráticos no STF demonstram como a Secom foi aparelhada para favorecer blogueiros e difundir teses golpistas. Contas com esse objetivo foram acessadas mais de mil vezes em computadores de órgãos públicos: da própria Presidência, do Senado, da Câmara dos Deputados e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

O uso da desinformação no submundo das redes sociais não só serve para atacar adversários. É uma ameaça à própria democracia. Por isso, as big techs estão restringindo o acesso a políticos que transmitem notícias falsas. Donald Trump está suspenso do Twitter e do Facebook, e Bolsonaro já teve posts removidos nas redes. Por isso, o governo ameaça publicar um decreto impedindo que publicações ou perfis sejam removidos. É difícil que essa aberração passe pelo crivo constitucional da Justiça, mas o presidente já tem alternativas. Para o grupo do mandatário, é mais fácil usar redes que são menos rígidas em suas políticas ou estão fora do radar dos órgãos de controle. É o caso do aplicativo Telegram, que não tem escritório no Brasil, não modera conteúdo, nem coibe a desinformação. Um estudo da UFMG mostrou que 92,5% dos usuários que seguem temas políticos nesse aplicativo estão em canais bolsonaristas. São 1,4 milhões de usuários. O Telegram está na mira de governos estrangeiros por ser usado em toda a Europa pela extrema direita. Outra forma de controlar a narrativa política é inibir os críticos e estrangular a própria ciência. As universidades federais estão especialmente suscetíveis. Não se trata apenas de baixar normas que impeçam os pesquisadores de se manifestar, como o governo já tentou. O presidente promoveu cortes de até 36% nas instituições. O que está por trás de todas essas ações é a censura. Manipular informações é uma tática para impedir que a crítica se manifeste e a sociedade tenha controle sobre o seu destino. É o que Bolsonaro deseja desde o início.