Cultura

Os segredos de Van Gogh

Novas obras descobertas, quadro que estava ‘escondido’ havia um século e exposições imersivas: o mestre holandês continua a surpreender mais de 130 anos após a sua morte

Crédito: STEPHANE DE SAKUTIN

RELÍQUIA “Cena de Rua em Montmartre”: tela desaparecera em coleções particulares (Crédito: STEPHANE DE SAKUTIN)

Sentado em uma cadeira, um senhor esconde o rosto nas mãos, como se estivesse cansado da vida. “Que bela visão nos proporciona um velho trabalhador, com seu terno remendado e a careca à mostra.” Foi assim que Vincent Van Gogh (1853-1890) definiu seu quadro “Worn Out” (“Esgotado”), criado em 1882. Interessado em retratar o sofrimento de cidadãos humildes, o pintor costumava pedir a moradores de um asilo em Haia, na Holanda, para servirem de modelos em troca de um pequeno pagamento. Os retratados nunca imaginariam que suas poses renderiam milhões de dólares e se tornariam imagens cobiçadas em todo o mundo.

Morto há mais de 130 anos, Van Gogh continua a revelar segredos e a nos surpreender. Essa semana, um esboço de “Esgotado” foi descoberto em circunstâncias misteriosas. Mesmo com a tradicional assinatura, “Vincent”, a obra só foi reconhecida após o dono submeter o trabalho ao Museu Van Gogh para certificar-se de sua autenticidade. O proprietário, que permitiu que a peça fique exposta na instituição até janeiro de 2022, preferiu manter o anonimato. “Em desenhos como esse, o artista não apenas demonstrava sua simpatia pelos socialmente desfavorecidos, mas chamava ativamente a atenção para eles também”, informa a nota do museu. Sua diretora, Emilie Gordenker, comemorou a chegada do recente tesouro. “É muito raro ver um novo trabalho atribuído a Van Gogh”, afirmou.

Para o mundo das artes, descobrir uma obra inédita do mestre holandês é como resgatar uma relíquia. Encontrar quatro delas, como aconteceu em 2021 — até agora — é quase um milagre: além do esboço de “Esgotado”, outras três imagens feitas também a lápis surgiram entre as folhas de uma antiga publicação. Estima-se que, pelo tamanho da obra, que tem 28 centímetros de comprimento, Van Gogh tenha personalizado um marcador de páginas.

O desenho foi localizado dentro de uma edição do século 19 de “Histoire d’um Paysan”, de Emile Erchmann e Alexandre Chatrian. O livro havia sido emprestado por Van Gogh ao artista Anthon van Rappard. Após o rompimento entre os dois — o amigo criticou uma litografia feita por Van Gogh —, o livro não foi devolvido e ficou com a esposa de Rappard, Henriette, até sua morte, em 1910. Recentemente ele foi encontrado pela família, que também o submeteu ao Museu Van Gogh para autenticação e avaliação.
AOS OLHOS DE TODOS Recém-descobertas, novas obras estão expostas no Museu Van Gogh: marcador de página (no alto) e esboço de “Esgotado” (Worn Out) (Crédito:Divulgação)

Exposição tecnológica

No mês de março, outra obra de Van Gogh já havia chamado a atenção do mercado. O quadro “Cena de rua em Montmartre”, que ficou “escondido” por mais de 100 anos, apareceu em um leilão na cidade de Paris e foi vendido por cerca de R$ 100 milhões. A obra de 1887 era conhecida apenas por meio de catálogos antigos. Não havia registro de seu paradeiro pois ela permaneceu em coleções particulares por mais de um século, possivelmente comercializada apenas entre colecionadores, sem divulgação pública ou a participação de instituições oficiais e marchands.

Outro fenômeno relacionado a Van Gogh que chama a atenção são as recentes e populares exposições imersivas inspiradas nas obras do pós-impressionista. Concebidas como grandes shows de luzes e projeções, elas recriam os universos artísticos do pintor em 3D. Cinco empresas são responsáveis por 40 exposições desse estilo nos EUA e Canadá. O sucesso de público tornou essas mostras um fenômeno altamente lucrativo, provavelmente a forma de entretenimento mais bem sucedida nesses tempos de pandemia. Segundo a Ticketmaster, empresa que administra o site do evento, foram vendidos 3,2 milhões de ingressos esse ano — bem mais que as grandes turnês das bandas de rock.

Esse novo gênero, que mescla interatividade e exposição, traz uma experiência bem diferente daquela apreciada em um museu tradicional. Resultado da mistura entre arte, tecnologia e entretenimento, essas mostras seriam algo que Van Gogh e os velhos moradores dos asilos holandeses jamais poderiam sonhar.

SUCESSO Exposições imersivas: combinação de exposição de arte com evento interativo, mostras inspiradas nas obras do mestre holandês atraem público de todas as idades (Crédito:Divulgação)