Cultura

Os segredos de Frei Damião

O documentário “Frei Damião — O santo do Nordeste” mostra como o andarilho franciscano virou padrinho da fé popular e candidatoà canonização

Crédito: Divulgação

CARINHO Frei Damião cercado por jovens no sertão da Paraíba em meados da década de 1960: proximidade com os pobres (Crédito: Divulgação)

Dizia-se que flutuava em vez de andar. Quando o jovem Frei Damião (1898-1997) despontava nos povoados do sertão nordestino entre nos anos 1930 e 1960, a população soltava foguetes e tentava acompanhar o passo veloz do frade, até chegar à igreja para iniciar a missão que durava dias. Trabalhava das 5 da manhã às 23 horas. Confessava os fiéis sem confessionário, dava conselhos às parturientes e amaldiçoava o pecado. “É sempre tempo para salvar almas”, dizia.

FILME Carlos Eduardo Ferraz encena a ordenação sacerdotal em Roma, em 5/8/1923 (Crédito:Divulgação)

Esses episódios integram o documentário “Frei Damião — O santo do Nordeste”, com estreia em novembro. “Sua vida foi dedicada à evangelização”, diz à ISTOÉ a diretora do filme, a pernambucana Deby Brennand, que contou com mais de 100 fitas de VHS e outros documentos conservados no convento da Penha, em Recife. “A gente cita inúmeros aspectos da mitologia em
torno dele. Como não falava de si próprio, usamos atores em algumas cenas.”

Os episódios exemplares das peregrinações do italiano Pio Gianotti ocorreram no meio da turba. Nasceu em Bozzano, Toscana, e foi ordenado “fra” Damiano da Bozzano em Roma. Emigrou para o Brasil em 1931. Aqui, encontrou seu público, mesmo que o “capuchinho gorducho, feio e sem jeito, humilde e calado”, como escreveu em 1953 o biógrafo Luiz Francisco dos Santos, não ostentasse carisma. Iniciava os sermões aos sussurros pouco audíveis, mas proferidos em tom ameaçador: “Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos dos vossos pecados!” Os gritos de espanto e contrição de seu rebanho eram abafados pela chuva, que o seguia aonde fosse. Reza a lenda de que calava até mesmo os sapos. No ápice da glória, mandou o povo evitar os fogos de artifício, pois lhe lembravam as bombas da Primeira Guerra Mundial, na qual lutou como cadete.

“Frei Damião ensinou que é possível lutar por um ideal, apesar de tudo” Frei Jociel Gomes, capuchinho (Crédito:Divulgação)

Aversão à santidade

Apesar de retraído, foi adotado como padrinho pelos seguidores, que insistiam em tocá-lo para obter graças. Como seu antecessor, padre Cícero, atribuem-se a ele milagres. Três relatos milagrosos foram submetidos à Santa Sé no processo de beatificação, coordenado no Brasil por frei Jociel Gomes. Em abril, o Vaticano declarou-o venerável por ter vivido as virtudes cristãs em grau heroico. “Para virar beato, é preciso comprovar pelo menos um milagre; para santificação, dois”, diz Gomes.
“O processo leva meses.”

Por tudo o que fez pelos sertanejos, é cultuado por romeiros que acorrem ao convento de São Félix, em Recife, onde está sepultado. Sempre manifestou aversão a honrarias e ao uso político de sua imagem. “Não sou santo, mas apenas um frade”, dizia. “O povo inventa milagres. É o sentimento religioso popular. O milagre só vem com merecimento e fé.” Aos devotos, porém, sua modéstia parece irrelevante, assim como as ideias conservadoras que preconizou. Além de anticomunista, combateu as inovações. “Minissaia não presta”, bradava baixinho. “Muitos homens já perderam a cabeça por causa desse exagero das mulheres.” Ainda assim, antecipou o contato com os necessitados, defendido hoje pelo papa Francisco. “Frei Damião ensinou que é possível lutar por um ideal, apesar de todos os problemas”, diz frei Jociel.

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