Os segredos da Capela Sistina

Os segredos da Capela Sistina

Diz o provérbio que todos os caminhos levam para Roma, mas definitivamente nem todos os corredores levam para a Capela Sistina. Ela é um dos tesouros da humanidade, mas fica (bem) escondida no meio do Museu do Vaticano, um conglomerado de vários museus que abrigam uma das maiores e mais valiosas coleções de arte do mundo.

O Museu do Vaticano é daqueles lugares que se perde até com o mapa. Dentro do complexo estão o Museu Pio-Clementino, o Museu Chiramonti, o Museu Gregoriano Etrusco, o Museu Gregoriano Egípcio, a Pinacoteca Vaticana, o Museu Missionário-Etnológico, o Museu Gregoriano Profano, o Museu Pio-Cristão, além de uma infinidade de salas batizadas com nomes de grandes pintores. Tem 70 mil obras e 54 galerias. Para dar uma dimensão do que isso representa, se você gastar apenas um minuto para ver cada obra, irá precisar de 48 dias para ver o acervo. Além disso, haja sola de sapato para passar pelos sete quilômetros de museus.

Nesse universo de arte e descobrimento está a Capela Sistina, situada no Palácio Apostólico, que, por sua vez, é a residência oficial do Papa. Você descobre que está no caminho certo da capela conforme a multidão começa a aumentar. Quando os corredores ficam abarrotados, é certo que você chegou ao local. A sensação é única: uma entradinha pequena, mas logo que entramos temos a sensação maravilhosa, que a arte está nos tocando por todos os lados. Os primeiros minutos tiram a respiração e nos deixam tontos por não sabermos onde olhar. Depois, com calma, a experiência é marcante.

Clique aqui para ver a Capela Sistina sem pessoas e sem guardas implorando por silêncio (risos!) e aproveite para conhecer vinte curiosidades que eu selecionei sobre esse local, que é um dos mais impressionantes do planeta:

1-A Capela Sistina é um dos maiores tesouros da humanidade e um coração pulsante da fé e da cultura universal. A capela tem o seu nome em homenagem ao Papa Sisto IV, que restaurou a antiga Capela Magna, entre 1477 e 1480. Ele também construiu a Ponte Sisto, que liga Trastevere ao bairro antigo de Roma.


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2-Ela foi inspirada no Templo de Salomão do Antigo Testamento, e sua decoração em afrescos, pintada pelos maiores artistas da Renascença. Baccio Pontelli foi o autor do projeto arquitetônico.

3-A função mais importante da Capela Sistina começou em 1870, quando passou a ser utilizada como sede do Conclave, o encontro de cardeais que elege o Bispo de Roma, também conhecido como Papa. Mais de 50 Papas foram escolhidos a partir deste local.

4-A Capela Sistina atualmente serve como sede das mais importantes nomeações da Igreja Católica. Missas e cerimônias privadas são realizadas regularmente com o papa, cardeais, guarda suíça e outros membros do clero presentes. No entanto, quando não está em uso para eventos especiais, a Capela Sistina é aberta ao público como parte dos Museus do Vaticano, sendo visitada por milhões de turistas a cada ano.

5-A Capela Sistina tem forma retangular, medindo 40,93 metros de comprimento, 13,41 metros de largura e 20,70 metros de altura. Sua construção começou em 1473 e foi até 1481. As pinturas cobrem cerca de 1.100 metros quadrados de paredes e 460 metros quadrados de teto. “O Juízo Final”, pintado na parede do altar, tem cerca de 168 metros quadrados.

6-Vários artistas trabalharam nas pinturas da capela: Rafael, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino, Signorelli, Cosimo Rosselli e Michelangelo. Cenas do Velho e do Novo Testamento decoram as paredes laterais, assim como o teto.

7-Michelangelo relutou para aceitar o trabalho na Capela Sistina por não se considerar um grande pintor. Entendia que era melhor escultor. O convite para o trabalho foi feito por Giuliano di Medici, também conhecido como Papa Júlio II. Na época, ele estava trabalhando no mármore e na escultura do túmulo para o Papa, mas Júlio II cancelou a encomenda e disse que ele deveria pintar a Capela Sistina. Michelangelo ficou tão indignado, montou em seu cavalo e voltou para sua casa em Florença, jurando nunca mais iria trabalhar para o Papa. O Papa Júlio II era um grande fã da obra de Michelangelo e, independentemente do fato de o artista não ter experiência com a técnica de afrescos, insistia que pintasse a capela. Os guardas de Júlio II o arrastaram de volta a Roma à força e ele acabou concordando em pintar o teto, mas exigiu ter liberdade total para definir as pinturas.

8-Michelangelo encontrou dificuldades em pintar “A Criação” por ser uma área côncava de mais de mil metros quadrados, dificultando a visualização em perspectiva das imagens. Além disso, muitas figuras foram refeitas várias vezes por precisarem estar finalizadas antes do afresco secar.

9-O teto de afresco é uma composição em forma de arcos, que deve ser lida da esquerda para a direita e de cima para baixo. Os homens que serão julgados sobem para a esquerda, os justos ficam no alto e os condenados descem para a direita, em direção ao Inferno. Se você olhar atentamente para o teto, verá que em alguns painéis as figuras parecem maiores do que outras. Isso porque o inexperiente Michelangelo percebeu que precisava aumentar as figuras para que as pessoas pudessem vê-las melhor.

10-A Capela Sistina é repleta de símbolos. Tem o primeiro registro de Deus representado em um corpo musculoso. Até aquela data, a maioria dos registros do Todo-Poderoso era por meio de uma luz divina, vinda do céu. O Deus de Michelangelo é uma reminiscência de Zeus, com um traseiro inclusive bem delineado, no painel que separa a Lua do Sol.

11-A superfície da abóbada foi dividida em áreas para aproveitar o espaço. Nas áreas triangulares, existem figuras de profetas e sibilas. Nas partes retangulares, estão os episódios do Gênesis. Na parte do fundo estão Deus separando a Luz das Trevas; Deus criando o Sol e a Lua; Deus separando a terra das águas; A Criação de Adão; A Criação de Eva; O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso; O Sacrifício de Noé; e O Dilúvio Universal.

12-Enquanto o teto da Capela Sistina retrata temas religiosos, Michelangelo também presta homenagem à ciência e à anatomia em sua obra. Especialistas analisaram e descobriram séculos depois o simbolismo oculto das pinturas, provando o quão brilhante e à frente de seu tempo o artista realmente era. Há, por exemplo, uma forma semelhante a um cérebro e uma medula espinhal no painel central “A Criação de Adão”. Deus estaria dando vida e inteligência aos homens, enquanto a medula espinhal talvez represente a relação conflitante entre o artista e a Igreja Católica.

13-A figura central é o Cristo Juiz, uma figura jovem com olhar duro e que se vira para a esquerda onde estão os torturadores. A representação é de um “Cristo Desconhecido”, no qual a bondade e a misericórdia desapareceram dando lugar a “Cristo Carrasco”.

14-Michelangelo não fez a abóbada e o “O Juízo Final” ao mesmo tempo. Após produzir “A Criação”, deixou Roma e foi chamado somente trinta anos depois, quando já tinha mais de 60 anos, para pintar o “Juízo Final”, a pedido do Papa Paulo III.

15-O afresco do “O Juízo Final” demorou quatro anos para ser finalizado. Sua produção foi feita a partir de um andaime de tábuas de madeira construído pelo próprio Michelangelo que, inclusive, pintou todos os dias em um ambiente escuro, iluminado de forma precária apenas com a luz de velas.

16-Quando pintava o “O Juízo Final”, Roma foi saqueada um exército de 10 mil homens que deixou a cidade literalmente em frangalhos. Michelangelo colocou um autorretrato na cena. Dê uma olhada na figura careca e barbada de São Bartolomeu, segurando uma faca em uma mão e uma pele esfolada na outra. O rosto da pele mostra os cabelos escuros cacheados e a barba de Michelangelo, indicando que ele se sentia esfolado e vivia um momento de pessimismo e de falta de fé. Como odiava pintar, a pele representa também seu cansaço e sua má vontade naquele momento do trabalho.

17-As figuras nuas da cena do último julgamento geraram discussões calorosas sobre imoralidade e obscenidade entre o Cardeal Gian Pietro Carafa e Michelangelo. Nobres da época e representantes da Igreja Católica chegaram a fazer uma campanha para tentar remover o afresco. Michelangelo explicou que os ressuscitados entrariam no céu nus, como Deus os criou, mas a igreja não gostou muito dessa representação.

18-O Papa Paulo III ordenou que os genitais do afresco fossem cobertos pelo artista Daniele da Volterra, um dos discípulos de Michelangelo. Ele fez mais de quarenta pinturas para esconder o sexo ou pedaços perversos de santos. A moda pegou em Roma que teve muitas obras cobertas com folhinhas na época.

19-O teto da capela levou quatorze anos para ser restaurado, sendo concluído em 1994. A remoção de 450 anos de sujeira custou uma fortuna e a rede de TV Nippon pagou pelo trabalho, exigindo em troca os direitos autorais das imagens e a receita com a venda de cartões, posters e livros. O contrato já expirou há muito tempo, mas a regra de não poder tirar foto foi mantida, pois o local é visitado por milhões de turistas ao ano e a fotografia com flash pode prejudicar a pintura. Ao contrário da crença popular, Michelangelo pintou o icônico teto da Capela Sistina de pé, não deitado de costas nos andaimes. Só isso já mostra o talento e a dedicação de Michelangelo e prova seu direito de ser chamado de mestre do Renascimento.

20-Ao lado oposto da entrada da Capela, ao lado direito, há uma pequena saída que leva diretamente para a Basílica de São Pedro (sem passar pela segurança e sem ter que pagar os quase vinte euros que cobram de entrada). Essa passagem é uma excelente oportunidade para visitar a maior e mais importante igreja do mundo. Porém, as pinturas da Capela Sistina são tão impressionantes que poucos dão essa fugidinha.

Torço para a vacina do coronavírus surgir logo para poder rever a Capela Sistina e voltar a ficar emocionada, como sempre acontece. Se tiver uma boa história para compartilhar, aguardo sugestões pelo Instagram Keka Consiglio, Facebook ou no Twitter.

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Sobre o autor

Keka Consiglio é artista plástica, jornalista e empresária do setor de comunicação. Apaixonada por arte desde criança quando começou a estudar o tema, entregou-se de vez a esse universo ao fazer cursos e visitar museus e exposições, tanto no Brasil como no exterior. Desenvolve uma arte livre, criativa, repleta de cores e de elementos baseados em temas cotidianos, tendo a sustentabilidade presente em todo o seu processo de criação. Curiosa e motivada por desafios, vive e trabalha em São Paulo, produzindo suas coleções a partir de dois estúdios. Instagram: @keka_consiglio_artista. Site: www.kekaconsiglio.com.br


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