Entrevista

Maitê Proença, Atriz

Os regimes totalitários nunca apoiaram as artes

Ana Branco

Os regimes totalitários nunca apoiaram as artes

Anna França
Edição 26/06/2020 - nº 2633

Quase sem querer ela acabou se tornando um dos pivôs da saída de Regina Duarte da Secretaria Especial da Cultura. Ao gravar um vídeo, a pedido do canal de televisão CNN, e questionar a colega, pedindo que ouvisse o pleito de sua categoria, provocou uma crise histérica em Regina que acabou viralizando pela Internet e provocando as mais variadas reações, inclusive do governo. Mas não é de hoje que Maitê Proença, 62 anos, chama atenção pelo seu posicionamento político e sua força feminina que, aliás, começam a transformar a atriz e escritora em uma “digital influencer”. Diante do isolamento exigido pela pandemia, ela vem encontrando na internet o espaço para falar sobre o que pensa, citar mulheres fortes de várias partes do mundo e até dar dicas de beleza, claro. Em entrevista exclusiva à ISTOÉ ela fala não só sobre o isolamento e todas as limitações que ele provoca, mas também de política, cultura, beleza, envelhecimento e do momento especial que vive, com o anúncio da primeira gravidez de sua única filha. Sobre a cultura, Maitê é incisiva. “Nossa arte é diversa, plural, miscigenada e independente”, afirmou. “E as artes repudiam veementemente a repressão dos regimes autoritários”.

Como você viu a passagem de Regina Duarte pela Secretaria Especial de Cultura?
Faltou diálogo com os artistas. Como o governo não tinha interesse naquela pasta deram a ela um cargo decorativo. Deve ter sido quase impossível mexer na estrutura dividida que ela recebeu. Quando a Cultura virou Secretaria, os assuntos que estavam sob um só órgão, foram loteados entre o Ministério da Cidadania e o do Turismo. Os dois ministérios, sabedores de que cultura não era prioridade, não se comunicavam. Por isso mesmo, Regina deveria ter pedido ajuda à classe para, ao menos, desenhar uma política para o setor, e para que nós a ajudássemos a colocar essa ideia em prática, sobretudo num momento em que há 5 milhões de trabalhadores das artes desempregados.

Você se sente um pivô da saída dela do governo, após o vídeo na CNN?
Não sei, mas não tem importância, porque na realidade ela deu vários tiros no próprio pé. Depois das graves afirmações e da cantoria ocorridos naquela mesma entrevista, não dava pra Regina permanecer como representante da cultura de nosso país. Nossa arte é diversa, plural, miscigenada, e independente. E as artes repudiam veementemente a repressão dos regimes autoritários.

A ex-secretária publicou um vídeo prestando contas. Você acha que ela conseguiu fazer algo nestes três meses em que esteve lá?
Ela conseguiu que o Ministério da Cidadania transferisse para o do Turismo (sob o qual fica a Secretaria da Cultura) tudo que estava impossibilitando o andamento de vários trâmites importantes, como o do Fundo Setorial do Audiovisual. E isso é bastante coisa!

Como você vê o futuro da cultura?
Vamos ter que esperar passar esse dilúvio pra que nasçam novas formas possíveis em tempos de distanciamento social. Mas a cultura sempre resiste. É através das artes que o povo de um país se reconhece e que o mundo nos percebe como nação. O Brasil é conhecido pelo Carnaval, pelo cinema pela MPB, pelas novelas, e não pela soja transgênica, ou pelo boi do agronegócio. As artes são a nossa identidade e orgulho.

O que acha da falta de apoio desse governo à Cultura?
Os regimes totalitários nunca apoiaram as artes porque estas florescem na liberdade. E sistemas como o nosso atual — que vem mostrando perigosamente a que veio — precisam da falsidade e escuridão.

Você acha que alguém conseguiria fazer algo pela cultura no governo Bolsonaro?
Dificilmente seria convidado para o cargo uma pessoa por cima de quem o governo não pudesse sapatear. E se, por mágica ou desinformação (mais provável no caso), acontecesse de chamarem uma personalidade muito respeitável como um Cacá Diegues ou a Fernandona (Fernanda Montenegro), gente desse naipe não aceitaria. Então, para responder, não.

Na sua opinião, o novo secretário, Mario Frias, pode ajudar a melhorar a cultura de alguma maneira?
As pessoas usam o fato de ele ser um ator da série Malhação para desmerecê-lo. É preconceito e tolice. O que me aflige é tentar entender porque alguém aceita um abacaxi desses sabendo que não poderá ser útil? Ou ele tem um coelho de pelos dourados na cartola pra driblar o desinteresse do governo ou tem um projeto pessoal de poder. Pelo bem da cultura, espero que seja o coelho!

Além da cultura, como vê o futuro da educação e da saúde, áreas cruciais que estão abandonadas e sem ministro definido?
Não há interesse do governo nas questões mais relevantes para o bem estar do cidadão: saúde, educação, cultura e meio ambiente. A educação já não era prioridade nos governos anteriores, mas o que se percebe agora é um plano intencional de paralisação dos setores considerados irrelevantes.

Como vê o aumento da presença das Forças Armadas nos ministérios?
Vejo como toda a pessoa de bom senso: estou perplexa. Não havia na sociedade civil pessoas com qualidades técnicas para preencher essas funções?

Acha que a prisão de Fabrício Queiroz, braço direito da família Bolsonaro, vai abalar o governo?
Infelizmente nem o Queiroz nem o advogado Frederick Wassef têm nada a ganhar abrindo o bico. As milícias não costumam perdoar delações.

Você chegou a ser lembrada para uma vaga no Ministério do Meio Ambiente. Se tivesse sido convidada, aceitaria?
Não teria acontecido porque eu nunca fui pró-Bolsonaro. Quem considerou o meu nome foi um grupo de cientistas e ambientalistas. O governo empossado enxergava os ecologistas como uma gente de esquerda que estava ali pra atrasar o progresso. Precisávamos ganhar tempo, mostrar que talvez não fosse necessário ter um ambientalista de profissão, mas quem sabe, alguém ligado à área, sem ser da área. Esta era a ideia. O grupo tentava evitar que fosse indicado um inimigo do meio-ambiente, como de fato aconteceu.

Preocupada com o meio ambiente, como viu a fala do ministro para mudança da legislação “deixando passar a boiada” e facilitando o desmatamento?
Um despautério, não merece ser comentado. Até nos governos anteriores tivemos no Ministério do Meio Ambiente gente qualificada, que trabalhava pelas florestas, pelo clima, pelos mares, pelas águas dos rios, pela saúde dos biomas brasileiros. Este demônio trabalha contra.

Seu ex-marido, Paulo Marinho, fez uma denúncia importante sobre o filho de Jair Bolsonaro e a interferência na Polícia Federal. O que achou disso?
Relacionei-me com Paulo há 30 anos. Se ele tem material que compromete a idoneidade de Bolsonaro e seus filhos deve apresentá-lo. Assim como seria este o dever de qualquer outro cidadão.

Além da crise política, estamos enfrentando a questão sanitária e a cultura parece que será fortemente atingida, sendo uma das últimas categorias a voltar. Como a cultura sobreviverá?
O pessoal da música está nas lives. O teatro agora também descobriu sua fórmula. Desde março tenho feito leituras teatrais nas minhas redes sociais. Fui a primeira. Líamos e contávamos histórias divertidas ocorridas durante a temporada daquelas peças, todas já encenadas por quem agora estava lendo. Recentemente a coisa se sofisticou e os teatros estão oferecendo alternativas.

Como assim?
O Teatro XP tem feito lives excelentes. E o Petra Gold agora inventou o Teatro Já, onde os artistas encenam suas peças no palco (e não mais em suas casas), com uma só pessoa na plateia representando o público. E o público compra ingresso, a R$ 10, para cada apresentação ao vivo, que é gravada e exibida uma só vez, no momento da encenação. É uma live paga, ideia ótima da Ana Beatriz Nogueira.

Você vai entrar nesses projetos?
Vou participar sim. E a gente vai se virando. Haverá espetáculos ao ar livre, exposições. Seguiremos!

Você tem usado as redes sociais para falar de vários assuntos, além de colocar seu dia a dia. Você já encontrou o caminho neste universo virtual?
É o que temos para hoje. Há dois anos que uso as redes pra falar de mulheres pioneiras, já pesquisei e mostrei 186 “mulheres de fibra”. Mostro também como viver com menos, dou receitas de produtos biodegradáveis e naturais para casa e corpo, ensino a reutilizar e fazer menos lixo. Pratico exercícios e ioga sob orientação de professores em aulas que os seguidores fazem comigo. Mostro sequências de ioga facial, de respiração e de saúde articular. Dou dicas de livros, filmes e séries. As pessoas estão perdidas, ansiosas e insones e resolvi oferecer tudo o que estudei e pratiquei a vida inteira, por ter certeza de que realmente funciona.

A rede te ajudou a manter a “sanidade” nesta pandemia?
A rede me deixou muito menos solitária. A impressão é que, ao dividir minhas práticas com mais pessoas, criei uma comunidade de amigos, um grupo grande que se comunica e troca comigo.

Já se habituou com a interação que a internet exige?
Não. Detesto ter que manter um ritmo sem pausas. Mas nem tudo são flores como bem sabemos.
A publicidade, que muitos artistas têm feito na web, pode ajudar a se manter até a volta à atividade?
Eu não tenho feito nenhuma publicidade. Não considero este um bom momento para se fazer propaganda e estimular o consumo.

Você disse recentemente que já tomou cloroquina. Como vê essa discussão politizada sobre um remédio?
Tomei porque tenho problemas articulares hereditários. Tomei sob pressão, pois sinto muita dor. Um dos efeitos colaterais do uso continuado do remédio é a cegueira, por isso, durante seis meses, fiz exames de fundo de olho e tive acompanhamento rigoroso de oftalmologistas. Não fiquei cega, mas minha doença articular também não melhorou. A Cloroquina é um remédio com vários efeitos colaterais e todos já sabemos que não serve pra combater o coronavírus.

Como vê esse movimento da Rede Globo, cortando vários artistas antigos, incluindo você?
Não percebi, por hora, uma melhora na programação. Mas eles podem mandar embora quem quiserem, é uma prerrogativa da empresa. Só que é preciso haver sempre um aviso prévio, e é imperativo que paguem os devidos benefícios aos que ali trabalharam.

Você começou na Globo, mas se firmou em uma emissora pequena. As séries Dona Beija e a Marquesa de Santos colocaram, inclusive, a Manchete em outro patamar. Agora, como vê seu futuro fora da Globo?
Difícil. Tudo está muito incerto.

O mercado ainda faz diferença com quem tem mais idade, como é o seu caso?
Certamente. E para alguém que teve a imagem associada ao estigma da beleza, fica, talvez, menos fácil furar o preconceito com a idade.

Como está sendo para você, uma mulher tão reverenciada pela beleza, perceber a passagem do tempo em seu corpo?
Não gosto. Mas tento driblar o inevitável com práticas saudáveis. Não é complicado para mim porque sempre fui meio bicho grilo, natureba, macrobiótica. Estudo nutrição há 40 anos e faço todo tipo de experiência pró-saúde. Só que antes, eu escorregava na noite, e agora eu sou toda do dia.

Como foi se tornar avó?
Veio num pacote de três, porque o marido de minha filha já tinha 2 filhos pequenos. Mas tem sido uma alegria sem fim!

Você enfrentou o estigma da mulher bonita e mostrou outros talentos, se tornando escritora. As pessoas ainda têm preconceito quando uma mulher bonita que pensa?
Quando eu não pensava, eles me julgavam arrogante e tola. Quando apareceu a mulher que pensa, passei de tola para ameaçadora: agora também não me queriam por perto com aquele conjunto tão desagradável (risos). Não sei o que é pior.

Depois de enfrentar muitos preconceitos, como você vê as jovens mulheres que gritam: meu corpo, minhas regras?
Brotou do neo-feminismo e, como em tudo, há excessos. Mas o movimento é legítimo e se justifica por séculos de interferência e subjugo da sociedade patriarcal. Nós sabemos o que é bom pra nós, não venham se meter aqui. Mas é quase sempre melhor explicar, ensinar, conversar, porque, coitados, eles (os homens) não aprenderam nada, e, afinal, a gente ainda gosta deles. Sugiro botar na escola e dar um intensivão!

Por que você decidiu reverenciar mulheres fortes na sua série no Instagram?
Porque dos homens a literatura está cheia. Não é preciso muito para conhecer os feitos dos cientistas, dos escritores, aviadores, políticos e assim por diante. Mas as mulheres só aparecem fortes na literatura quando idealizadas por escritores homens que imaginaram figuras inexistentes na vida real. Na Grécia Antiga, com suas Lisístratas e Antígonas, as mulheres eram, de fato, tão alienadas e isoladas da vida social, que desenvolveram até um dialeto próprio, diferente do falado pelos maridos.

Você pensa em escrever mais? Está fazendo isso na quarentena?
Um pouquinho, de leve.

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