Os radicais e suas bruxas

É o horror! O debate político encontra-se hoje polarizado entre os que queimam bruxa em praça pública e aqueles interessados na volta da bruxa — esse último um desejo nada ortodoxo expressado por petistas nas redes sociais durante o último Halloween (a bruxa, em questão, segundo eles próprios, seria a ex-presidente Dilma Rousseff). Não sei vocês, mas eu gostaria de viver num País onde Yoani Sanchez e Judith Butler pudessem transitar livremente sem serem agredidas ou privadas do direito de se expressar. Até para pregarem a volta da bruxa, se assim lhes apetece. O lamentável é que os defensores do regresso da bruxa quiseram calar de todas as formas Yoani — tática reproduzida contra Judith pelos incineradores de bruxa.

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Meus sinos dobram por Ayn Rand, e ela até poderia ter cunhado a frase, mas a autora é Rosa Luxemburgo: “Liberdade é, apenas e exclusivamente, a liberdade dos que pensam de modo diferente”. É para glorificar de pé, mas os extremos do debate, irmãos siameses em sua natureza autoritária, não querem saber de liberdade para os outros. Só para os próprios umbigos. Ou para os que a eles dizem amém. Contra quem não reza no mesmo corolário ideológico, o negócio é destilar o ódio, promover linchamento público e covarde, aniquilar reputações. Justa ou injustamente, não importa. A ideia é constranger e, com isso, tentar calar. Discordou, tratoram. A salivar de ódio. Ódio “do mal”, com o perdão da redundância, ou “do bem” — esse, o equivalente oposto ao ódio “do mal”, mas como é disseminado por setores da esquerda torna-se socialmente mais aceitável. A cólera dos radicais, no entanto, é a mesma.

De esquerda ou direita. Queixo-me às Rosas (e às Ayns), embora elas, infelizmente, não possam falar mais.
Mirem-se no exemplo do escritor Georges Bernanos, uma espécie de “Dostoiévski francês”, e da filósofa de mesma nacionalidade, Simone Weil.

Em 1938, durante a guerra civil espanhola, o católico Bernanos publicou o livro “Grandes cemitérios sob a lua”, um relato fiel das atrocidades perpetradas pelos rebeldes da direita, boa parte ligados à Igreja, na repressão contra os esquerdistas. Resultado: foi trucidado sem dó nem piedade pelos católicos.

Do lado oposto da trincheira, a comunista Simone Weil, voluntária francesa no conflito bélico, sofria engulhos e indignava-se com os próprios pares responsáveis pelos assassinatos, não raro brutais, dos adversários católicos. Em julho de 1948, dias depois da morte de Bernanos, a família do escritor encontrou entre seus pertences um documento — mais precisamente uma carta amarelada pelo tempo. O texto era de autoria da jovem Simone Weil. Dizia ela, em resumo: “Discordo de tudo o que o senhor afirma e defende. Mas o meu sentimento do outro lado do front era o mesmo que o seu”.

Queixo-me às Rosas (e às Ayns), embora elas, infelizmente, não possam falar mais

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