Os R$ 15 milhões de leite condensado derramado e outros chicletes federais
GULOSO Conhecido apreciador de pão com leite condensado, Bolsonaro mostra que não tem política pública nem para a compra de alimentos pelo governo: falta de critérios éticos e de governança (Crédito:Divulgação)

Um governo que gasta R$ 15,6 milhões para comprar toneladas de leite condensado realmente tem um problema grave de falta de sensibilidade e propósito, além de algum distúrbio alimentar. A iniciativa afronta uma população que mal tem o que comer e não tem dinheiro nem para o pão. Enquanto demora para adquirir vacinas, cilindros de oxigênio e outros itens de primeira necessidade durante a pandemia, o presidente Jair Bolsonaro demonstra agilidade para gastar milhões em vinhos finos, alfafa, uvas passas e pizzas. Há uma sensação de que as prioridades estão invertidas e as coisas, realmente fora do lugar. A lista de compras do governo mostrou que, em 2020, a administração federal gastou R$ 1,8 bilhão para adquirir comida, 15% mais do que no ano anterior, descontada a inflação. O governo se move por uma vontade hedonista e gulosa e não tem uma política pública nem critérios éticos para se abastecer de alimentos. A maior parte das despesas ficou na conta das Forças Armadas, que consumiram R$ 632 milhões em gêneros alimentícios. O Ministério da Educação e da Justiça aparecem na sequência como maiores comilões. Com 2,5 milhões de latas de leite condensado adquiridas, se for considerado um preço médio por unidade de R$ 6,00, o Exército brasileiro se credencia, hoje, como um dos maiores consumidores do produto no planeta. Tem um estoque para uma guerra prolongada e, inclusive, para comer pudim no fim do mundo.Os R$ 15 milhões de leite condensado derramado e outros chicletes federais

Pedidos de investigação

O volume das compras governamentais e a aquisição de grandes quantidades de itens supérfluos e de “junkfood” causaram indignação na sociedade e tiveram efeitos políticos imediatos. O PDT entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar os gastos com alimentação, chamados de “exorbitantes”. No pedido de abertura de ação, considera-se que “o montante de dinheiro público gasto nas aludidas compras não guarda sintonia com a natureza, nem tampouco com a quantidade de pessoas que porventura consumirão os produtos, o que indica a ocorrência de prática criminosa”. Para os membros do PDT, o presidente estaria cometendo crime de peculato e prevaricação. Já deputados do PSOL protocolaram um pedido, terça-feira 26, para que a Procuradoria Geral da República (PGR) investigue as compras de alimentos e bebidas pelo governo em 2020. O pedido foi feito pelo deputado David Miranda (RJ) e assinado pelas deputadas Sâmia Bomfim (SP), Fernanda Melchionna (RS) e Vivi Reis (PA). Eles consideram o gasto do governo “descomunal e incompatível com o momento de crise sanitária atravessado pelo País”.

Depois que se viu exposto, o governo tirou do ar o Portal da Transparência, onde constava o Painel de Compras, consolidado pelo Ministério da Economia, com todos os dados especificados para aquisição de comida e de outros itens usados pelos funcionários públicos federais ao longo do ano passado. Segundo informações oficiais, o sistema caiu por excesso de consultas. Mas deu tempo para ver que o governo, em 2020, gastou R$ 2,2 milhões em chicletes (pelo menos 50 milhões de unidades pelo preço médio de R$ 0,05), R$ 5 milhões em uvas passas, R$ 2,5 milhões em vinhos e R$ 37 milhões em pizzas e refrigerantes, entre outros exageros. Em todos os casos, os volumes de alimentos e bebidas, considerados os preços médios de mercado, são muito mais altos do que os necessários. No caso da goma de mascar, por exemplo, cada militar da ativa teria direito a 135 delas por ano, se todo o efetivo tivesse o mesmo hábito.

A divulgação da lista mostrou também que o risco de superfaturamento nessas compras governamentais é alto, já que elas são pulverizadas regionalmente, pouco controladas, sem governança e envolvem uma complexa rede de interesses, contaminada por relações de compadrio e acordos entre comerciantes regionais e agentes públicos. Sinais estranhos já aparecem. O escritório de advocacia das lojas Havan, de Luciano Hang, representa a empresa Saúde & Vida, que teria contratos de R$ 15 milhões de fornecimento de leite condensado com o governo. Também foi detectado que a empresa DFX, de Elvio da Silva Abreu Júnior, tem acordos de R$ 45 milhões para fornecimento de produtos e serviços ao Exército. Élvio é filho de Azenate Abreu, dono da Saúde & Vida.

Na quarta-feira 27, Bolsonaro, apreciador de pão com leite condensado, participou de um evento privado com artistas de direita em uma churrascaria em Brasília e disse, em mais um momento de desvario, que o produto é para “enfiar no rabo da imprensa”. “Quando eu vejo a imprensa me atacar, dizendo que comprei 2,5 milhões de latas de leite condensado, vai pra puta que o pariu. É para enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado”, disse. Os generais Carlos Alberto dos Santos Cruz e Francisco de Brito chamaram a fala do presidente de “vulgar” e de “populismo barato”. O Ministério da Defesa divulgou uma nota em que justificou o alto consumo de leite condensado pelo “potencial energético”. “O leite condensado é um dos itens que compõem a alimentação de 370 mil homens e mulheres das Forças Armadas”, informou a nota. “Eventualmente, pode ser usado em substituição ao leite. Ressalta-se que a conservação do produto é superior à do leite fresco.” Mesmo assim, não se justifica a compra absurda feita pelo governo. É uma imoralidade que pode se transformar num escândalo.