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Entrevista

Ricardo Mariano, Sociólogo

Os políticos têm de respeitar o Estado laico

Edilson Dantas

Os políticos têm de respeitar o Estado laico

Vicente Vilardaga
Edição 20/07/2018 - nº 2535

Autor do livro “Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil”, Ricardo Mariano, 54 anos, é um dos maiores especialistas em igrejas evangélicas do Brasil e um observador atento da questão religiosa no País. Ele tem acompanhado com preocupação a forma como o prefeito Marcello Crivella (PRB), do Rio de Janeiro, aparelha o governo para favorecer grupos religiosos. Crivella realizou eventos da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual é bispo licenciado, em escolas da rede pública municipal e ofereceu privilégios para membros da comunidade evangélica na fila para operações de catarata, vasectomia e varizes. Também realizou um encontro de pastores e bispos na sede do governo. Para Mariano, tais iniciativas, além de ilegais, ferem o princípio do estado laico e indicam uma intenção do governo de privilegiar os evangélicos em detrimento dos demais cidadãos. “Não é improvável que coisas como essa possam ocorrer sob o governo de outros políticos evangélicos”, diz, nesta entrevista a ISTOÉ. “Muitos deles propõem projetos políticos corporativistas em prol dos interesses das igrejas e tentam impor suas crenças religiosas para o conjunto da sociedade.” O Ministério Público ajuizou uma ação civil pública por improbidade administrativa contra o prefeito.

O aparelhamento do Estado faz parte do projeto de poder das igrejas pentecostais?

Políticos e parlamentares dos mais diferentes partidos, origens e vínculos sociais procuram carrear recursos públicos para suas bases eleitorais e empregar pessoas de sua confiança na máquina pública. Os políticos evangélicos parecem priorizar a contratação de funcionários evangélicos para os cargos de confiança. A reunião de Crivella com 250 pastores e líderes evangélicos no Palácio da Cidade demonstra que seu governo pretende privilegiar igrejas e fiéis de sua religião em detrimento dos demais cidadãos.

Esse caso revela um estilo de governar dos evangélicos? Eles vão sempre utilizar a máquina governamental para propagar suas crenças religiosas?

Não se pode generalizar. O movimento evangélico é muito heterogêneo em diversos aspectos, inclusive no plano político. Fora o fato de que não existe um estilo evangélico de governar. Apesar disso, muitos parlamentares evangélicos propõem projetos políticos corporativistas em prol dos interesses institucionais de suas igrejas e tentam impor suas crenças religiosas privadas para o conjunto da sociedade mediante sua regulamentação jurídica.

Qual é o objetivo do prefeito Marcelo Crivella quando ele realiza eventos da Igreja Universal do Reino de Deus em escolas públicas?

Crivella, por certo, pretende agradar as bases religiosas e eleitorais evangélicas e solidificar o apoio político de suas lideranças pastorais para seu atual governo e seu partido, o PRB, nas próximas eleições. Visa, portanto, não só ampliar a força política de sua legenda como da própria Igreja Universal nos meios evangélicos.

Realizar eventos religiosos em escolas públicas não é uma afronta ao Estado laico?

O uso de escolas públicas para atividades religiosas e assistenciais pela Igreja Universal no Rio de Janeiro, com fins proselitistas, é um desrespeito à laicidade estatal prevista no Artigo 19 da Constituição, que veda ao poder público subvencionar igrejas ou manter relações de dependência ou aliança com elas.

Devemos esperar atitudes parecidas por parte de outros governantes evangélicos?

Não é improvável que elas possam ocorrer sob o governo de outros políticos evangélicos, a despeito de sua ilegalidade.

O Brasil caminha para se tornar um país de maioria evangélica. Qual é o impacto político e comportamental desse avanço?

Não sabemos qual será o teto do crescimento evangélico. Mas é provável que esse segmento religioso se torne majoritário nas próximas décadas. Com isso, ampliará sua força política, partidária e eleitoral. Isso não significa que haverá mais probidade na condução da coisa pública. Políticos evangélicos já deram exemplos diversos de que não diferem de seus pares seculares ou vinculados a outras religiões em matéria de fisiologismo e corrupção. Vide os diversos escândalos que protagonizaram nas últimas três décadas desde a Constituinte até a prisão de Eduardo Cunha. No plano comportamental, a expansão evangélica favorecerá o conservadorismo moral na vida privada.

Qual será o papel dos evangélicos nas próximas eleições? Eles serão decisivos?

Eles podem ser decisivos apenas no caso de haver uma disputa muito acirrada no segundo turno. Nesse caso, seu boicote ou seu apoio maciço a um candidato pode decidir a eleição presidencial. Nos legislativos estadual e federal, devem ampliar sua presença.

Evangélico vota em evangélico?

Não necessariamente. Esses religiosos tendem a seguir as principais tendências eleitorais da sociedade nas eleições majoritárias. Como os demais eleitores, são influenciados por diferentes fontes de informação, sobretudo a propaganda eleitoral em rádio e TV, e por seus respectivos meios sociais, entre os quais suas comunidades religiosas. No Legislativo, igrejas que investem pesado na eleição de candidatos próprios conseguem influenciar eleitoralmente parte de seus fiéis. Para tentar convencer irmão a votar em irmão, pastores alegam que precisam eleger seus irmãos de fé para proteger a liberdade religiosa, que consideram sempre ameaçada, defender o evangelho, a moralidade cristã e a família tradicional de seus inimigos.

Os evangélicos estão, hoje, incorporados em todos os setores da sociedade. Até traficantes tem se aproximado de igrejas pentecostais.

Esses religiosos, tal como outros grupos sociais, criam e recriam fronteiras identitárias nos diferentes contextos em que atuam ao longo do tempo. Estabelecem fronteiras inclusive em relação a outras igrejas, entidades, autoridades e práticas evangélicas. Como se sabe, as igrejas pentecostais, em razão de seu enorme sucesso proselitista entre os estratos de baixa renda, apresentam grande concentração geográfica nas periferias urbanas e nas favelas Brasil afora. Seu trabalho evangelístico nessas áreas, mas também em presídios e penitenciárias, tenta alcançar também os integrantes de facções criminosas. A conversão de criminosos rende testemunhos de grande impacto. Tal aproximação visando à conversão leva traficantes a frequentar cultos, fazer contribuições às igrejas e financiar eventos evangélicos, pedir proteção e livramento do mal, pintar muros e outdoors com mensagens bíblicas.

Os evangélicos formam um grupo político coeso?

Os evangélicos não são coesos politicamente. As igrejas concorrem entre si. No parlamento, também não formam bloco coeso, já que estão divididos entre os que apoiam o governo e o que compõem a oposição. Dividem-se também em termos partidários. Tendem a se unir em torno de pautas morais conservadoras e em defesa de interesses institucionais de suas igrejas. Combatem o que nomeiam de “ideologia de gênero”, o bolivarianismo, o aborto, as demandas LGBTs e feministas, a união civil de pessoas de mesmo sexo. Defendem a liberdade religiosa e um modelo de família tradicional, protagonizam a defesa do projeto Escola sem Partido e aliam-se à “bancada da bala” em defesa do punitivismo em matéria penal. Os chamados evangélicos progressistas, diminutos, quase não dispõem de representação parlamentar.

De que lado está a maioria dos evangélicos? Em que medida eles são uma força conservadora no parlamento?

Dos deputados evangélicos, 89% votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Desde então, a maioria deles compõe a base de apoio do governo Temer e votou majoritariamente a favor dos principais projetos políticos do governo. Nos temas relativos aos direitos humanos, em aliança com parlamentares católicos carismáticos, promovem, invariavelmente, posições conservadoras.

Quais os partidos controlados por grupos evangélicos e quais as diferenças entre eles?

O PRB, criado e liderado por integrantes da Igreja Universal, de inclinação de centro-direita, é pragmático, procura fazer parte dos governos de esquerda ou de direita para auferir os benefícios disso. O PSC, também controlado por evangélicos, assumiu perfil ideológico de extrema direita nos planos econômico e comportamental nos últimos anos e perdeu espaço com a saída de deputados no período de migração interpartidária, entre eles Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro.

Quem compõe a grande bancada evangélica? Como ela trabalha hoje no parlamento?

São 85 deputados federais e três senadores, de igrejas e partidos os mais diversos. Boa parte deles integra a Frente Parlamentar Evangélica. Mas nem todos eles se engajam nas disputas travadas por esses religiosos contra reivindicações feministas, LGBTs, defensores dos Direitos Humanos e da laicidade, entre outras pautas de esquerda. Alguns deputados evangélicos fazem do parlamento uma extensão de suas igrejas e priorizam a defesa de suas causas morais, religiosas e institucionais.

Quais são os candidatos à presidência com mais chances de aglutinar o voto evangélico?

Nas pesquisas eleitorais, Bolsonaro e Marina Silva obtêm maior proporção de intenção de votos entre os evangélicos que entre os demais eleitores. Marina é missionária da Assembleia de Deus e já obteve maior votação entre evangélicos nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, nas quais ficou em terceiro lugar. Católico, Bolsonaro mantém relações estreitas com parlamentares da direita evangélica no Congresso Nacional há vários anos. Para avançar no eleitorado evangélico, tempos atrás divulgou vídeo no Youtube de seu batismo nas águas em Israel efetuado pelo pastor Everaldo, presidente do PSC. Lula conta com a preferência eleitoral de muito mais evangélicos que Bolsonaro e Marina. No entanto, a proporção de evangélicos que pretende votar no petista está abaixo da média de seus demais eleitores, o que demonstra certa resistência evangélica ao PT e a seu pré-candidato.

 

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