Edição nº2564 14/02 Ver edições anteriores

Os políticos e as mentiras

Esse é um daqueles raros casos em que a sabedoria popular chega à mesma conclusão que a ciência: entre todas as profissões, a dos políticos é a que tem os mentirosos mais eficazes. E, ao contrário dos atores, que também vivem de dissimular, eles não merecem aplausos por isso. Não digo que todos os que exercem carreiras públicas são mentirosos. Apenas reproduzo aqui o que os psicólogos sociais constataram — que os políticos mentem mais vezes, com mais intensidade e melhor do que outros mortais. E o fazem com mais facilidade porque seus eleitores querem ser enganados para continuar sonhando que tudo será diferente com seus escolhidos no poder. Não me refiro a nenhum exemplo atual, longe de mim. Apenas divago.

A mentira, para colar, precisa ter elementos de verdade e de emoção para romper a barreira do inacreditável. Uma mentira assim pode até se tornar mais crível do que a própria verdade. Essa, quando nua e crua, incomoda. Há políticos muito bons em apresentar falsidades que se vendem melhor, pelo menos para certo público, do que a mais pura verdade.

Ao longo dos séculos, diversos filósofos analisaram a mentira e seus meandros. O holandês Hugo Grotius (1583-1645) considerava a mentira uma agressão aos direitos dos outros. Mas ele tolerava as inverdades ditas em nome de um bem maior. O problema é que um político que se vê como um messias sempre acha que suas mentiras são por um bem maior, mesmo que, de imediato, sirvam apenas para livrá-lo de suspeitas de falcatruas feitas em benefício pessoal.

Se formos buscar em Nicolau Maquiavel (1469-1527), é claro, as mentiras de governantes e futuros governantes estarão plenamente justificadas. Mas esse é um ponto para outro artigo: o mal que fez para o País a leitura acrítica de Maquiavel por gerações de autoridades públicas, empresários e executivos, que se formaram com a convicção de que os fins justificam os meios. Numa era em que a moralidade é a principal bandeira levantada pelos eleitores, melhor ficar com o alemão Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo moral por excelência. Em resposta a Benjamin Constant (1767-1830, o francês, não o brasileiro), que disse que só se tem o dever de dar a verdade a quem tem direito a ela, Kant escreveu que isso não tem lógica nenhuma, pois não depende do indivíduo que certa declaração seja verdadeira ou falsa. O que existe é um dever perante toda humanidade de se apresentar sempre a verdade, sem distinções e em qualquer situação.

Isso tudo para dizer que, quando um político mente, de nada vale o fato de que uma parcela do seu eleitorado insiste em se deixar iludir. A mentira foi dada, e é uma agressão a todos.

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Diogo Schelp

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