Os piores anos das nossas vidas

É difícil supor que alguém tenha previsto, em 1º de janeiro de 2019, que teríamos três anos terríveis, os piores da história republicana. Imaginava-se que o Bolsonaro faria um governo ruim. Afinal, seria um milagre se aquele deputado do baixo clero, que, em momento algum (e foram 28 anos!), tinha se destacado pelo entendimento das complexas questões de Estado tivesse subitamente se convertido em um bom governante. Mas o pesadelo que estamos vivendo, com acontecimentos diários que nos envergonham no concerto das nações, ah, com a mais absoluta certeza nem o mais pessimista dos analistas poderia supor.

Os anos da presidência Bolsonaro serão eternamente lembrados como o ponto mais baixo, mais vil, da nossa história. Porque além do presidente da República ter desempenhado o papel de inimigo da Constituição e dos valores humanistas da nossa civilização, teve a companhia de milhares de brasileiros que o apoiaram na faina que espalhou a barbárie por todo o território nacional. E, vale destacar, não somente aqueles com precária formação escolar ou oportunistas políticos. Não! Teve a companhia de brasileiros com educação universitária que tiveram a possibilidade de externar seu ódio de classe, seu desprezo pelo povo brasileiro, pela nossa formação histórica. O que estava engasgado durante décadas foi expelido com satisfação, como um momento de gozo, uma espécie de libertação dos valores civilizatórios. Ao assumir a barbárie como visão de mundo, os bolsonaristas se reencontraram com os valores mais reacionários da história do Brasil.

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Bolsonaro não é um acidente, um acaso ou um fenômeno da natureza

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Não é um acidente, um acaso ou uma manifestação de algum fenômeno da natureza como uma erupção vulcânica ou um tsunami. Teremos de fazer uma autocrítica do processo de redemocratização e, especialmente, dos 21 anos do condomínio PSDB-PT. Algo de errado — de muito errado — aconteceu.

A opção pela conciliação com o velho regime, concedendo aos egressos do passado antidemocrático posições de força no aparelho de Estado, acabou petrificando o processo de transição para a democracia. O novo foi impedido de nascer pelo velho, mais uma vez os fatores de conservação se sobrepujaram frente aos fatores de transformação.

A tarefa democrática e civilizatória para 2022 é de varrer o reacionarismo bolsonarista. A derrota dos extremistas nazifascistas é condição sine qua non para a preservação da democracia e dos valões consubstanciados na Constituição.


Sobre o autor

Marco Antônio Villa é historiador, escritor e comentarista da Jovem Pan e TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos (1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993). É Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia (USP) e Doutor em História (USP)


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